Tom menor

20/02/2012 às 10:26 | Publicado em Uncategorized | 3 Comentários
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            Acordei-me tom menor.

            Segundo meus parcos conhecimentos, o tom ou acorde menor corresponde a um intervalo mais curto (ou menor) entre as notas, o que geralmente faz a música soar mais doce, mais suave, introspectiva, até mesmo algo tristonha ou melancólica.

            Gosto muito de canções assim, talvez porque, no fundo, eu não passe de um tom menor que se disfarça e busca nos tons maiores levar mais leve a vida.

            Também o carnaval, na sua explosão de alegria em tom maior, fantasia os tons menores do dia a dia.

            Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Jardineiras, Tiroleses, Sultões, Odaliscas, Reis, Rainhas, Príncipes e Princesas, “somos todos iguais nesta noite, na frieza de um riso pintado.”

 

            “Quem é você?”

 

            “Hoje eu sou da maneira que você me quer.”

 

            “Eu sou o pirata da perna de pau, do olho de vidro, da cara de mau…”

 

            “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí!”

 

            “Allah-la-ô, ô ô ô ô ô ô

            Mas que calor, ô ô ô ô ô ô.”

 

            “Eu fui às touradas em Madri

            E quase não volto mais aqui!”

 

            “Não existe pecado do lado de baixo do Equador

            Vamos fazer um pecado rasgado, suado a todo vapor.”

 

            “Não se perca de mim

            Não se esqueça de mim

            Não desapareça…”

 

            Quanto riso! Oh, quanta alegria!

 

            “Bandeira branca, amor,

            Não posso mais!”

 

            Passado o carnaval, a quarta-feira virá nas cinzas do tom menor.

 

            “E no entanto é preciso cantar

            Mais que nunca é preciso cantar

            É preciso cantar e alegrar a cidade.”

 

 

 

 

 

 

Viger

18/02/2012 às 03:16 | Publicado em Uncategorized | 1 Comentário
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                                   Na noite insone

                                   a vida assoma e assola

                                   com sôfrega exasperação.

 

                                   O sono pode esperar,

                                   a vida sonhada,

                                   não.

 

 

 

 

No Tom

14/02/2012 às 15:18 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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            Não sei bem o que se me passa (envelheço, amadureço, enterneço?), mas a cada dia que passa gosto cada vez mais de Tom Jobim, em todos os sentidos, do homem à obra.

            Essa parceria dele com Dolores Duran, por exemplo, tem uma linda história.

            Tom havia feito a música e dado a Vinicius para pôr a letra, mas quando Dolores ouviu a canção, pegou um papelucho (consta que um guardanapo de papel) e escreveu os versos de uma só tacada.

            Alguns dias depois, Vinicius trouxe a sua letra para o Tom e este, constrangido, mostrou-lhe a que Dolores fizera. O poetinha ― sempre generoso e amigo ― ouviu, enfiou a sua no bolso sem deixar que Tom a lesse e lhe falou: “Fique com a da menina”.

            A letra de Dolores é de fato muito bonita e se harmoniza perfeitamente com a canção, que se tornou um clássico, mas como seriam os versos de Vinicius?

 

 

 

 

Todas as palavras

10/02/2012 às 12:17 | Publicado em Uncategorized | 1 Comentário
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                                   A palavra é larva que se transmuda

                                   desprende da língua muda

                                   e no seu vôo sonoro

                                   engravida os ouvidos

                                   repetindo o milagre

                                   da Imaculada Conceição.

 

                                   A palavra lavra a folha branca

                                   depositando no seu ventre liso

                                    negras sementes que fecundam

                                    os olhos e a imaginação.

 

                                   Como no poema de Bandeira

                                   a minha vida fica

                                   cada vez mais cheia

                                   de palavras

                                   (e de minhas tantas tolices).

                                   Todas as palavras, menos uma:

                                   a que você nunca me disse.

 

 

 

 

                                

É preciso aprender a ser só (ou a só ser)

08/02/2012 às 11:42 | Publicado em Uncategorized | 1 Comentário
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               Há trinta anos ficamos sós, sem a presença, às vezes doce, às vezes apimentada, de Elis Regina.

               Lá pelos meus verdes vinte anos, tive a graça de conhecê-la na casa dos irmãos Penha, Altamir e Edinho, músicos excepcionais, onde costumava se hospedar (ou pelo menos visitava) quando vinha a Ribeirão Preto e região para se apresentar.

               Levou-me um amigo mais velho, Caio Próspero, que desfrutava da intimidade dos Penha e me recomendou cuidado e discrição perto de Elis, que a qualquer momento podia se zangar e mandar a mim, ou qualquer outro, para um lugar pouco aprazível.

               Comecei então aquela noite de sonho um tanto ressabiado, mantendo-me a certa distância e a olhando de soslaio. “Olhos de águia, ouvidos de elefante e boca de siri”, eis outro velho e bom conselho recebido no passado que sempre trato de seguir, com ótimos resultados. 

               Mas com o decorrer das horas, bebidinhas rolando ao som de canções e interpretações de arrepiar, fui me entusiasmando e soltando, até que de repente, não mais que de repente, estava sentado quase ao lado dela, que me encarou e sorriu duas ou três vezes. Arrisquei mesmo alguns comentários que foram bem recebidos, sem destoar do que se conversava e do clima de intimidade reinante. Enfim, comendo pelas bordas, acabei por entrar na roda de música e encantamento. Elis, ao contrário do que temia, foi gentilíssima com todos até o final da noitada.

               Para minha alegria houve um repeteco meses depois, quando cheguei a ganhar beijinhos no rosto ao cumprimentá-la e ao me despedir.

               Costumo dizer que sempre tivemos cantoras extraordinárias, e continuamos a ter, mas para mim Elis Regina foi, e ainda é, a síntese de todas elas, reunindo em si as melhores qualidades de cada uma de nossas grandes damas.

               Numa daquelas noites, presenciei Elis cantar o lindo samba-canção dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle, “Eu preciso aprender a ser só”, que ela havia gravado. Quando já se achava consagrada, disse em várias entrevistas que a partir daquela interpretação é que começou a ter o respeito da crítica e do público. Talvez ela tenha alcançado então outro patamar de reconhecimento do seu talento, mas muito antes, desde suas primeiras aparições, já era reverenciada como grande cantora e intérprete.

               “Eu preciso aprender a ser só” tornou-se tão marcante que anos mais tarde Gilberto Gil respondeu com o não menos inspirado “Eu preciso aprender a só ser”, sobre o qual o ouvi contar ou li em alguma parte que compôs e gravou para conseguir se livrar da canção dos irmãos Valle que não lhe saía da cabeça e o estava impedindo de fazer outras coisas.

               Aqui vão as duas canções que me despertam tantas lembranças e provocam imensa emoção sempre que ouço.

               Em seguida, um vídeo do meu querido e talentoso amigo José Marcio Castro Alves que dá uma amostra da maestria de Altamir e Edinho Penha (e de como eram as noitadas e os saraus na casa ou na chácara deles).

 

 

 

 

 

 

 

 

O som do silêncio

05/02/2012 às 16:39 | Publicado em Uncategorized | 3 Comentários
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                                                O silêncio de fora

                                                é um pássaro volátil

                                                que a qualquer hora

                                                abre o bico, bate as asas

                                                e vai embora.

 

                                                O silêncio de dentro

                                                é a vaga gaiola

                                                em que se encerra

                                                o canto do pássaro

                                                que não há lá fora.

 

 

 

 

A psicóloga, o Id, o Superego e o Ego

02/02/2012 às 11:59 | Publicado em Uncategorized | 2 Comentários
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Para a Júlia

 

 

               O sol ainda espreguiçava quando o Ego me sacudiu e fez saltar da cama, me enchendo a bola: “Hoje é um grande dia! Formatura da Júlia, a caçulinha! Que beleza! Suas três filhas concluíram o curso superior! Duas já são profissionais de sucesso, e a Júlia vai no mesmo caminho! Você pode se orgulhar!”.

               No fundo, bem sei que o mérito é só delas, mas é difícil não se deixar levar pela comoção e adulação em momentos assim.

               Passei o dia nas nuvens, como o avião em que embarcamos logo depois com destino a São Paulo para participar das solenidades. O Ego na poltrona ao lado. Céu de brigadeiro.

               No finalzinho da tarde, quando me vestia para a colação de grau, o Id deu o ar da sua graça, refletindo no espelho as imagens terríveis do Real: “Engordei! Que droga de cabelo esbranquiçado, que ficou áspero e rebelde, difícil de pentear. E essas rugas? Ainda bem que os óculos disfarçam um pouco… Parece que foi ontem a minha formatura.” E ainda por cima começou a chover…

               Mas logo o Ego voltou a se sentar a meu lado no auditório. “A Júlia é a mais elegante e linda de todas! Olha só ela recebendo o canudo! E foi escolhida para homenagear o patrono da turma! Veja só como ele sorri, a abraça e beija, deve gostar muito dela!”.

               O Superego, sempre muito bem articulado, sistemático e legiferante, não poderia faltar. Pontificou nos tantos discursos, ressaltando o simbolismo da graduação, rito de passagem para os compromissos e as responsabilidades da vida adulta, etc. etc.

               No baile, o Ego novamente se engalanou. “Como a Júlia está exuberante! E que maravilha dançar a valsa com ela! Champanhe, uísque, tim tim!”

               O retorno para o hotel de madrugada foi na companhia do Id, cansado, suado, o estômago revirando dos comes e bebes…

               No dia seguinte, de volta a Ribeirão Preto, Júlia telefona, melancólica com o fim da sua vida estudantil, receosa da duríssima pós-graduação em psicologia hospitalar que já iniciaria no dia 1º de fevereiro. O Id e o Superego estavam com ela.

               Real, Simbólico, Imaginário.

               Id, Superego, Ego.

               Ela vai lidar com eles profissionalmente agora. E cada vez mais, já que pretende se tornar psicanalista.

               Talvez me explique um pouco mais sobre essa Santíssima Trindade lacaniana, se eu não estiver emburrecido demais para entender.

               Como vivente leigo, pressinto que os três se misturam e alternam a cada instante, e talvez a chave esteja nisso, em não se fixar em apenas um deles.

                Afinal, como viver sem a verdade, regras, tradições e uma boa dose de fantasia?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Truffaut e Doinel

31/01/2012 às 11:39 | Publicado em Uncategorized | 1 Comentário
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            Alguns dias de férias (tão poucos!) proporcionam isso.

            Pouco mais de 11 horas da manhã, deparo num canal a cabo com o início de Domicílio Conjugal (1970) de Truffaut, e posso me refestelar na poltrona para continuar a assisti-lo até o final.

            Domicílio Conjugal é o quarto filme da trajetória de Antoine Doinel, tido como alter ego de Truffaut.

            Os filmes anteriores traçam a adolescência traumática (Os Incompreendidos, 1959, vencedor do prêmio de direção em Cannes), os primeiros amores (Amor aos 20 Anos, em que se acha inserido o curta Antoine e Colette, 1962) e o despontar da vida adulta com suas desilusões (Beijos Proibidos, 1968) de Doinel, sempre interpretado por Jean-Pierre Leáud na mesma faixa etária do personagem (e que me parece muito mais expressivo quando jovem, nos dois primeiros filmes, tornando-se um tanto caricato depois).

            Consta ter sido Henri Langlois, o célebre fundador da Cinemateca Francesa, quem estimulou a sequência ao comentar com Truffaut após uma sessão de Beijos Proibidos, que termina com Doinel fazendo juras de amor a Christine (Claude Jade), a curiosidade em vê-los casados e constituindo família.

            Truffaut entendeu, porém, que Doinel não poderia seguir um padrão acomodado às regras sociais, e em Domicílio Conjugal o representou como um tipo empenhado em se ajustar, mas ainda à margem, como refletem seus trabalhos incomuns de tingir flores e controlar o tráfego de navios em miniatura numa maquete.

            Nessa tentativa de se adaptar à vida burguesa, e depois do nascimento do filho Alphonse, Doinel sucumbe à sedução de uma jovem japonesa (Hiroko Berghauer) e põe a perder o casamento, que depois tenta desesperadamente recuperar. Enquanto isso, frequenta bordéis e se comporta como se fosse solteiro, a demonstrar sua insegurança e imaturidade.

            Tudo isso, contudo, transcorre numa atmosfera leve e poética, que explora o aspecto de crônica do cotidiano, entremeada de memórias afetivas e observações sobre a vida, tão características de Truffaut.

            Além de Doinel, outros personagens são inspirados em lembranças do diretor, que quando criança observava fascinado em sua rua um tingidor de flores. Uma tia de Truffaut, assim como Christine, ensinava violino, e até mesmo o homem misterioso conhecido como O Estrangulador — que depois se revela humorista na TV — foi inspirado no amigo de infância e comediante Claude Vega.

            Apesar de todos os filmes protagonizados por Antoine Doinel terem sido feitos a intervalos regulares, a série nunca foi concebida como tal por Truffaut, que sempre pensava não mais voltar ao personagem.

            Mais do que qualquer outro, Domicílio Conjugal deveria ser o último, entretanto Truffaut ainda faria O Amor em Fuga (1979), este sim a conclusão da vida cinematográfica de Doinel (Truffaut morreria em 1984, ano profético da obra de George Orwell).

            Numa das muitas cenas deliciosas de Domicílio Conjugal, Doinel comenta com um vizinho sobre a dificuldade de encontrar um bom título para o livro que está escrevendo, travando-se o seguinte diálogo:

J’aimerais trouver un titre à mon livre.

— Il y a des tambours dans votre livre? 

— Non.

— Des trompettes?

  Non.

— Alors appelez-le “Sans tambour ni trompette” (que, por sinal, é um ótimo título).

            Em O Amor em Fuga, Doinel afinal lançaria — e com sucesso — o seu projetado romance autobiográfico, com o duvidoso título de Les salades de l’amour.

 

 

 

 

 

 

Estrada branca

28/01/2012 às 19:08 | Publicado em Uncategorized | 5 Comentários
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            “Estrada Branca” é o exemplo acabado do encontro de dois talentos na sua plenitude e exata completude.

            A fina melodia de Tom Jobim é uma ária à altura de qualquer um dos maiores compositores clássicos, e a letra de Vinicius de Moraes, na sua aparente simplicidade, é um poema de grande sofisticação e absoluto domínio técnico (rimas internas, aliterações, jogo de palavras), em perfeita harmonia com a melodia de Tom.

            A interpretação de Chico Buarque (que muitos desconsideram como cantor) nada deve a de mestres como Frank Sinatra, Caetano Veloso, Gal Costa, e até mesmo a divina Elizeth Cardoso, entre outros, que gravaram a canção.

  

 

                                    Estrada branca, lua branca, noite alta, tua falta,

                                    caminhando, caminhando, caminhando, ao lado meu.

                                    Uma saudade, uma vontade tão doída,

                                    de uma vida, vida que morreu.

                                    Estrada, passarada, noite clara,

                                    meu caminho é tão sozinho, tão sozinho, a percorrer,

                                    que mesmo andando para a frente,

                                    olhando a lua tristemente

                                    quanto mais ando, mais estou perto de você.

                                    Se em vez de noite fosse dia,

                                    e o sol brilhasse e a poesia

                                    em vez de triste fosse alegre de partir.

                                   Se em vez de eu ver só minha sombra nessa estrada

                                   eu visse ao longo dessa estrada, uma outra sombra a me seguir.

                                   Mas a verdade é que a cidade ficou longe, ficou longe

                                   na cidade, se deixou meu bem-querer,

                                   eu vou sozinho sem carinho,

                                   vou caminhando meu caminho,

                                   vou caminhando com vontade de morrer.

 

 

 

 

 

Se não me agacho…

26/01/2012 às 22:02 | Publicado em Uncategorized | 3 Comentários
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“Rio de Janeiro — Os prédios do quarteirão compreendido entre as Avenidas 13 de Maio e Almirante Barroso, a Rua Senador Dantas e a Travessa dos Poetas de Calçada, no centro do Rio, foram interditados na manhã de hoje (26) pela Defesa Civil. Todas as pessoas que estavam nesses edifícios estão sendo retiradas. O quarteirão fica em frente ao prédio que desabou na noite de ontem (25).” (Fonte: Agência Brasil, repórter Vitor Abdala)

 

 

            Há exatamente um ano caminhava pelo quarteirão onde ocorreu agora o desabamento dos três prédios no Rio de Janeiro, para conferir a Travessa dos Poetas de Calçada, que havia descoberto numa viagem curta, pouco antes.

            Escrevi, então, uma pequena crônica, que poderá ser lida ou relida clicando aqui.

            Se não me agacho…

 

 

 

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