A psicóloga, o Id, o Superego e o Ego

02/02/2012 às 11:59 | Publicado em Uncategorized | 2 Comentários
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Para a Júlia

 

 

               O sol ainda espreguiçava quando o Ego me sacudiu e fez saltar da cama, me enchendo a bola: “Hoje é um grande dia! Formatura da Júlia, a caçulinha! Que beleza! Suas três filhas concluíram o curso superior! Duas já são profissionais de sucesso, e a Júlia vai no mesmo caminho! Você pode se orgulhar!”.

               No fundo, bem sei que o mérito é só delas, mas é difícil não se deixar levar pela comoção e adulação em momentos assim.

               Passei o dia nas nuvens, como o avião em que embarcamos logo depois com destino a São Paulo para participar das solenidades. O Ego na poltrona ao lado. Céu de brigadeiro.

               No finalzinho da tarde, quando me vestia para a colação de grau, o Id deu o ar da sua graça, refletindo no espelho as imagens terríveis do Real: “Engordei! Que droga de cabelo esbranquiçado, que ficou áspero e rebelde, difícil de pentear. E essas rugas? Ainda bem que os óculos disfarçam um pouco… Parece que foi ontem a minha formatura.” E ainda por cima começou a chover…

               Mas logo o Ego voltou a se sentar a meu lado no auditório. “A Júlia é a mais elegante e linda de todas! Olha só ela recebendo o canudo! E foi escolhida para homenagear o patrono da turma! Veja só como ele sorri, a abraça e beija, deve gostar muito dela!”.

               O Superego, sempre muito bem articulado, sistemático e legiferante, não poderia faltar. Pontificou nos tantos discursos, ressaltando o simbolismo da graduação, rito de passagem para os compromissos e as responsabilidades da vida adulta, etc. etc.

               No baile, o Ego novamente se engalanou. “Como a Júlia está exuberante! E que maravilha dançar a valsa com ela! Champanhe, uísque, tim tim!”

               O retorno para o hotel de madrugada foi na companhia do Id, cansado, suado, o estômago revirando dos comes e bebes…

               No dia seguinte, de volta a Ribeirão Preto, Júlia telefona, melancólica com o fim da sua vida estudantil, receosa da duríssima pós-graduação em psicologia hospitalar que já iniciaria no dia 1º de fevereiro. O Id e o Superego estavam com ela.

               Real, Simbólico, Imaginário.

               Id, Superego, Ego.

               Ela vai lidar com eles profissionalmente agora. E cada vez mais, já que pretende se tornar psicanalista.

               Talvez me explique um pouco mais sobre essa Santíssima Trindade lacaniana, se eu não estiver emburrecido demais para entender.

               Como vivente leigo, pressinto que os três se misturam e alternam a cada instante, e talvez a chave esteja nisso, em não se fixar em apenas um deles.

                Afinal, como viver sem a verdade, regras, tradições e uma boa dose de fantasia?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se não me agacho…

26/01/2012 às 22:02 | Publicado em Uncategorized | 3 Comentários
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“Rio de Janeiro — Os prédios do quarteirão compreendido entre as Avenidas 13 de Maio e Almirante Barroso, a Rua Senador Dantas e a Travessa dos Poetas de Calçada, no centro do Rio, foram interditados na manhã de hoje (26) pela Defesa Civil. Todas as pessoas que estavam nesses edifícios estão sendo retiradas. O quarteirão fica em frente ao prédio que desabou na noite de ontem (25).” (Fonte: Agência Brasil, repórter Vitor Abdala)

 

 

            Há exatamente um ano caminhava pelo quarteirão onde ocorreu agora o desabamento dos três prédios no Rio de Janeiro, para conferir a Travessa dos Poetas de Calçada, que havia descoberto numa viagem curta, pouco antes.

            Escrevi, então, uma pequena crônica, que poderá ser lida ou relida clicando aqui.

            Se não me agacho…

 

 

 

Parece janeiro

25/01/2012 às 17:08 | Publicado em Uncategorized | 3 Comentários
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                        (Publicado no Blog da Selma Barcellos)

 

 

 

            Caminhava pela praia quando tropeçou nos olhos dela.

            Aqueles olhos eram inconfundíveis.

            Quase da cor do mar (quase, porque nenhum mar transborda tantos verdes e azuis).

            O olhar, que era quase um sol (quase, porque sol algum tem aquele fervor), estava agora mais sereno, quase um luar (quase, porque lua nenhuma reluz assim).

            Era ela!

            Era ela?

            Os cabelos louros estavam mais curtos, os seios, mais fartos, o mesmo nariz e a mesma boca incomuns em surpreendente harmonia.

            Era ela!

            O corpo ainda esguio na sua insinuante madureza.

            Os olhos pousaram nele brevemente, mas o olhar se desviou pouco depois, como o luar que uma nuvem encobre.

            Era ela?

            Era ele?

            A cidade e a praia já não eram as mesmas.

            Aquele janeiro não era o mesmo janeiro.

            Eles mesmos não eram os mesmos.

            Mesmo?

 

 

 

 

 

Capitão ao mar

19/01/2012 às 16:00 | Publicado em Uncategorized | 1 Comentário
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            Dizia Oscar Wilde que só as pessoas superficiais não julgam pelas aparências.

            Se assim for, a fotografia do intrépido capitão do Costa Concordia, Francesco Schettino, não deixa dúvida da sua vigarice: a bela estampa, o olhar tristonho, o cabelo longo e engomado, as costelas e o bigodinho afilado de galã do passado ou cantor de tango são o arquétipo do vigarista, digno de um personagem de Fellini.

            Posso vê-lo antes do acidente, a desfilar pelo navio com o uniforme impecável e seus galões dourados, jantando com os passageiros, dançando com senhoras e moçoilas encantadas.

            Quando a embarcação fez água e o naufrágio era iminente, tratou de se safar, “Mateus, primeiro os teus”.

            Segundo noticiado, a gravação da conversa que ele manteve com a Capitania de Livorno demonstraria que omitiu a colisão durante mais de uma hora, não tinha a menor ideia de quantas pessoas estavam sob risco e foi um dos primeiros a abandonar o navio. “Volte a bordo, capitão” teria lhe ordenado o comandante da Capitania, mas o bravíssimo Schettino se esquivou: “Não posso voltar, está escuro lá dentro”.

            É claro que como bom italiano o comandante da Capitania lhe falou com toda a delicadeza: “Vada a bordo, cazzo” já virou frase da moda que estampa camisetas na Itália, envergadas por aqueles que adoram manter as aparências.

            Seria cômico, se não fosse trágico.

 

 

 

 

Santos Reis

11/01/2012 às 17:15 | Publicado em Uncategorized | 5 Comentários
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“Todos os reis cairão diante dele”

(Salmo 72)

 

 

            Podia ser assim.

            Já fazia uns dez dias que o menino tinha nascido quando Baltazar, sem bater à porta, foi entrando no barraco de Melchior.

            — Ô compadre, vou lhe pedir um favor, que só depende da sua boa vontade. É necessário uma viração pro José, que está vivendo em grande dificuldade.

            — Mas que José? Zé em dificuldade é o que não falta neste mundo.

            — Ele está mesmo dançando na corda bamba, ele é aquele que na escola de samba toca cuíca, toca surdo e tamborim. Faça por ele como se fosse por mim.

            — Ah, já sei quem é. Mas do que ele precisa?

            — Seguinte. No dia 25 nasceu o filho dele. E ele e a mulher estão na pior, lá no Morro da Carestia. Tá faltando tudo. Ele tá desempregado há mais de ano, vivendo de seus biscates de carpinteiro, aqui e acolá. Precisamos dar uma força pro irmão.

            — Tudo bem. O que você não me pede sorrindo que eu não faço chorando. Vamos arrumar uns troços por aí, com a comunidade. Outro que pode ajudar é o Gaspar, que anda bem de vida. Vamos falar com ele.

            Dois dias depois os três foram até o barraco de José e viram de perto como a situação era aflitiva. O moleque estava enrolado nuns trapos e dormia sobre um amontoado de palha. Nem colchão tinha.

            Deixaram lá umas cestas básicas, roupas e outras coisas mais que tinham conseguido arrecadar.

            Baltazar, que era pai de santo, benzeu o menino e acendeu um incenso para lhe abrir os caminhos.

            Melchior ficou com tanta pena que tirou o cordão de ouro do pescoço e entregou a José para que vendesse e conseguisse algum dinheiro.

            Gaspar foi pródigo nas oferendas. Mas fez questão de deixar um óleo perfumado para a mãe passar no menino e lhe trazer boa sorte, como era da tradição de sua família.

            A trancos e barrancos o menino foi crescendo, e desde cedo demonstrou seu talento de líder inato, inteligência e esperteza sem igual. Quando não conseguia por bem, ia mesmo na porrada e ninguém podia com ele.

            Hoje, aos 33 anos, é tido como o mais perigoso meliante daquelas bandas (dizem que é o chefe do tráfico de uma nova droga, da qual pouco se sabe ), temido por muitos, mas adorado pelos seus seguidores.

            O Governador Pilatos, em recente pronunciamento em rede de TV, tranquilizou a população, prometendo que em breve a Polícia vai pegá-lo e dar um fim ao seu reinado.

 

 

 

 

 

A Travessa dos Poetas de Calçada

20/01/2011 às 23:19 | Publicado em Uncategorized | 3 Comentários
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                        Quando estive no Rio, de afogadilho, para assistir à apresentação dos painéis “Guerra e Paz” de Portinari no Theatro Municipal, descobri por acaso a “Travessa dos Poetas de Calçada”.

                        Foi assim.

                        Logo depois de dar entrada no hotel, por volta das 10 horas, tomei um táxi e fui direto ao Theatro Municipal para pegar o meu convite, conforme instruções que havia recebido.

                        Soube então que a retirada dos convites não era na bilheteria do Theatro, como imaginava, mas sim num outro prédio ao lado. A minha ansiedade era tanta, que cheguei entes da equipe encarregada da entrega dos convites.

                        Enquanto esperava, para matar o tempo, saí a andar pelas imediações, dando vazão ao meu espírito de flâneur quando me vejo numa cidade desconhecida. O Rio não me é totalmente estranha, pelo contrário, mas a bem de ver todas as cidades, por mais que as conheçamos, sempre nos reservam surpresas, como uma amante caprichosa e sedutora.

                        Caminhei pela Avenida Treze de Maio e pela Rua Senador Dantas até que numa esquina deparei com uma tabuleta do restaurante Al Kwait, que se denomina o árabe mais antigo do Rio, anunciando as especiarias que minha avó materna fazia como ninguém.

                        O restaurante ainda não estava aberto para o almoço àquela hora da manhã, mas servia algumas guloseimas, como quibes e esfihas, num balcão e nas mesas da calçada. Sentei-me numa delas e pedi uma coalhada, um suco de laranja e um café.

                        Súbito, ao olhar a placa da indicação do local, me surpreendi-e emocionei ao ver que estava na Travessa dos Poetas de Calçada, um desses becos do centro do Rio em que provavelmente muitos passam sem dar a mínima atenção ao nome. Não havia na placa explicação alguma sobre os tais poetas de calçada. Aos que perguntei, garçons e pessoas que por ali estavam, ningúem sabia de nada.

                        Anotei o nome e o local para verificar depois, com mais calma.

                        Hoje retornei lá, mas as informações que colhi foram mesmo na internet e, aliás, são poucas.

                        Consta que nos anos 70 um poeta chamado Gilson escrevia poemas com giz em tapumes naquelas cercanias. Descobri, também, que Drummond trabalhava próximo dali, no Castelo, mas certamente o nome da travessa deve ser muito anterior aos dois.

                        Pouco importa. O que interessa é a maravilha do nome da travessa e para onde ele transporta a nossa imaginação.

                        Quem seriam os poetas de calçada? Poetas sem teto, que viviam pelas calçadas do beco?

                        Ou  será que apenas se reuniam naquele beco para dizer e escrever seus poemas? Uma confraria?

                        Haveria ali uma feira de poesia, com bancas de poemas fresquinhos (segundo o estilo), como nas feiras livres, para vender aos apaixonados ou vaidosos que apresentariam como seus às amadas ou nos saraus? Se houvesse, aconteceria também aquela hora da xepa do final das feiras, quando os produtos não vendidos ou rejeitados são vendidos mais baratos?

                       Quando foi isso?

                       Rubem Fonseca, que infelizmente tem escrito muita porcaria nos últimos tempos — seu mais recente romance (?) “O Seminarista” chega a ser constrangedor —, mas que sem dúvida é um grande mestre da narrativa, tem um conto antológico, recentemente reeditado pela Editora Agir, intitulado “A arte de andar pelas ruas do Rio de Janeiro”, em que o personagem Augusto Epifânio é um emérito perambulante do centro do Rio, mas não consta que ande pela Travessa dos Poetas de Calçada.

                        Eu, pobre homem da póvoa do Bexiga e do São Sebastião do Ribeirão Preto, é quem fui andar por lá.

 

 

 

 

 

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