Se não me agacho…
26/01/2012 às 22:02 | Publicado em Uncategorized | 2 ComentáriosTags: crônica, desabamento, rio de janeiro, travessa dos poetas de calçada
“Rio de Janeiro — Os prédios do quarteirão compreendido entre as Avenidas 13 de Maio e Almirante Barroso, a Rua Senador Dantas e a Travessa dos Poetas de Calçada, no centro do Rio, foram interditados na manhã de hoje (26) pela Defesa Civil. Todas as pessoas que estavam nesses edifícios estão sendo retiradas. O quarteirão fica em frente ao prédio que desabou na noite de ontem (25).” (Fonte: Agência Brasil, repórter Vitor Abdala)
Há exatamente um ano caminhava pelo quarteirão onde ocorreu agora o desabamento dos três prédios no Rio de Janeiro, para conferir a Travessa dos Poetas de Calçada, que havia descoberto numa viagem curta, pouco antes.
Escrevi, então, uma pequena crônica, que poderá ser lida ou relida clicando aqui.
Se não me agacho…
Parece janeiro
25/01/2012 às 17:08 | Publicado em Uncategorized | 1 ComentárioTags: anos dourados, crônica, era ela, olhos, parece janeiro
(Publicado no Blog da Selma Barcellos)
Caminhava pela praia quando tropeçou nos olhos dela.
Aqueles olhos eram inconfundíveis.
Quase da cor do mar (quase, porque nenhum mar transborda tantos verdes e azuis).
O olhar, que era quase um sol (quase, porque sol algum tem aquele fervor), estava agora mais sereno, quase um luar (quase, porque lua nenhuma reluz assim).
Era ela!
Era ela?
Os cabelos louros estavam mais curtos, os seios, mais fartos, o mesmo nariz e a mesma boca incomuns em surpreendente harmonia.
Era ela!
O corpo ainda esguio na sua insinuante madureza.
Os olhos pousaram nele brevemente, mas o olhar se desviou pouco depois, como o luar que uma nuvem encobre.
Era ela?
Era ele?
A cidade e a praia já não eram as mesmas.
Aquele janeiro não era o mesmo janeiro.
Eles mesmos não eram os mesmos.
Mesmo?
Paraíso borgeano
24/01/2012 às 08:30 | Publicado em Uncategorized | 2 ComentáriosTags: bibiioteca, jorge luis borges, paraíso
«Siempre imaginé que el Paraíso sería algún tipo de biblioteca.»
Jorge Luis Borges
Como se Desenha uma Casa
23/01/2012 às 10:30 | Publicado em Uncategorized | 1 ComentárioTags: literatura, manuel antónio pina, o quarto, os livros, poesia, prêmio camões
«Porque a literatura é uma arte escura de ladrões que roubam a ladrões.»
Os livros
Manuel António Pina
É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo “eu” entre nós e nós?
O quarto
Quem te pôs a mão no ombro,
a faca que te atravessou o coração,
são feridas alheias, talvez algo que leste;
entretanto partiste
para lugares menos iluminados
e corações menos vulneráveis,
pode perguntar-se é o que fazes ainda aqui
se já cá não estás.
A hora havia de chegar em que
nos perderíamos um do outro.
E acabaríamos necessariamente assim,
mortos inventariando mortos.
Morrer, porém, não é fácil,
ficam sombras nem sequer as nossas,
e a nossa voz fala-nos
numa língua estrangeira.
Apaga a luz e vira-te para o outro lado
e acorda amanhã como novo,
barba impecavelmente feita,
o dia um sonho sólido onde a noite se limpa e se deita.
(in “Como se Desenha uma Casa”, Assírio & Alvim, 2011)
Poeta, autor de livros infantis, tradutor e jornalista, Manuel António Pina nasceu em Sabugal (Portugal), no ano de 1943, e vive hoje na cidade do Porto. Somente em 2003, após já haver publicado dezenas de livros, aventurou-se na ficção para adultos, com “Os papéis de K.”.
Em 2011, por escolha unânime dos jurados, recebeu o “Prêmio Camões”, maior premiação literária de língua portuguesa (cujo ganhador em 2010 foi Ferreira Gullar). Ainda em 2011, a Associação Portuguesa de Escritores conferiu-lhe o “Grande Prêmio de Poesia”, pela publicação de “Os Livros”, também editado pela Assírio & Alvim, e esgotado!
Machado de Assis e o Big Brother
20/01/2012 às 15:54 | Publicado em Uncategorized | 1 ComentárioTags: big brother, machado de assis, memorial de aires, orwell
Escrevi este textinho em 2009.
Parece que continua atual.
Reler livros que amamos, mais do que um exercício de prazer, é uma nova e apaixonante aventura.
Coisas que passaram despercebidas antes aguardam pacientemente durante anos para então nos assaltar num canto de página, não para nos arrebatar a bolsa e a vida, mas para sortir um pouco mais nossa bolsa e nossa vida.
Coisas que de outra feita tinham despertado nossa atenção desaparecem ou ganham nova forma, novo matiz, com astúcias de prestidigitador.
Tem toda a razão Alberto Manguel ao dizer que um livro se remodela a cada leitura, e que a famosa frase de Heráclito sobre o tempo aplica-se igualmente à leitura: “Nunca mergulhamos no mesmo livro duas vezes”.
Pois não é que num canto de página do Memorial de Aires (livro subestimado por muitos, que o consideram apenas uma obra crepuscular, de adeus, com enredo pobre, sem atentar para as sutilezas do mestre, que alcançam o seu grau máximo), deparo com uma observação do Conselheiro que antecipa o furor voyeurista do Big Brother de Orwell e das patranhadas escabrosas da Vênus Platinada: “Tempo há de vir em que a fotografia entrará nos quartos dos moribundos para lhes fixar os últimos instantes; e se ocorrer maior intimidade, entrará também.”
Não nos esqueçamos de que Memorial de Aires foi publicado em 1908, quando a fotografia era por excelência o instrumento de registro e difusão de imagem.
As primeiras transmissões experimentais de televisão só ocorreriam na década de 1920.
1984, de Orwell, foi publicado em 1949.
O velho e bom Machado era mesmo um bruxo.
Capitão ao mar
19/01/2012 às 16:00 | Publicado em Uncategorized | 1 ComentárioTags: capitão, costa concordia, crônica, naufrágio, schettino
Dizia Oscar Wilde que só as pessoas superficiais não julgam pelas aparências.
Se assim for, a fotografia do intrépido capitão do Costa Concordia, Francesco Schettino, não deixa dúvida da sua vigarice: a bela estampa, o olhar tristonho, o cabelo longo e engomado, as costelas e o bigodinho afilado de galã do passado ou cantor de tango são o arquétipo do vigarista, digno de um personagem de Fellini.
Posso vê-lo antes do acidente, a desfilar pelo navio com o uniforme impecável e seus galões dourados, jantando com os passageiros, dançando com senhoras e moçoilas encantadas.
Quando a embarcação fez água e o naufrágio era iminente, tratou de se safar, “Mateus, primeiro os teus”.
Segundo noticiado, a gravação da conversa que ele manteve com a Capitania de Livorno demonstraria que omitiu a colisão durante mais de uma hora, não tinha a menor ideia de quantas pessoas estavam sob risco e foi um dos primeiros a abandonar o navio. “Volte a bordo, capitão” teria lhe ordenado o comandante da Capitania, mas o bravíssimo Schettino se esquivou: “Não posso voltar, está escuro lá dentro”.
É claro que como bom italiano o comandante da Capitania lhe falou com toda a delicadeza: “Vada a bordo, cazzo” já virou frase da moda que estampa camisetas na Itália, envergadas por aqueles que adoram manter as aparências.
Seria cômico, se não fosse trágico.
Is the best yet to come?
18/01/2012 às 10:24 | Publicado em Uncategorized | 1 ComentárioTags: laura fygi, música, vídeo
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Laura Fygi — The best is yet to come
Música de Cy Coleman e letra de Carolyn Leigh
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E depois disso tudo, de todo esse talento e trabalho, o DJ toca o disco nas suas vitrolinhas e diz que é “artista”.
Pra mim não, nem obrigado….
Salvem os compositores, músicos e cantores!
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Matinês
15/01/2012 às 14:05 | Publicado em Uncategorized | 1 ComentárioTags: big duke, filmes, john wayne, matinês, o último pistoleiro, poesia, velho oeste
Big Duke
Depois de tantos anos
ele chegou de madrugada como um peregrino
e subiu a escada até a porta
com o ar fatigado da Grande Jornada noite adentro.
Tirou o chapéu e bateu a poeira das botas
de sete léguas de aventuras.
O Último Pistoleiro cruzou o velho oeste
No Tempo das Diligências, seguindo Rastros de Ódio.
Com Bravura Indômita defendeu O Álamo
e foi O Homem que Matou o Facínora,
levando a lei e a ordem onde começava o inferno
em Rio Bravo e El Dorado.
Com seu Espírito Indomável
lutou a grande guerra na Legião Invencível
e nas areias de Iow Jima chegou ao Portal da Glória,
com aqueles que foram os sacrificados
no Mais Longo dos Dias.
Depois do Vendaval, pouco tempo lhe sobrava para o amor,
Quando Um Homem é um Homem há de ser
um Justiceiro Implacável, Detetive Acima da Lei,
enquanto A Morte Segue os Seus Passos
até o confronto final num duelo ao pôr do sol.
De noite quando me batem à porta
nunca sei se é gente viva ou morta
(mas isso pouco me importa).
No tempo da delicadeza…
13/01/2012 às 12:36 | Publicado em Uncategorized | 3 ComentáriosTags: amapola, ennio morricone, lacalle, vídeo
Há jeito melhor de terminar a semana, e começar (finalmente) minhas férias?
Santos Reis
11/01/2012 às 17:15 | Publicado em Uncategorized | 5 ComentáriosTags: crônica, pilatos, reis magos
“Todos os reis cairão diante dele”
(Salmo 72)
Podia ser assim.
Já fazia uns dez dias que o menino tinha nascido quando Baltazar, sem bater à porta, foi entrando no barraco de Melchior.
— Ô compadre, vou lhe pedir um favor, que só depende da sua boa vontade. É necessário uma viração pro José, que está vivendo em grande dificuldade.
— Mas que José? Zé em dificuldade é o que não falta neste mundo.
— Ele está mesmo dançando na corda bamba, ele é aquele que na escola de samba toca cuíca, toca surdo e tamborim. Faça por ele como se fosse por mim.
— Ah, já sei quem é. Mas do que ele precisa?
— Seguinte. No dia 25 nasceu o filho dele. E ele e a mulher estão na pior, lá no Morro da Carestia. Tá faltando tudo. Ele tá desempregado há mais de ano, vivendo de seus biscates de carpinteiro, aqui e acolá. Precisamos dar uma força pro irmão.
— Tudo bem. O que você não me pede sorrindo que eu não faço chorando. Vamos arrumar uns troços por aí, com a comunidade. Outro que pode ajudar é o Gaspar, que anda bem de vida. Vamos falar com ele.
Dois dias depois os três foram até o barraco de José e viram de perto como a situação era aflitiva. O moleque estava enrolado nuns trapos e dormia sobre um amontoado de palha. Nem colchão tinha.
Deixaram lá umas cestas básicas, roupas e outras coisas mais que tinham conseguido arrecadar.
Baltazar, que era pai de santo, benzeu o menino e acendeu um incenso para lhe abrir os caminhos.
Melchior ficou com tanta pena que tirou o cordão de ouro do pescoço e entregou a José para que vendesse e conseguisse algum dinheiro.
Gaspar foi pródigo nas oferendas. Mas fez questão de deixar um óleo perfumado para a mãe passar no menino e lhe trazer boa sorte, como era da tradição de sua família.
A trancos e barrancos o menino foi crescendo, e desde cedo demonstrou seu talento de líder inato, inteligência e esperteza sem igual. Quando não conseguia por bem, ia mesmo na porrada e ninguém podia com ele.
Hoje, aos 33 anos, é tido como o mais perigoso meliante daquelas bandas (dizem que é o chefe do tráfico de uma nova droga, da qual pouco se sabe ), temido por muitos, mas adorado pelos seus seguidores.
O Governador Pilatos, em recente pronunciamento em rede de TV, tranquilizou a população, prometendo que em breve a Polícia vai pegá-lo e dar um fim ao seu reinado.
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