Viger
18/02/2012 às 03:16 | Publicado em Uncategorized | 1 ComentárioTags: insônia, poesia, sonho, sono, vida
Na noite insone
a vida assoma e assola
com sôfrega exasperação.
O sono pode esperar,
a vida sonhada,
não.
Todas as palavras
10/02/2012 às 12:17 | Publicado em Uncategorized | 1 ComentárioTags: chico buarque, manuel bandeira, palavra, poesia, vídeo
A palavra é larva que se transmuda
desprende da língua muda
e no seu vôo sonoro
engravida os ouvidos
repetindo o milagre
da Imaculada Conceição.
A palavra lavra a folha branca
depositando no seu ventre liso
negras sementes que fecundam
os olhos e a imaginação.
Como no poema de Bandeira
a minha vida fica
cada vez mais cheia
de palavras
(e de minhas tantas tolices).
Todas as palavras, menos uma:
a que você nunca me disse.
O som do silêncio
05/02/2012 às 16:39 | Publicado em Uncategorized | 3 ComentáriosTags: gaiola, pássaro, poema, poesia, silêncio, som
O silêncio de fora
é um pássaro volátil
que a qualquer hora
abre o bico, bate as asas
e vai embora.
O silêncio de dentro
é a vaga gaiola
em que se encerra
o canto do pássaro
que não há lá fora.
Como se Desenha uma Casa
23/01/2012 às 10:30 | Publicado em Uncategorized | 3 ComentáriosTags: literatura, manuel antónio pina, o quarto, os livros, poesia, prêmio camões
«Porque a literatura é uma arte escura de ladrões que roubam a ladrões.»
Os livros
Manuel António Pina
É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo “eu” entre nós e nós?
O quarto
Quem te pôs a mão no ombro,
a faca que te atravessou o coração,
são feridas alheias, talvez algo que leste;
entretanto partiste
para lugares menos iluminados
e corações menos vulneráveis,
pode perguntar-se é o que fazes ainda aqui
se já cá não estás.
A hora havia de chegar em que
nos perderíamos um do outro.
E acabaríamos necessariamente assim,
mortos inventariando mortos.
Morrer, porém, não é fácil,
ficam sombras nem sequer as nossas,
e a nossa voz fala-nos
numa língua estrangeira.
Apaga a luz e vira-te para o outro lado
e acorda amanhã como novo,
barba impecavelmente feita,
o dia um sonho sólido onde a noite se limpa e se deita.
(in “Como se Desenha uma Casa”, Assírio & Alvim, 2011)
Poeta, autor de livros infantis, tradutor e jornalista, Manuel António Pina nasceu em Sabugal (Portugal), no ano de 1943, e vive hoje na cidade do Porto. Somente em 2003, após já haver publicado dezenas de livros, aventurou-se na ficção para adultos, com “Os papéis de K.”.
Em 2011, por escolha unânime dos jurados, recebeu o “Prêmio Camões”, maior premiação literária de língua portuguesa (cujo ganhador em 2010 foi Ferreira Gullar). Ainda em 2011, a Associação Portuguesa de Escritores conferiu-lhe o “Grande Prêmio de Poesia”, pela publicação de “Os Livros”, também editado pela Assírio & Alvim, e esgotado!
Matinês
15/01/2012 às 14:05 | Publicado em Uncategorized | 1 ComentárioTags: big duke, filmes, john wayne, matinês, o último pistoleiro, poesia, velho oeste
Big Duke
Depois de tantos anos
ele chegou de madrugada como um peregrino
e subiu a escada até a porta
com o ar fatigado da Grande Jornada noite adentro.
Tirou o chapéu e bateu a poeira das botas
de sete léguas de aventuras.
O Último Pistoleiro cruzou o velho oeste
No Tempo das Diligências, seguindo Rastros de Ódio.
Com Bravura Indômita defendeu O Álamo
e foi O Homem que Matou o Facínora,
levando a lei e a ordem onde começava o inferno
em Rio Bravo e El Dorado.
Com seu Espírito Indomável
lutou a grande guerra na Legião Invencível
e nas areias de Iow Jima chegou ao Portal da Glória,
com aqueles que foram os sacrificados
no Mais Longo dos Dias.
Depois do Vendaval, pouco tempo lhe sobrava para o amor,
Quando Um Homem é um Homem há de ser
um Justiceiro Implacável, Detetive Acima da Lei,
enquanto A Morte Segue os Seus Passos
até o confronto final num duelo ao pôr do sol.
De noite quando me batem à porta
nunca sei se é gente viva ou morta
(mas isso pouco me importa).
Haicais pontuais 2 (A Missão)
03/01/2012 às 14:54 | Publicado em Uncategorized | 1 ComentárioTags: haicai, poesia
Ponto final
Sucessão infinitesimal
nenhum ponto da linha
é ponto final
Vírgula
Para, velhos, gramáticos,
pausa, respiratória,
entremeio, de, asmáticos.
Reticências
(Para a Selma)
Interrupta sapiência
cada ponto sentencia
além da ciência…
e/ou
Trípticos
pontos críticos
a linha alinhavam…
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