Como se Desenha uma Casa

23/01/2012 às 10:30 | Publicado em Uncategorized | 3 Comentários
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«Porque a literatura é uma arte escura de ladrões que roubam a ladrões.»

 

 

                                                           Os livros

 

                                                                                                          Manuel António Pina

 

                                               É então isto um livro,

                                               este, como dizer?, murmúrio,

                                               este rosto virado para dentro de

                                               alguma coisa escura que ainda existe

                                               que, se uma mão subitamente

                                               inocente a toca,

                                               se abre desamparadamente

                                               como uma boca

                                               falando com a nossa voz?

                                               É isto um livro,

                                               esta espécie de coração (o nosso coração)

                                               dizendo “eu” entre nós e nós?

 

 

                                                           O quarto

 

 

                                               Quem te pôs a mão no ombro,

                                               a faca que te atravessou o coração,

                                               são feridas alheias, talvez algo que leste;

                                                entretanto partiste

 

                                                para lugares menos iluminados

                                                e corações menos vulneráveis,

                                                pode perguntar-se é o que fazes ainda aqui

                                                se já cá não estás.

 

                                                A hora havia de chegar em que

                                                nos perderíamos um do outro.

                                                E acabaríamos necessariamente assim,

                                                mortos inventariando mortos.

 

                                                Morrer, porém, não é fácil,

                                                ficam sombras nem sequer as nossas,

                                                e a nossa voz fala-nos

                                                numa língua estrangeira.

 

                                                Apaga a luz e vira-te para o outro lado

                                                e acorda amanhã como novo,

                                                barba impecavelmente feita,

                                                o dia um sonho sólido onde a noite se limpa e se deita.

 

(in “Como se Desenha uma Casa”, Assírio & Alvim, 2011)

 

 

            Poeta, autor de livros infantis, tradutor e jornalista, Manuel António Pina nasceu em Sabugal (Portugal), no ano de 1943, e vive hoje na cidade do Porto. Somente em 2003, após já haver publicado dezenas de livros, aventurou-se na ficção para adultos, com “Os papéis de K.”.

            Em 2011, por escolha unânime dos jurados, recebeu o “Prêmio Camões”, maior premiação literária de língua portuguesa (cujo ganhador em 2010 foi Ferreira Gullar). Ainda em 2011, a Associação Portuguesa de Escritores conferiu-lhe o “Grande Prêmio de Poesia”, pela publicação de “Os Livros”, também editado pela Assírio & Alvim, e esgotado!

 

 

 

 

 

Abominável e adorável

05/01/2012 às 01:24 | Publicado em Uncategorized | 2 Comentários
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 Cemitério Judeu de Praga

 

 

            Nos últimos dias andei envolvido até a medula  — sem que conseguisse me livrar dele —  com um tipo completamente abominável, e absolutamente adorável.

            Um paradoxo redivivo, piemontês, filho de pai turinês e mãe francesa (ou saboiana), misantropo, misógino, glutão, rematado falsário e trapaceiro, de nenhum escrúpulo.

            Antes de mim (que nada sou), esteve ele em contato com grandes vultos do século XIX, como Garibaldi (“de estatura modesta, não louro, mas alourado, pernas curtas e arqueadas e, a julgar pelo modo de andar, vítima de reumatismo.”); Dumas (“A pele olivácea, os lábios pronunciados, túmidos e sensuais, um capacete de cabelos crespos como os de um selvagem africano.”); Zola (“um escritor algo vulgar como Zola publicou um artigo inflamado (J’accuse!); um grupo de escrevinhadores e supostos cientistas veio a campo exigindo a revisão do processo. Quem são esses Proust, France, Sorel, Monet, Renard, Durkheim? Nunca os vi no salão Adam. Desse Proust, dizem-me que é um pederasta de 25 anos, autor de escritos felizmente inéditos, e Monet um borra-tintas de quem vi um ou dois quadros nos quais ele parece enxergar o mundo com olhos remelentos.”) ; Vitor Hugo (“agora transformado em monumento de si mesmo, paralisado pela idade, pela toga senatorial e pelas sequelas de uma congestão cerebral.”); até mesmo com um certo Dr. “Froïde” (conforme ele grafa), ainda a esboçar suas teorias, a quem abasteceu da cocaína que o ajudava a vencer a melancolia recidiva durante a estada em Paris para tomar lições com o mestre Charcot.

            Acompanhou de perto e participou sub-repticiamente de acontecimentos memoráveis, como as batalhas de unificação da Itália, a tomada da França pelos prussianos, a Comuna de Paris, o caso Dreyfus, a divulgação dos célebres “Protocolos dos Sábios do Sião” e muitos outros mais (incluindo uma missa negra).

            Judeus, jesuítas, maçons, alemães, franceses, italianos, mulheres, ninguém escapa da sua repulsa e maledicência:

 

Judeus: “E quando eu crescera o suficiente para entender, ele (o avô) me recordava que o judeu, além de vaidoso como um espanhol, ignorante como um croata, cúpido como um levantino, ingrato como um maltês, insolente como um cigano, sujo como um inglês, untuoso como um calmuco, autoritário como um prussiano e maldizente como um astiense, é adúltero por um cio irrefreável — resultado da circuncisão, que os torna mais eréteis, com uma desproporção monstruosa entre o nanismo da corporatura e o tamanhão cavernoso daquela sua excrescência semimutilada. Sonhei com os judeus todas as noites, por anos e anos. Por sorte, nunca encontrei algum, exceto a putinha do gueto de Turim, quando eu era rapaz (mas não troquei mais de duas palavras), e o doutor austríaco (ou alemão, dá no mesmo).”

 

Alemães: “O abuso da cerveja torna-os incapazes de ter a mínima ideia da sua vulgaridade, mas o superlativo dessa vulgaridade é que não se envergonham de ser alemães. Levaram a sério um monge glutão e luxurioso como Lutero (pode-se desposar uma monja?), só porque arruinou a Bíblia traduzindo-a para a língua deles. Alguém não disse que abusaram dos dois grandes narcóticos europeus, o álcool e o cristianismo? Consideram-se profundos porque sua língua é vaga, não tem a clareza da francesa e nunca diz exatamente o que deveria, de modo que nenhum alemão sabe jamais o que queria dizer — e toma essa incerteza por profundidade. Com os alemães é como com as mulheres, nunca se chega ao fundo.”

 

Franceses: “Desde que me tornei francês (e já o era pela metade, pelo lado materno), compreendi quanto meus novos compatriotas são preguiçosos, trapaceiros, rancorosos, ciumentos, orgulhosos além de todos os limites, a ponto de pensarem que quem não é francês é um selvagem, e incapazes de aceitar críticas.” [...] “Não amam seus semelhantes, nem quando tiram vantagem deles. Ninguém é tão mal-educado como um taberneiro francês, que parece odiar os fregueses (e talvez seja verdade) e desejar que não estivessem ali (e é mentira, porque o francês é avidíssimo) Ils grognent toujours. Experimentem lhe perguntar alguma coisa: sais pas, moi, e protraem os lábios como se peidassem. São maus. Matam por tédio. É o único povo que durante vários anos manteve seus cidadãos ocupados em se cortarem reciprocamente a cabeça, e a sorte foi que Napoleão desviou-lhes a raiva para os de outra raça, enfileirando-os para destruir a Europa.”

 

Italianos: “O italiano é inconfiável, mentiroso, vil, traidor, sente-se mais à vontade com o punhal que com a espada, melhor com o veneno que com o fármaco, escorregadio nas negociações, coerente apenas em trocar de bandeira a cada vento – e eu vi o que aconteceu aos generais bourbônicos assim que apareceram os aventureiros de Garibaldi e os generais piemonteses. É que os italianos se modelaram com base nos padres, o único governo verdadeiro que já tivemos desde que aquele pervertido do último imperador romano foi sodomizado pelos bárbaros porque o cristianismo havia debilitado a altivez da raça antiga.”

 

Padres e Maçons: “Você começa a tê-los ao redor assim que nasce, quando o batizam; reencontra-os na escola, se seus pais tiverem sido suficientemente carolas para confiá-lo a eles; depois, vêm a primeira comunhão, o catecismo e a crisma; lá está o padre no dia do seu casamento, a lhe dizer o que você deve fazer no quarto; e no dia seguinte, no confessionário, a lhe perguntar, para poder se excitar atrás da treliça, quantas vezes você fez aquilo. Falam-lhe do sexo com horror, mas todos os dias você os vê sair de um leito incestuoso sem sequer lavar as mãos, e vão comer e beber o seu Senhor, para depois cagá-lo e mijá-lo.” [...] “Os piores de todos são certamente os jesuítas. Tenho como que a sensação de lhes haver pregado algumas peças, ou talvez tenham sido eles que me fizeram mal, ainda não recordo bem. Ou talvez tenham sido seus irmãos carnais, os maçons. Como os jesuítas, apenas um pouco mais confusos.” [...] “Maçons e jesuítas. Os jesuítas são maçons vestidos de mulher.”

 

“Quem amo? Não me vêm à mente rostos amados. Sei que amo a boa cozinha: ao pronunciar o nome La Tour d’Argent, experimento como que um frêmito por todo o corpo. É o amor?”

 

            Calma, não se aprestem para acender as fogueiras da Nova Inquisição do Politicamente Correto e torrar esse ímpio, que é apenas o protagonista do magnífico e delicioso romance de Umberto Eco, “O Cemitério de Praga”, que nos reconduz ao gênero irresistível dos “feuilletons”, ao longo das quase 500 páginas (em tradução irrepreensível de Joana Angélica d’Ávila Mello e com ilustrações preciosas, a maioria do arquivo iconográfico do próprio Eco), que não se consegue parar de ler.

            Ao final, o próprio Eco (o Narrador) esclarece: “O único personagem inventado nesta história é o protagonista, Simone Simonini — ao passo que não é inventado o capitão Simonini, seu avô, embora a História só o conheça como o misterioso autor de uma carta ao abade Barruel.”  [...]  “Porém, pensando bem, até Simone Simonini, embora seja o efeito de uma colagem, pela qual lhe foram atribuídas coisas feitas na realidade por pessoas diferentes, existiu de algum modo. Ou melhor, em uma palavra, ela ainda está entre nós.”

 

 

 

 

 

 

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