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Incógnita

 

 

ovo cósimico (salvador dali)

 

                                                            incógnita

 

                                                            no abscôndito ovo

                                                            se esconde a vida

 

                                                            claraboias manhãs

                                                            gemados arrebóis

 

                                                            descortinam imensuráveis

                                                            sob a casca intrincada

 

                                                            do poer dos dias

 

 

 

 

Sem metafísica

 

 

 

                                                            A vida

                                                            talvez não passe de um sonho

                                                            havido

                                                            em preto e branco ou

                                                            colorido

                                                            sem nenhum

                                                            sentido.

 

                                            Os sentidos estavam no sonhar.

 

 

 

 

 

Da arte de nascer e viver

 

 

baby-in-utero (1)

 

Você está instalado confortavelmente no ventre da mãe, que lhe provém de tudo, no morno entorno do útero, e ainda assim, de vez em quando lhe dá uns coices.

Você começou de um ovo, com a união do espermatozóide com o óvulo. A princípio, era uma coisa insignificante, e chegou a ser quase um peixe, com guelras. Foi evoluindo para a forma humana, enquanto a barriga da mãe também estufava cada vez mais.

Até que nove meses depois (ou menos, para alguns apressadinhos), começaram em torno de você uns empurrões para botá-lo para fora, quando não sabia ainda que havia um fora, mas só um dentro. Os empurrões tornaram-se insuportáveis, até que você botou a cabeça para fora, e alguém o agarrou pelo pescoço e pelos ombros e o arrancou do lugar onde você estava antes tão bem.

Este parteiro, ou parteira, ainda por cima, segurando-o pelos pés, dá-lhe umas palmadas na bunda, para que você chore e respire. Foi a primeira agressão que você sofreu, das muitas que receberá ainda durante o resto da vida. Cortaram-lhe então o cordão umbilical e o amarraram, para que você se desligasse de sua mãe, que estava inundada de suor e gemia. Limpado, foi embrulhado e posto nos braços da mãe, que logo lhe ofereceria os seios túrgidos, para que você mamasse.

Mais alguns dias, e você já mama com furor, o leite escorrendo da boca, e ainda dá umas cabeçadas naqueles seios, para que saia mais leite. Depois, outra palmadinha nas costas, e você arrota. É um menino! Ou é uma menina! gritaram as pessoas em torno. E você quase imediatamente recebe um nome que não escolheu, e tão desastrosamente às vezes escolhido, que você o carregará com vergonha pelos anos a fora.

Principia então suportar a burocracia em que estará envolvido durante anos e anos: você vai ser registrado no Cartório das Pessoas Naturais, e batizado numa igreja e numa religião de que nunca ouviu falar.

Ainda bem que, nos primeiros meses, você apenas mame, dorme, chore e desperte. E começa então a enxergar. Vê vultos ao seu redor, e que logo se delinearão, e você reconhece primeiramente a sua mãe, pelo seu cheiro, e pelo calor de seu corpo.

Escuta barulhos, estouros e, para acalmá-lo, metem-lhe um bico de borracha na boca, até, que já mais crescidinho, retiram-lhe o bico, e você vai aprendendo confusamente que a vida é uma negação das coisas de que gostava.

As pessoas então começam a ensiná-lo a falar a sua língua, as palavras. Você aprende o alemão, o francês, o italiano, ou o português, conforme o lugar em que nasceu. Aprende também palavrões, mas imediatamente o repreendem ou lhe dão palmadas, se os repetir.

Você já se arrasta pelo chão e, logo mais, começará a ficar de pé, como os outros. Enquanto isso, inábil, leva tombos.

Já enxerga, fora, as árvores, os passarinhos; vê a chuva que cai; sente o calorão do Verão e o frio do Inverno. Vestem-no de roupa.

Familiariza-se com os bichos, com o cachorro, com o gato, com as galinhas e com o galo. Também, já está comendo, às colheiradas, papinhas, pois o leite dos seios da mãe vai sendo cortado. Recebe presentes, como o ursinho de pelúcia. Recebe também beliscões inexplicáveis. É-lhe imposto saber que existem regras a ser observadas, e que você não o fez. É proibido mijar na cama.

Alguns anos a mais, você é levado à escola, para aprender besteiras. Mais tarde ainda, ouvirá falar do Binômio de Newton, e da hipotenusa.  E terá de se defender dos meninos mais crescidos, que o agridem.

Já então, sabe ler e escrever, e escreve nos muros.

De calças compridas, admoestam-no de que é preciso trabalhar, para viver. E se você recalcitra, exclamam: “Vá trabalhar, vagabundo!” E chegam a botá-lo para fora de casa.

Terá então sabido que existe o sexo. Que você tem um pênis ou uma vagina. Que há o tal de orgasmo, e que é assim também que se fazem os filhos.

Você encontrou uma sociedade já constituída, e um Estado. Está sujeito a ele, à polícia, ao patrão. A ordem é obedecer.

Há também o pecado e outras restrições. Ameaçam-no com o inferno. E há doenças inevitáveis, e o envelhecimento.

E você afinal morre, sem ter aprendido muito bem esta dura arte de viver.

 

 

Annibal e Pichorro 3

 Annibal Augusto Gama

 

 

 

 

Como uma onda no mar

 

 

“Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre”

 

 

“Como uma onda” (Lulu Santos / Nelson Motta), com Lulu

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=jVBCYGqxI6k[/youtube]

 

 

 

Mudanças

 

         Adalberto de Oliveira Souza

Adalberto

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                 MUDANÇAS

 

                                                 Revistar gavetas

                                                 é revisar a alma,

                                                 é procurar o âmago

                                                 no passado

                                                 para recuperar o presente,

                                                 é reconstruir,

                                                 e reconstruindo

                                                 reformar a vida.

 

                                                 A terra pode

                                                 tremer,

                                                 já que tudo pode

                                                 mudar,

                                                 quando se revista

                                                 gavetas.

 

gavetas 2 (dalí)

 

 

 

Impossibilidade

 

 

        Adalberto de Oliveira Souza

Adalberto

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                           IMPOSSIBILIDADE

 

 

                                                           Como apagar

                                                           o indelével?

                                                           Nada se apaga

                                                           Tudo se impregna no tempo,

                                                           A lembrança pode se distrair,

                                                           mas a marca permanece,

                                                           a cicatriz,

                                                           visível ou invisível.

                                                           Às vezes, dói.

 

                                                           Quando se tem consciência

                                                           lamenta-se,

                                                           Quando não

                                                           suspira-se.

                                                           A vida continua,

                                                           mesmo assim.

 

cicatriz 2

 

 

 

Uma canastra só de curingas

 

          Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

― O ilustre e ilustrado amigo pode me dar uma explicação?

― Depende. Se é para explicar o que é a vida, não posso. Pergunte a um morto.

― Mas os mortos não falam.

― Falam sim. Falam o hungarês, as línguas mortas, como o latim, e algumas outras.

― Então eu devo aprender hungarês para falar com um o morto?

― Se ele só falar o hungarês, é claro. Mas se ele não fala hungarês, mas só alemão, o senhor deve aprender o alemão.

― E como é que eu vou saber a língua que um morto fala, para falar com ele?

― Vá aprendendo as línguas.

― Ora, são centenas de línguas…

― São. Mas quando o senhor souber todas elas nem precisa mais falar com morto nenhum, porque saberá também o que é a vida.

― Quer dizer que as línguas, todas as línguas sabidas é que me explicariam o que é a vida?

― Já lhe disse quem quando o senhor souber todas elas não precisará mais saber o que é a vida.

― Por quê?

― Porque o senhor também já estará morto. E os mortos não precisam mais saber o que é a vida.

― Como é que o senhor sabe?

― Também já lhe disse que não sei.

― O senhor é muito radical. Não pode ao menos me dar um palpite?

― Palpite para o jogo-do-bicho? Isso, qualquer um pode ter.

― Não, um palpite que acerte no milhar.

― Então o senhor não quer saber o que é a vida, mas quer é ficar rico. E, se ficar rico, não precisará mais saber o que é a vida.

― Pelo que me diz, a vida é um jogo…

― Um jogo, mas também é preciso saber blefar. Vá blefando que um dia o senhor arrebenta a banca.

― Mas para jogar e blefar é preciso que haja outro jogador, ou outros jogadores.

― Sim, precisa. A vida são os outros. Nós mesmos, sozinhos, não somos nada. Os outros é que dão as cartas. E, olhe, há cartas marcadas, e fraude.

― O senhor é muito pessimista.

― Até que não sou tanto assim. Continuo jogando. Um dia, talvez, eu faça uma canastra só de curingas.

 

 

“Acertei no milhar”  (Wilson Batista / Geraldo Pereira), com Moreira da Silva

 [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=2eOpqjyjX6I&hd=1[/youtube]

 

 

 

Filhos da inocência

         

         Euclides Rossignoli

euclides rossignoli

 

 

 

 

 

 

Pela ampla repercussão que tem em diferentes níveis da vida do País, entendo que o mais grave problema brasileiro é a explosão da reprodução humana nos grupos mais pobres e de menor escolaridade da população. É incompreensível a  desatenção do poder público, da instituição família e dos meios educacionais com relação a ele.

Eu me inquieto com os adolescentes, aqueles meninos e meninas,  que se tornam pais sem o desejarem aos treze, catorze ou quinze anos. É muito triste ver uma menina nesta idade engravidar sem querer engravidar e ter um filho sem que conscientemente o desejasse.

A vida dos adolescentes que involuntariamente se tornam pais passa normalmente por grandes transtornos. O menino, sem condição econômica de corresponder ao evento, muitas vezes abandona a menina e o filho ao Deus dará. Mas, se for pessoa sensível, terá de carregar pela vida toda a culpa pelo abandono. A adolescente, por sua vez, acaba tendo de deixar a escola e de assumir antes da hora um trabalho qualquer para criar sozinha o filho. 

Mas a precocidade na geração da prole produz resultados sociais que vão muito além dos problemas que afetam os jovens pais. Despreparados, do ponto de vista econômico e emocional, para cuidar da sua descendência, os jovens envolvidos acabam por sobrecarregar suas famílias. Mais tarde, com enorme frequência, aparecem os problemas dos próprios filhos na escola e, fora dela, na sociedade mais ampla. Seria de admirar que o crime e as drogas não encontrassem campo fértil, mais adiante, entre esses filhos de jovens que tão cedo se tornaram pais. 

Entre a população mais pobre e menos escolarizada a gravidez não desejada é também evento de enorme ocorrência. O resultado são os milhões de famílias que não conseguem obter sequer o necessário para a subsistência. A pobreza aguda e permanente das populações das periferias dos grandes centros e de muitas outras áreas do País guarda estreita relação com o problema da explosão da reprodução humana pela gravidez não desejada. Vai hoje pela casa dos treze milhões o número de famílias que recebem auxílio governamental direto para sobreviver.

Um sexualismo avassalador permeia toda a nossa cultura. A poderosa força do erótico está presente na TV, no cinema, na moda, na publicidade, nas revistas e nos jornais. As novelas são o exemplo mais notório. O ativismo sexual antes do casamento, que até meados dos anos 1960 era amplamente vedado às mulheres, hoje é comportamento habitual desde a adolescência.

A reprodução não desejada, que dificulta ou destrói qualquer planejamento de vida familiar, é problema sério de educação que não tem merecido a menor atenção do poder público. É preciso, pela educação sexual, tornar claro para todos, especialmente para as mulheres, que a natureza pode cobrar um preço elevado pela oportunidade do prazer sexual sem precaução. Houvesse mais cuidado nas relações destituídas da intenção de procriar e muito menos haveria para se discutir e para se legislar acerca da questão do aborto.     

Hoje, mais do que no passado, existem meios contraceptivos seguros para evitar a gravidez não desejada. O que falta é uma política que dê a todos, homens e mulheres, jovens e adultos, informação e acesso aos recursos que a ciência criou para este propósito. A ausência de ação da família e dos poderes públicos na área da reprodução humana pode, sem nenhum exagero, ser entendida como atentado a um direito elementar dos humanos: o direito que cada um tem de planejar sua vida e a vida de sua prole.

 

criança abandonada

 

 “O meu guri” (Chico Buarque), com Elza Soares

 

 

 

Certas coisas…

 

     Selma Barcellos

Selma 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Por que viver vale a pena?” – indaga-se o autor da crônica com que me delicio na rede da varanda, boxers deitados ao lado, labradora empurrando minha mão com o focinho para ganhar cafuné. E responde o jovem cronista: por Mahler, Millôr, Manhattan, Peter Sellers, vinhos do 12ème, mulher “na primeira vez em que entrega sua nudez e seu sorriso” e por aí vai.

Fecho os olhos e penso igualmente em certas coisas que fazem valer a pena… Como o quê? Ora, os poemas do Pessoa, as veredas do Rosa, o esticador de horizontes do Manoel de Barros. Quixote. Quase toda a obra de Fellini, o Mastroianni, a nossa Fernanda, meus cult adolescentes “Um Homem e uma Mulher” e “Breakfast at Tiffany’s” – trilhas sonoras cantadas de cor. Aquela cena do Pacino dançando “Por una cabeza”… Aliás, tangos.

E Paris, “Those Were the Days” em Londres e “Prendi questa mano, Zingara” em Florença – aos 18. Sarah Vaughan, Sinatra, Tom&Vinicius, Tom&Jerry. Chico como encantado ao lado meu e as propostas do Roberto. A bateria da Mangueira. Paul McCartney no Maraca, Anna Netrebko no Waldbühne. “Nessun dorma”. O intermezzo de “Cavalleria rusticana”, a doçura do entreato de “Carmen”… Braços e pernas à perfeição do cisne de Plisetskaya.

Ainda agora, os mistérios de Sintra e pedalar por Cascais, o boardwalk de Santa Monica, ouvindo a percussão dos que sobraram de Woodstock e tomando Erdinger gelada… Bolinho de bacalhau do Seu Antonio. Búzios meio vazia, comendo cavaquinha grelhada no entreposto dos pescadores ao cair da tarde. Bombons trufados da Godiva. Mergulho no mar com a tal sensação térmica de 45º (mas é bom parar por aí). Sol se pondo em Itacoatiara…

A beleza dos dias sob a luz do outono. Aquela noite em que família e amigos, enrolados em mantas, deitamos todos no deck da cabana no Yosemite para observar o céu mais incrível de nossas vidas. As gargalhadas gostosas dos alunos com minhas gracinhas. O último retoque antes de assinar a tela. A expressão feliz do filho vendo sua noiva entrar. O bailado solto com o outro filho e suas dicas de bem viver. Aprender com eles. Chorar de rir. Cansar de dançar.

Não por último, subir ao palco da ABL para receber meu “Oscar” pelo 1º lugar no concurso de redação, 13 mil inscritos… (Nota do Editor: Veja a premiação da Selminha AQUI)

Ah! – e soltar o gogó em “Non, je ne regrette rien”. Glorioso. Meu épico de chuveiro.