Creio ter sido Jorge Luis Borges quem disse que todos os livros já foram escritos, de modo que restaria aos novos autores reescrevê-los a seu modo ou misturá-los uns e outros, remontando-os ou recriando sobre o que já existe.
Se a frase não for dele, certamente concordaria com ela, pois ninguém mais do que Borges foi capaz de estabelecer esse permanente diálogo com os outros escritores de sua predileção, especialmente os clássicos. A partir desse universo literário, reportou-se a obras e autores inexistentes (ou apenas ainda não existentes), descreveu lugares e seres fantásticos, e na História Natural da Infâmia, seu primeiro livro de contos, chegou até mesmo a engendrar vidas imaginárias para figuras escabrosas como Hitler e Stálin.
Julio Cortazar, com não menos talento, fez algo semelhante, em suas Histórias de cronópios e de famas, e no seu extraordinário Bestiário.
Annibal Augusto Gama, em um delicioso ensaio, O livro, um palimpsesto, anota que um livro são muitos livros. “No seu texto assinado e autenticado pelo seu autor, podem ser descobertos textos de outros autores, ideias, metáforas, personagens, intrigas, paisagens que vieram de séculos atrás, e que se acham noutros livros”. E acrescenta: “Aquele que pretende ser absolutamente original e único, ao escrever um livro, ou é um tolo, ou um pretensioso, um ignorante. Para começo de conversa, ele veio ao mundo da mãe que o gerou, e com a ajuda de outro. Imediatamente, aqui encontrou amparo e ensinamentos de uma sociedade preexistente. Nunca esteve absolutamente só, mas se viu cercado de gente, e tudo, ou quase tudo lhe foi transmitido. Esse relacionamento, esse jogo de influências, são inarredáveis. E ocorre ainda que todos os assuntos já foram trabalhados, ou repetidos muitas vezes, sem se esquecer que para a ficção existem trinta ou quarenta situação fundamentais, que se submetem apenas a algumas variações” (Os Diamantes de Ophir, Funpec Editora).
Os escritores ─ e também aqueles que os leem e tiram das obras suas próprias interpretações ─ formam uma irmandade de ilusionistas e intrujões, que se aplicam mutua e consensualmente empulhações e contos do vigário, sem risco de sofrerem qualquer tipo de sanção ou retaliação, uma vez que, como se costuma dizer, a leitura (e a literatura em si) é um vício impune.
O livro Recontando Machado, organizado por Luiz Antonio Aguiar (Editora Record) propõe-se a isso, juntando um grupo de escritores contemporâneos (Alberto Mussa, Cíntia Moscovich, Claudia Lage, Cristovão Tezza, Heloisa Seixas, Leticia Wierzchowski, Marcelino Freire, Maria Sabino, Miguel Sanches Neto, Nilza Rezende, Rafael Cardoso, Tatiana Salem Levy) para que dialogassem com algumas das obras-primas de Machado de Assis, recriando com total liberdade contos do velho Bruxo.
O desafio é grande e até mesmo temerário, mas o resultado em geral me pareceu muito bom, a demonstrar a atualidade ou, melhor dizendo, a perpetuidade da obra machadiana.
Agradaram-me especialmente os trabalhos de Alberto Mussa (A Leitura Secreta), baseado nos contos A Cartomante e A causa secreta; de Letícia Wierzchowski (D. Inácia na Casa Verde), retrabalhando Missa do galo e O Alienista, Cristóvão Tezza (O adotado), extraído de O enfermeiro, e Mario Sabino (Um chapéu ao espelho), composto a partir de O Espelho e Capítulo dos chapéus.
Alberto Mussa narra a empreitada de um grupo de escritores empenhados na elaboração de uma fabulosa Enciclopédia de Machado de Assis, projeto que se inviabiliza tantas são as leituras possíveis a cada verbete.
Letícia Wierzchowski, de forma engenhosa e sutil, explora as ambigüidades de Missa do galo e da misteriosa Conceição, para levar o desfecho ou o esclarecimento (possível) da história pela velha mãe de Conceição, D. Inácia, internada nada mais, nada menos do que na Casa Verde do Dr. Simão Bacamarte.
Mas o melhor de tudo é que, depois de cada recriação, seguem-se os contos originais que lhe serviram de ponto de partida, e é sempre um deleite e assombro a releitura de Machado de Assis.