Se não me agacho…
26/01/2012 às 22:02 | Publicado em Uncategorized | 3 ComentáriosTags: crônica, desabamento, rio de janeiro, travessa dos poetas de calçada
“Rio de Janeiro — Os prédios do quarteirão compreendido entre as Avenidas 13 de Maio e Almirante Barroso, a Rua Senador Dantas e a Travessa dos Poetas de Calçada, no centro do Rio, foram interditados na manhã de hoje (26) pela Defesa Civil. Todas as pessoas que estavam nesses edifícios estão sendo retiradas. O quarteirão fica em frente ao prédio que desabou na noite de ontem (25).” (Fonte: Agência Brasil, repórter Vitor Abdala)
Há exatamente um ano caminhava pelo quarteirão onde ocorreu agora o desabamento dos três prédios no Rio de Janeiro, para conferir a Travessa dos Poetas de Calçada, que havia descoberto numa viagem curta, pouco antes.
Escrevi, então, uma pequena crônica, que poderá ser lida ou relida clicando aqui.
Se não me agacho…
O Rio é tão longe
31/12/2011 às 09:54 | Publicado em Uncategorized | 6 ComentáriosTags: otto lara resende, rio de janeiro
“Não é grafomania. É civilidade.”
(Otto Lara Resende)
Meu pai, meu mestre
Encarapitados nas suas montanhas e nos seus belos horizontes, será mesmo o Rio tão longe para os mineiros, nostálgicos do mar que não têm?
Afinal, navegar é preciso; viver não é preciso, e mineiros de tantas gerações de ouro deixaram aquela Minas telúrica e provinciana (que não há mais) e foram aportar no Rio, capital do Brasil (e acaso existirá algum Brasil?).
Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, e depois Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, os quatro Cavaleiros do Apocalipse, segundo eles próprios. Apocalipse que também não houve (ou então já aconteceu e não percebemos).
Você bem poderia ter estado com eles ― e de certo modo esteve ― mas preferiu se embrenhar pela Mogiana bandeirante, não sem antes, em breve paragem nos vastos campos de Piratininga, conceber com uma também mineira este paulistano desgarrado, das quebradas do Bexiga, coestaduano de Adoniran.
O Rio agora está tão perto com os aviões de carreira cada vez mais a jato. Menos de uma hora. Mas você hesita em aceitar meu convite para desfrutá-lo, e sempre dá uma desculpa para se enfurnar em casa. Eta mineiro desconfiado!
Talvez o Rio também já não exista. Apenas resquícios do Rio de Machado, Ruy, Drummond, daqueles quatro cavaleiros mineiros de um “íntimo apocalipse”, de Vinicius e Jobim, de uma amorosa lua de mel, ainda resistem.
Mas o que nos resta senão resistir?
A Travessa dos Poetas de Calçada
20/01/2011 às 23:19 | Publicado em Uncategorized | 3 ComentáriosTags: crônica, poetas de calçada, rio de janeiro, travessa
Quando estive no Rio, de afogadilho, para assistir à apresentação dos painéis “Guerra e Paz” de Portinari no Theatro Municipal, descobri por acaso a “Travessa dos Poetas de Calçada”.
Foi assim.
Logo depois de dar entrada no hotel, por volta das 10 horas, tomei um táxi e fui direto ao Theatro Municipal para pegar o meu convite, conforme instruções que havia recebido.
Soube então que a retirada dos convites não era na bilheteria do Theatro, como imaginava, mas sim num outro prédio ao lado. A minha ansiedade era tanta, que cheguei entes da equipe encarregada da entrega dos convites.
Enquanto esperava, para matar o tempo, saí a andar pelas imediações, dando vazão ao meu espírito de flâneur quando me vejo numa cidade desconhecida. O Rio não me é totalmente estranha, pelo contrário, mas a bem de ver todas as cidades, por mais que as conheçamos, sempre nos reservam surpresas, como uma amante caprichosa e sedutora.
Caminhei pela Avenida Treze de Maio e pela Rua Senador Dantas até que numa esquina deparei com uma tabuleta do restaurante Al Kwait, que se denomina o árabe mais antigo do Rio, anunciando as especiarias que minha avó materna fazia como ninguém.
O restaurante ainda não estava aberto para o almoço àquela hora da manhã, mas servia algumas guloseimas, como quibes e esfihas, num balcão e nas mesas da calçada. Sentei-me numa delas e pedi uma coalhada, um suco de laranja e um café.
Súbito, ao olhar a placa da indicação do local, me surpreendi-e emocionei ao ver que estava na Travessa dos Poetas de Calçada, um desses becos do centro do Rio em que provavelmente muitos passam sem dar a mínima atenção ao nome. Não havia na placa explicação alguma sobre os tais poetas de calçada. Aos que perguntei, garçons e pessoas que por ali estavam, ningúem sabia de nada.
Anotei o nome e o local para verificar depois, com mais calma.
Hoje retornei lá, mas as informações que colhi foram mesmo na internet e, aliás, são poucas.
Consta que nos anos 70 um poeta chamado Gilson escrevia poemas com giz em tapumes naquelas cercanias. Descobri, também, que Drummond trabalhava próximo dali, no Castelo, mas certamente o nome da travessa deve ser muito anterior aos dois.
Pouco importa. O que interessa é a maravilha do nome da travessa e para onde ele transporta a nossa imaginação.
Quem seriam os poetas de calçada? Poetas sem teto, que viviam pelas calçadas do beco?
Ou será que apenas se reuniam naquele beco para dizer e escrever seus poemas? Uma confraria?
Haveria ali uma feira de poesia, com bancas de poemas fresquinhos (segundo o estilo), como nas feiras livres, para vender aos apaixonados ou vaidosos que apresentariam como seus às amadas ou nos saraus? Se houvesse, aconteceria também aquela hora da xepa do final das feiras, quando os produtos não vendidos ou rejeitados são vendidos mais baratos?
Quando foi isso?
Rubem Fonseca, que infelizmente tem escrito muita porcaria nos últimos tempos — seu mais recente romance (?) “O Seminarista” chega a ser constrangedor —, mas que sem dúvida é um grande mestre da narrativa, tem um conto antológico, recentemente reeditado pela Editora Agir, intitulado “A arte de andar pelas ruas do Rio de Janeiro”, em que o personagem Augusto Epifânio é um emérito perambulante do centro do Rio, mas não consta que ande pela Travessa dos Poetas de Calçada.
Eu, pobre homem da póvoa do Bexiga e do São Sebastião do Ribeirão Preto, é quem fui andar por lá.

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