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Conversação com uma senhora

         

         Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Não seria adequado que ela viesse à minha casa, àquela hora, e desacompanhada. De qualquer maneira, eu sou velho, e embora me achasse só, não vi nenhuma inconveniência na sua visita. Pela janela, eu havia percebido quando ela desceu do coche. Segurava um dos lados da saia, que se arrastava no chão. Além do véu, as abas do grande chapéu cobriam-lhe parte do rosto. Trazia uma sombrinha na outra mão. Do corpete bem apertado desabrochava-lhe o busto, com os seios firmes.

Abri-lhe a porta.

Ela entrou, olhou-me por trás do véu, e antes de me estender a mão, descalçou a luva de cano alto. Com uma reverência, beijei-lhe os dedos. Ela sorriu, e tirou o chapéu. Desprendia-se do seu corpo um perfume suave. Peguei-lhe o chapéu, a sombrinha, as luvas, e fui pousar tudo no porta-chapéus. Em seguida, movi para perto dela a poltrona mais confortável, e ela sentou-se. Ainda de pé, perguntei-lhe se desejava que abrisse a janela, ou se preferia que continuasse velada pela cortina. Ela fez um gesto, soerguendo um pouco os ombros nus, que entendi ser uma concordância com o que eu achasse melhor.

Puxei uma cadeira de braços e sentei-me em frente dela. Fazia um pouco de frio, e perguntei-lhe se aceitava uma chávena de chá. Respondeu-me que sim. Ergui-me, pedi-lhe desculpas por me afastar, e fui preparar o chá. Alguns minutos depois, retornei com o chá, os biscoitos, as fatias de bolo, e servi-a. E eu também bebi uma chávena de chá junto com ela. A ponta dos seus sapatinhos aparecia na fímbria da saia. Ela circulou os olhos, olhos de longos cílios, pelas prateleiras dos meus livros.

─ Disseram-me que o senhor lê muito. Com tantos livros aqui, vejo que deve ser verdade.

─ Sim, minha senhora, leio de dia e de noite. Ainda agora, antes que a senhora viesse, estava relendo…

Ela ergueu a mão.

─ Sim, eu sei… Foi por isso que eu vim.

─ Venha quando quiser, madame. Será sempre bem recebida.

Ela pousou a chávena de chá sobre a mesinha, e enxugou delicadamente os lábios com o guardanapo

─ Além de leitor contumaz, o senhor á advogado. Muito conveniente. Ele também era advogado. Mas não vim pedir-lhe que seja meu advogado, nem propor-lhe uma causa.

Com efeito, eu observei-lhe, a justiça é muito errática. E muito subjetiva. E a mim parecia que as sentenças nunca deviam transitar em julgado. Ao contrário, os processos deviam estar sempre sendo renovados, acrescidos, com novos argumentos, a eliminação de outros, as provas se sobrepondo e as sentenças se desdizendo. Até acreditava que, no outro mundo, devia ser assim. Lá, devíamos ser permanentemente inocentes e culpados.

─ O senhor diz isto com muita graça ─ ela pareceu concordar. ─ Na eternidade, nada acaba. Tudo está começando, e continuando.

Não lhe perguntei se ela era feliz. Parecia-me bem, muito bem, no esplendor dos seus trinta e poucos anos, e supus que fosse feliz.

O que eu quis saber foi como deveria chamá-la: Senhora Capitu, ou Senhora Capitolina?

─ Pode chamar-me de Capitu. Assim sempre fui chamada, e não gosto de Capitolina.

─ Senhora Capitu, e ele, ele é feliz?

─ Não sei. Vejo-o muito pouco, e de longe. É uma pena. Já o José Dias… O José Dias vem falar comigo de vez em quando. É um homem curioso, mas evitamos falar dele.

Anoitecia rapidamente. Fui aceder as lâmpadas dos dois abajures, nos cantos da sala.

─ A senhora sente-se injustiçada?

Moveu devagar a cabeça, duvidosa.

─ O senhor mesmo disse-me há pouco que a justiça é muito errática. Além disso, não fui julgada, nem condenada regularmente.

Era verdade. Todavia, de um modo ou de outro, ele a condenara.

Ela pareceu adivinhar o que eu pensava, e retorquiu:

─ Sim, é o que está no livro. Mas não foi ele que escreveu o livro.

Eu podia admitir que sim. Ainda que escrito na primeira pessoa do singular, como se fosse uma autobiografia, não fora ele que o escrevera.

─ O senhor sabe que foi o Senhor Machado de Assis quem o escreveu. O Senhor Machado de Assis era um homem surpreendente e suspicaz. Gostava de pôr as pessoas em confronto e dar-lhes interpretações controvertidas que confundiam os seus próprios leitores. Enquanto isso, ele ria à socapa.

Era um modo de ver as coisas. No entanto, como é que Machado de Assis soubera de toda a estória, com tantas minúcias, desde a adolescência de Bentinho e de Capitu?

─ O senhor não ignora que o Senhor Machado de Assis tinha muito ciúme de sua mulher, Dona Carolina. A fidelíssima, a irreprochável Carolina. Imagine se ele tivesse tido um filho com Carolina, e o filho parecesse com qualquer das pessoas das relações de ambos?

─ Então a senhora acha que ele transferiu uma hipótese intimamente formulada para uma criação literária?

─ Não, não digo que ele transferiu tudo. Ele devia conhecer-nos, ou informar-se de nós através de outros. Havia, na época, muitos mexericos, tantos como ainda há hoje, e o Rio, a Corte, era uma cidade muito pequena. Daí a imaginar ou criar o restante foi um passo. Mas não nego que tudo está muito bem entrelaçado.

Por que então ela não perguntava diretamente a Machado de Assis?

─ A senhora o vê por lá o Senhor Machado de Assis?

─ Não. Ele se encontra noutro setor, com as pessoas da sua profissão e talento. O lugar é muito vasto.

─ Mas a senhora deve estar com Dona Carolina. Por que não lhe pede para falar com o marido a fim de que se resolva a sua situação?

─ Porque agora é tarde, muito tarde, e já não adianta nada.

Sim, ela tinha razão. Quantos milhares de leitores já não tinham lido Dom Casmurro e firmado posição a favor de Capitu, ou contra?

─ Sabe o que mais? ─ ela prosseguiu. ─ Bentinho nunca deixou de ser um adolescente. Um adolescente incurável. Eu amadureci, ele não.

Com toda aquela sutileza, com toda aquela malícia, com todas aquelas reflexões do romance?  Ah, sim, ela sustentava que não fora ele que escrevera o livro, mas Machado de Assis. A culpa era de Machado de Assis.

Levantou-se da poltrona. Estendeu a mão para se despedir. Fui buscar-lhe o chapéu, a sombrinha, as luvas.

Graciosa como sempre, passou pela porta. Vi quando subiu ao coche. E partiu.

 

 

capitu

 

 

                                                           SONETO CAPITOLINO

 

 

                                                           Teus olhos oblíquos e ubíquos

                                                           obnubilam a todos que ousam lê-los

                                                           e nunca mais deixarão de vê-los

                                                           sem obliteração aonde vão.

 

                                                           Olhos dissimulados, de ressaca,

                                                           sortilégios de um velho bruxo casmurro

                                                           que se esquiva, desguia, vira a página

                                                           e nos conduz para a armadilha

 

                                                           dos teus olhos capciosos

                                                           que como arautos mudos

                                                           capturam os bentos e os malditos

 

                                                           os precatados e os incautos

                                                           a lhes prenunciar o mundo

                                                           que se descortina além-retina.

 

 

Antonio Carlos Augusto Gama

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O tédio e o remédio

 

        Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

Se Brás Cubas pretendeu inventar e fabricar um emplasto contra a hipocondria e a melancolia, creio que uma droga mais benfazeja, em pílulas, em xarope, ou em pó, deveria ser fabricada contra o tédio. Acho que esta flor amarela do tédio, com o seu odor putrecente, é que está definhando a humanidade e acabará por nos sepultar a todos.

Vamos para um lugar e para outro, e é sempre a mesma coisa, sempre o mesmo aborrecido contorno, que faz muitos de nós nos afogarmos no álcool, ou nos afogarmos propriamente dito. Vai ano, entra ano, são as mesmas comemorações de nada. Já não nos surpreendemos com as matanças, a ladroeira, a corrupção, a miséria, a fome, e as mesmas doenças.

Tão aborrecida se tornou a existência, que aquele Major inglês, referido por Monteiro Lobato, suicidou-se, cansado de desabotoar e abotoar a farda todos os dias.

Não há publicidade (e ela se produz às toneladas) que nos convença de que esta ou aquela cidade é a melhor que existe, e de que vivemos no melhor dos mundos. Você viaja para Londres, para Paris, para Viena, para Nova Iorque, para Amsterdã, ou para São Bento do Sapucaí, e tudo é a mesmíssima coisa.

Os jornais publicam semanalmente um suplemento de turismo, há uma agência de viagens em cada esquina, mas você vai ou fica, para continuar enfadado. Aqui, no Brasil, então, tudo é repetitivo: os mesmos canalhas, os mesmos bandidos repetem-se nas instituições, e suas caras estão nos canais de televisão e nas revistas, todas as horas. Já não há nem mesmo anedotas novas. Padronizou-se a burrice, nesta aldeia global, e não há como escapar. Homens e mulheres vestem a mesma roupa. Já não há nenhuma idéia nova.

 

                        “Sobre a minh´alma, como sobre um trono,

                        Senhor brutal, pesa o aborrecimento.

                        Como tardas em vir, último outono,

                        Lançar-me as folhas ao vento!”

 

É o que diz Olavo Bilac, no soneto “Tédio”. E é o mesmo “spleen” de Baudelaire, em quatro poemas:

 

                        “Quand le ciel bas et lourde pèse comme un couvercle

                        Sur l´esprit gémissant en proie aux longs ennuis,

                        Et que de l´horizon embrassant tout le cercle

                        Il nous verse un jour noir plus triste que les nuits.”

 

Urge um remédio contra o tédio. Será a obra de caridade maior que se pode fazer a todos nós.

Enquanto ele não aparece, vamos desvivendo.

 

emplasto brás cubas

 

 

 

As bruxas

 

                Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

 

O filme em que Kim Novak está mais bela, belíssima, é “Sortilégio do Amor”. Nele, há bruxas, bruxedos e bruxarias. E ela é uma bruxa muito poderosa, que faz os seus bruxedos com um gato. E ficamos sabendo que as bruxas não coram, nem choram. Quando amam, perdem as suas bruxarias. Porque o amor é a maior bruxaria, e a definitiva.

Nos meus anos de adolescente, conheci uma mocinha, que era uma bruxa, e ligeiramente estrábica, o que a tornava mais encantadora e perigosa. Uns dez ou doze anos depois, ela apaixonou-se, casou, engordou e virou uma matrona. Então, quando entrava numa casa, as tábuas do soalho rangiam. Ela que havia sido alípede e não andava, mas esvoaçava.

A vida desfaz as bruxarias. Ou por outra, faz bruxarias desastradas.

Aqui, na minha casa, costumam entrar aquelas borboletas noturnas, chamadas bruxas. Diferentemente das borboletas diurnas, as noturnas pousam de asas abertas. Pego-as delicadamente e vou colocá-las em lugares altos, para que alguém não pise nelas.

Machado de Assis tem aquelas páginas extraordinárias da borboleta preta, em Brás Cubas. Este, para espantá-la, com uma toalha, acaba matando-a, e depois pergunta, com remorso: “Mas também, por que não era azul?”

Geralmente, os homens são tolos. As bruxas têm as cores que quiserem, nós é que não as vemos.

Só quando realmente amamos é que vemos todas as cores. E tudo pode ser azul.

Há aquela estória do tintureiro japonês, para quem um freguês foi levar um terno branco, para lavar. Naquele tempo, a expressão “tudo azul”, significava “tudo bem”. O sujeito deixou o terno com o japonês e perguntou-lhe: “Tudo azul?” E o tintureiro japonês respondeu-lhe: “Tudo azul”. No dia seguinte, foi ele buscar o terno, e o japonês havia-o tingido de azul.

Tinja também a sua vida de azul, leitor.

 

Kim Novak

 

 

 

 

Missa do Galo

 

          Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

“Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, tinha eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal”.

Este é o princípio do conto de Machado de Assis, em seu livro “Páginas Recolhidas”.

No caso, é compreensível que o rapazinho Nogueira não compreendesse a conversação que teve com Dona Conceição. A diferença de idade e as circunstâncias explicam a sua perplexidade. Mas, já velho, muitos anos depois, ele não a compreendia.

Na verdade, raramente, ou nunca, compreendemos as conversas que temos com as mulheres. É um jogo de equívocos, sejam elas mais novas, ou mais velhas do que nós.

Exatamente por isso, as mulheres são deliciosas, enquanto nós outros, bem ou mal intencionados, somos bestalhões.

As mulheres, quando dizem que vão, ficam; e quando afirmam que ficam, vão.

Acresce que a era Noite de Natal, com o seu sortilégio.

Mas não é preciso que o seja. Qualquer dia, ou qualquer noite são bastante para que não entendamos a conversação que temos com as mulheres.

Eu, por mim, e vejam que sou experimentado, tive diálogos por muito tempo, com uma senhora, com a qual me encontrava casualmente na rua.

Falávamos sobre o tempo, se ia ou não chover naquela tarde, ou de noite. Era um jogo de negaças. Queríamos e não queríamos. Dez, doze minutos depois, nos despedíamos. Mas eu levava para casa o seu perfume. Aquela mulher encantadora, nunca pude esquecê-la.

Nunca se sabe se a mulher é inteiramente nossa. Cercada de mistérios, a mulher é a própria vida, que também jamais chegamos a entender.

A mulher não faz afirmações. Concorda, discordando. Sorri, quando estamos embaraçados. E se também sorrimos, torna-se séria e grave.

A sua imagem é sempre crepuscular. E mesmo quando amanhece, a mulher anoitece.

A pergunta que fazemos, quando voltamos para casa é: “Que é que ela queria dizer?”

Benditas sejam todas as mulheres!

Envoltas no seu mistério, continuam, intocáveis.

 

missa do galo (machado de assis)

 

 

 

Os mandamentos do escritor

 

    Selma Barcellos

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Por Carlos Willian Leite, para a Bula:

 

 

Segundo Nietzsche, Hemingway, Onetti, García Márquez…

 

 

1 — Mintam sempre.

(Juan Carlos Onetti)

 

2 — Elimine toda palavra supérflua.

(Ernest Hemingway)

 

3 — Uma coisa é uma história longa e outra é uma história alongada.

(Gabriel García Márquez)

 

4 — Antes de segurar a caneta, é preciso saber exatamente como se expressaria de viva voz o que se tem que dizer. Escrever deve ser apenas uma imitação.

(Friedrich Nietzsche)

 

5 — Não sacrifiquem a sinceridade literária por nada. Nem a política, nem o triunfo. Escrevam sempre para esse outro, silencioso e implacável, que levamos conosco e não é possível enganar.

(Juan Carlos Onetti)

 

6 — Use frases curtas. Use parágrafos de abertura curtos. Use seu idioma de maneira vigorosa.

(Ernest Hemingway)

 

7 — Não force o leitor a ler uma frase novamente para compreender seu sentido.

(Gabriel García Márquez)

 

8 — O escritor está longe de possuir todos os meios do orador. Deve, pois, inspirar-se em uma forma de discurso expressiva. O resultado escrito, de qualquer modo, aparecerá mais apagado que seu modelo.

(Friedrich Nietzsche)

 

9 — Não escrevam jamais pensando na crítica, nos amigos ou parentes, na doce noiva ou esposa. Nem sequer no leitor hipotético.

(Juan Carlos Onetti)

 

10 — Evite o uso de adjetivos, especialmente os extravagantes, como “esplêndido”, “deslumbrante”, “grandioso”, “magnífico”, “suntuoso”.

(Ernest Hemingway)

 

11 — Se você se aborrece escrevendo, o leitor se aborrece lendo.

(Gabriel García Márquez)

 

12 — A riqueza da vida se traduz na riqueza dos gestos. É preciso aprender a considerar tudo como um gesto: a longitude e a pausa das frases, a pontuação, as respirações; também a escolha das palavras e a sucessão dos argumentos.

(Friedrich Nietzsche)

 

13 — Não se limitem a ler os livros já consagrados. Proust e Joyce foram depreciados quando mostraram o nariz. Hoje são gênios.

(Juan Carlos Onetti)

 

14 — O final de uma história deve ser escrito quando você ainda estiver na metade.

(Gabriel García Márquez)

 

15 — O tato do bom prosador na escolha de seus meios consiste em aproximar-se da poesia até roçá-la, mas sem ultrapassar jamais o limite que a separa.

(Friedrich Nietzsche)

 

 

… e Machado de Assis, Proust, Flaubert, Henry Miller, Jorge Luis Borges

 

 

1 — A primeira condição de quem escreve é não aborrecer.

(Machado de Assis)

 

2 — Para se ter talento é necessário estarmos convencidos de que o temos.

(Gustave Flaubert)

 

3 — Há somente uma maneira de escrever para todos, que é escrever sem pensar em ninguém.

(Marcel Proust)

 

4 — Escreva primeiro e sempre. Pintura, música, amigos, cinema, tudo isso vem depois.

(Henry Miller)

 

5 — Evitar as cenas domésticas nos romances policiais; as cenas dramáticas nos diálogos filosóficos.

(Jorge Luis Borges)

 

6 — Trabalhe de acordo com o programa, e não de acordo com o humor. Pare na hora prevista!

(Henry Miller)

 

7 — Uma verdade claramente compreendida não pode ser escrita com sinceridade.

(Marcel Proust)

 

8 — Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução.

(Machado de Assis)

 

9 — O autor na sua obra, deve ser como Deus no universo, presente em toda a parte, mas não visível em nenhuma.

(Gustave Flaubert)

 

10 — Esqueça os livros que quer escrever. Pense apenas no que está escrevendo.

(Henry Miller)

 

11 — O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.

(Machado de Assis)

 

12 — Todo o talento de escrever não consiste senão na escolha das palavras.

(Gustave Flaubert)

 

13 — Mantenha-se humano! Veja pessoas, vá a lugares, beba, se sentir vontade.

(Henry Miller)

 

14 — Evite a vaidade, a modéstia, a pederastia, a falta de pederastia, o suicídio.

(Jorge Luis Borges)

 

15 — Um livro não deve nunca parecer-se com uma conversação nem responder ao desejo de agradar ou de desagradar.

(Marcel Proust)

 

 

O que estão esperando, queridos? Mãos à obra!

 

 

A hipótese e o hipopótamo

 

          Annibal Augusto Gama

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Pensei em escrever um ensaio sobre a hipótese e o hipopótamo. O hipopótamo do Delírio de Brás Cubas. Cavalgando-o, Brás Cubas vai à origem dos tempos e depois faz a viagem de volta até o fim dos mesmos tempos, quando encontra Pandora. É uma viagem circular, que termina com um gatinho brincando com uma bola de papel. Genial, genial, ninguém escreveu nada semelhante.

Mas qual seria a hipótese, no caso? Temos um hipopótamo, mas não temos uma hipótese.

Ora, a hipótese pode ser qualquer uma. Agora sustentam os entendidos que o criacionismo não deve ser ensinado nas aulas de ciência, porque nada o sustenta, e não é científico. Pois bem: muitas coisas tidas como científicas e exatas, passados mais alguns anos, deixam de sê-lo. Einstein substituiu Newton. Há séculos, o Sol girava em torno da Terra, e era científico; atualmente, é a Terra que gira em torno do Sol, e é também científico.

Quase sempre, a ciência nasce de uma hipótese, e às vezes de hipóteses absurdas. Desta maneira, o criacionismo, que é uma hipótese, é tão científico como qualquer outra teoria.

Bem, se não consigo escrever sobre a hipótese e o hipopótamo, talvez possa escrever sobre a hipótese e a hipóstase.

Dizem os dicionários comuns (o Aurélio, por exemplo) que “hipóstase” é a ficção ou abstração falsamente considerada como real. Nos dicionários filosóficos, a coisa complica-se. Foi Plotino quem, com tal termo, denominou as três substâncias do mundo inteligível: o Uno, a Inteligência e a Alma. Nas discussões trinitárias que se seguiram, a palavra hipóstase foi preferida a “pessoa” que, por significar propriamente “máscara”, parecia evocar a imagem de algo fictício.

Estamos vendo que quase tudo é uma questão de palavras. Exceto a matemática, toda a ciência se faz com palavras, e muitas delas equívocas.

O conhecimento é possível? Há quem afirme que não. Tangenciamos a verdade, mas nunca a encontramos. Ou por outra, a verdade de hoje não será a de amanhã, ainda porque só recolhemos pedaços da verdade, e não a verdade absoluta e total.

Não vejo nenhuma razão para que o criacionismo, como uma hipótese, seja desacreditado, e a ciência não.

Vivemos de ficções, e a ciência é uma delas. Como a moda, a ciência tem o seu dia de alta costura. Todos querem vestir-se com o modelo dos ateliês mais famosos. A saia curta, que exibe deliciosamente as coxas das mulheres, logo mais é substituída pela saia comprida, que vai até os pés.

A pessoa jurídica, de que trata o Direito, o nosso Código Civil, é uma ficção. E com ela desenvolveram-se todas as implicações legislativas.

O hipopótamo certamente não é uma hipótese. Ele existe (por enquanto), como existe o ornitorrinco. E até acho que Machado de Assis não chegou a vê-lo. Mas fez do hipopótamo a cavalgadura de Brás Cubas a viajar para a origem e o fim dos tempos, quando toda ciência será desmentida por uma ciência maior e única.

 

Delírio

 

 

 

Champollion e a pedra no sapato

 

        Annibal Augusto Gama

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Foi Champollion que decifrou a “Pedra da Roseta”, mas ignoro se algum dia decifrou a pedra no sapato. É uma pedrinha insignificante que entra no sapato e incomoda como o diabo. Tirar o sapato na rua e sacudir fora a pedra é deselegante. Então, você retorna para casa, entra, tira o sapato e despeja dele a pedrinha. É uma coisinha à toa, mas como atrapalhava!

A existência é feita desses pedregulhos, menores ou maiores. Machado de Assis já escreveu sobre as botas apertadas, mas não sobre a pedra no sapato. As botas apertadas foram feitas para você sacá-las, e sentir-se, depois disso, aliviado e feliz. A pedra no sapato substitui as botas apertadas, e o resultado é quase o mesmo.

Nós às vezes sofremos muito com coisas miúdas. E tal sofrimento não é menor do que o sofrimento com as coisas graúdas. Também há alegrias pequenas que se equivalem às grandes alegrias. Outro dia, indo a São Paulo, perdi os meus óculos de ver de perto, esquecendo-o no assento de um carro de aluguel. Ora, eu fora à capital paulista justamente para visitar as livrarias que aqui em Ribeirão Preto já não há. E como ver e escolher livros, sem a ajuda dos óculos? Fui à Livraria Brandão, na Rua Xavier de Toledo, um sebo magnífico com mais de quarenta mil livros. Alguém, lá dentro, ofereceu-me os seus óculos. Serviram-me um pouco, e pude vasculhar as prateleiras, botando os livros sobre uma mesa. Reuni mais de vinte livros e comprei-os. O dono da Livraria Brandão é um ótimo sujeito, e conversamos muito.

Dali fui à Livraria Cultura, mas lá ninguém me ofereceu óculos para enxergar perto. Ainda assim, arranjei-me como pude e comprei outros livros.

Agora, já em casa, e com os óculos em duplicata que tenho, leio uns e leio outros.

O negócio é este: arranjar-se com a pedrinha no sapato.

Como eu também estou com um começo de catarata, perguntou-me alguém porque não me opero. Respondi que prefiro a catarata, porque assim deixo de ver tanta mulher feia. Mas também perco as mulheres bonitas, que são muitas.

A vida é uma compensação: dá a pedra no sapato e a felicidade de poder tirá-la dele.

Eu podia escrever um livro de autoajuda. Ganharia dinheiro. Mas não creio em autoajuda. Na verdade, nós nos ajudamos quando ajudamos aos outros.

Quando saio com o meu cachorrinho Pichorro, dou sempre com um sujeito que vigia os carros dos outros. Ele, logo que me vê, pede-me um cigarro e algumas moedas. Dou, embora saiba que aquilo não adianta nada. O sujeito continuará miserável como antes.

Mas, dar é uma pedrinha que tiro do sapato. Sou eu que lucro.

Quando é que somos verdadeiramente felizes? 

Quando não pensamos nisso.

 

botas apertadas 1 

 

 

De como participei da fundação da Academia Brasileira de Letras

 

 

“É certo; então reprimamos

esta fera condição,

esta fúria, esta ambição,

pois pode ser que sonhemos;

e o faremos, pois estamos

em mundo tão singular

que o viver é só sonhar

e a vida ao fim nos imponha

que o homem que vive, sonha

o que é, até despertar.”

 

(“A vida é sonho” (excerto), Calderón de la Barca)

 

 

 

Saídos da Livraria Laemmert, os circunspectos cavalheiros encasacados entraram por volta das 17 horas na confeitaria, tiraram as cartolas e os chapéus ao se sentarem numa ampla mesa reservada, ao fundo.

Logo foram atendidos por dois garçons, igualmente impecáveis nos seus trajes. A maioria preferiu chás variados, torradas, bolachinhas e outras guloseimas servidos àquela hora e que eram a especialidade da Casa. Alguns poucos arriscaram um xerez ou um vinho do Porto. Eu fui um deles.

O grupo observava uma tácita hierarquia. Os mais jovens eram todo ouvidos e pouco falavam. E o centro da reunião era o senhor de barba e cabelos encanecidos, amulatado, de pince nez, que falava pausadamente de modo a disfarçar uma leve gaguez. Tratava-se de Joaquim Maria Machado de Assis, intelectual consagrado, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta.

— Como sabem os senhores, apóio a ideia dos confrades Medeiros de Albuquerque e Lúcio de Mendonça de criarmos uma Academia Brasileira de Letras, nos moldes da Academia Francesa, e creio mesmo que tal providência, por necessária,  já se faça tarda, não para colhermos a efêmera glória mundana, mas como um marco da instituição de uma literatura nacional.

Ouvia-o atentamente, enlevado com a lucidez e elegância que expunha seu pensamento, a velada ironia de suas observações, tal como em seus romances, contos, poemas e crônicas.

Que honra e privilégio estar na companhia de tantas figuras admiráveis, especialmente dele, e a participar de momentos que haveriam de se tornar históricos!

Mas o que fazia eu ali?

Era um dos mais moços e sentia a vaga sensação de ser um estranho, embora nenhum dos convivas denotasse isso, tratando-me com lhaneza e afabilidade natural dos amigos.

O próprio Machado de Assis algumas vezes pareceu dirigir-se a mim, com o esboço de um sorriso, aparentando certa afeição, como se eu fosse um pupilo dileto ou até mesmo um filho, que ele nunca teve (ou teve, segundo as más línguas).

Apesar de me sentir muito bem e interessado na conversação e nas opiniões que se alternavam, pressentia que a qualquer momento haveria de deixá-los.

Como se sabe, depois de várias reuniões preparatórias, a Academia Brasileira de Letras foi fundada em dezembro de 1896, e oficialmente instalada em 28 de janeiro de 1897, com Machado de Assis sendo eleito o primeiro presidente da instituição, cargo que ocupou até sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro em 29 de setembro de 1908.

Eis que desperto no meu quarto, nesta São Sebastião do Ribeirão Preto, na manhã de um sábado do ano da graça de 2013, com as imagens vívidas do que relatei acima e uma sensação de rara euforia.

Acorro à cozinha, onde minha mulher prepara o café, e lhe conto em atropelo o sonho tão estranho quanto fascinante.

Ela, que sempre foi extraordinariamente intuitiva e com frequência faz predições que se confirmam, escuta-me com um sorriso maroto e os olhos verdejantes, e ao final diz que talvez eu possa mesmo ter estado lá. Quem sabe?

— O que mais importa é que o sonho lhe fez bem e você acordou numa manhã feliz.

De que matéria serão feitos os sonhos e as manhãs felizes?

 

 

MATÉRIA PRIMA

 

De que são feitos os sonhos?

 

Nostálgicos amores

revoltos mares

remotos temores

fragmentos de luzes

no umbroso porão

da memória ancestral

do primeiro Adão

e seu perdido Jardim

de flores, frutos, olores,

arrebatado de mim

pelo tempo e pela treva.

 

Tortuosa travessia

entre o crepúsculo e a aurora,

a vertigem do abismo me leva

a galgar trôpego e sôfrego

o promontório do dia.

 

 

Em tempo

 

 

 

 

“Não basta ver uma mulher para a conhecer, é preciso ouvi-la também; ainda que muitas vezes basta ouvi-la para a não conhecer jamais.”

(Machado de Assis)

 

 

 

Machado de Assis e o Big Brother

 

 

 

 

 

 

            Escrevi este textinho em 2009.

            Parece que continua atual.

 

 

 

            Reler livros que amamos, mais do que um exercício de prazer, é uma nova e apaixonante aventura.

            Coisas que passaram despercebidas antes aguardam pacientemente durante anos para então nos assaltar num canto de página, não para nos arrebatar a bolsa e a vida, mas para sortir um pouco mais nossa bolsa e nossa vida.

            Coisas que de outra feita tinham despertado nossa atenção desaparecem ou ganham nova forma, novo matiz, com astúcias de prestidigitador.

            Tem toda a razão Alberto Manguel ao dizer que um livro se remodela a cada leitura, e que a famosa frase de Heráclito sobre o tempo aplica-se igualmente à leitura: “Nunca mergulhamos no mesmo livro duas vezes”.

            Pois não é que num canto de página do Memorial de Aires (livro subestimado por muitos, que o consideram apenas uma obra crepuscular, de adeus, com enredo pobre, sem atentar para as sutilezas do mestre, que alcançam o seu grau máximo), deparo com uma observação do Conselheiro que antecipa o furor voyeurista do Big Brother de Orwell e das patranhadas escabrosas da Vênus Platinada: “Tempo há de vir em que a fotografia entrará nos quartos dos moribundos para lhes fixar os últimos instantes; e se ocorrer maior intimidade, entrará também.”

            Não nos esqueçamos de que Memorial de Aires foi publicado em 1908, quando a fotografia era por excelência o instrumento de registro e difusão de imagem.

            As primeiras transmissões experimentais de televisão só ocorreriam na década de 1920.

            1984, de Orwell, foi publicado em 1949.

            O velho e bom Machado era mesmo um bruxo.