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Pílulas de Vida

 

          Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

De vez em quando o meu telefone toca e dizem-me que desejam falar com a Dra. Mônica. Não conheço a Dra. Mônica, mas presumo que ela seja clínica geral. E recorro aqui à Dra. Mônica para vir me tratar de dor do cotovelo e de uma coceira nas costas, em lugar que os meus dedos não podem alcançar. Ela me encontrará encostado do umbral da porta, esfregando-me. E prometo-lhe que mandarei aviar a sua receita e tomarei escrupulosamente as pílulas que me recomendar. Prefiro, porém, que me receite placebos.

A vida é feita de falsos remédios, que são tão eficazes como os verdadeiros. E já se dizia que o que não mata cura.

De enganos e verdades vamos vivendo. A soma dos enganos e das verdades equivale-se.

Nestes meados de setembro, o calorão já chegou. As árvores ainda não se despiram das folhas, mas alguns ipês já estão florindo. O meu filho Antonio Carlos trouxe-me a fotografia que tirou de um ipê amarelo, à porta da sua casa, todo garrido.

Se a Dra. Mônica me curar, prometo-lhe uma gorda recompensa. Mas acho que sou incurável.

Diz Pascal que é preciso fazer bom uso das doenças. E que se permanecemos reclusos em nossas casas, nada nos acontecerá. Quanto a isso, contesto-o. Dentro das casas tudo pode acontecer.

Sucede-me que abro uma porta e olho para fora. Lá vem aquela loiraça rebolante. Digo-lhe: “Fique ai, parada, para que eu te contemple, ipê florido”.

Mas ela vai embora, e suas flores despetalam, caindo na calçada.

Aguardo a noite, que é outra mulher, com os seus cabelos negros.

No escuro do quarto, acendo uma velinha para os meus santos de barro. Eles cochilam, e perturbo-os com os meus pedidos.

O que me falta é você, você, você, minha amada…

E outra vez que me telefonarem chamando a Dra. Mônica, direi que ela não atende mais.

Ah, as mulheres não atendem nunca!

Se me atendessem, eu não estaria tão sozinho.

Dra. Mônica, por favor, receite-me um placebo que substitua a vida!

Mas a Dra. Mônica faz ouvidos moucos. O bom é que ainda me restam as pílulas de vida do Dr. Ross, que fazem bem ao fígado de todos nós.

 

 

[youtube] http://www.youtube.com/watch?v=U6WLeqktFK4[/youtube]

 

 

 

O tédio e o remédio

 

        Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

Se Brás Cubas pretendeu inventar e fabricar um emplasto contra a hipocondria e a melancolia, creio que uma droga mais benfazeja, em pílulas, em xarope, ou em pó, deveria ser fabricada contra o tédio. Acho que esta flor amarela do tédio, com o seu odor putrecente, é que está definhando a humanidade e acabará por nos sepultar a todos.

Vamos para um lugar e para outro, e é sempre a mesma coisa, sempre o mesmo aborrecido contorno, que faz muitos de nós nos afogarmos no álcool, ou nos afogarmos propriamente dito. Vai ano, entra ano, são as mesmas comemorações de nada. Já não nos surpreendemos com as matanças, a ladroeira, a corrupção, a miséria, a fome, e as mesmas doenças.

Tão aborrecida se tornou a existência, que aquele Major inglês, referido por Monteiro Lobato, suicidou-se, cansado de desabotoar e abotoar a farda todos os dias.

Não há publicidade (e ela se produz às toneladas) que nos convença de que esta ou aquela cidade é a melhor que existe, e de que vivemos no melhor dos mundos. Você viaja para Londres, para Paris, para Viena, para Nova Iorque, para Amsterdã, ou para São Bento do Sapucaí, e tudo é a mesmíssima coisa.

Os jornais publicam semanalmente um suplemento de turismo, há uma agência de viagens em cada esquina, mas você vai ou fica, para continuar enfadado. Aqui, no Brasil, então, tudo é repetitivo: os mesmos canalhas, os mesmos bandidos repetem-se nas instituições, e suas caras estão nos canais de televisão e nas revistas, todas as horas. Já não há nem mesmo anedotas novas. Padronizou-se a burrice, nesta aldeia global, e não há como escapar. Homens e mulheres vestem a mesma roupa. Já não há nenhuma idéia nova.

 

                        “Sobre a minh´alma, como sobre um trono,

                        Senhor brutal, pesa o aborrecimento.

                        Como tardas em vir, último outono,

                        Lançar-me as folhas ao vento!”

 

É o que diz Olavo Bilac, no soneto “Tédio”. E é o mesmo “spleen” de Baudelaire, em quatro poemas:

 

                        “Quand le ciel bas et lourde pèse comme un couvercle

                        Sur l´esprit gémissant en proie aux longs ennuis,

                        Et que de l´horizon embrassant tout le cercle

                        Il nous verse un jour noir plus triste que les nuits.”

 

Urge um remédio contra o tédio. Será a obra de caridade maior que se pode fazer a todos nós.

Enquanto ele não aparece, vamos desvivendo.

 

emplasto brás cubas

 

 

 

O bilboquê

 

            Annibal Augusto Gama

Annibal fumando

 

 

 

 

 

 

 

Está na prateleira, ao lado das garrafas de bebidas. De vez em quando olho-o, mas não me animo a pegá-lo e a manipulá-lo. Perdi o jeito de embocar a bola, pendurada num cordão, na haste. Os meninos e as meninas que hoje são velhos eram muito hábeis com o bilboquê. Mas ele desapareceu, como desapareceram os carrinhos de rolimã e os piões. Os brinquedos mudaram, são muito outros. Há alguns meses, vi um pescador lançar ração a mais de cinqüenta metros, do outro lado da margem do lago aonde vou pescar. Impossível, como é que ele conseguia fazer aquilo? Dirigi-me então até ele e vi que, para lançar tão longe a ração, ele usava um estilingue. Os pescadores são inventivos e hábeis.

Com que brincam os meninos, hoje? Brincam com bonecos sofisticados e com aparelhos eletrônicos. Não sabem fabricar os próprios brinquedos. Não trazem no bolso o canivete marca corneta. Não sobem nas árvores. Nos regos, não fazem pontes para as formigas passar. As calçadas, nas ruas, já não são propícias para as danças e as cantigas de roda. Coelho sai! Não sai! O coelho não sai mais. Também, acabaram os quintais e os cavalos de pau, feitos de um cabo de vassoura. O assobio, o assobio, com que trocávamos mensagens de um quintal a outro, já não os ouço. Sentados diante da tela da televisão, ou do micro, os meninos se embasbacam. E onde foram parar as bolinhas de gude?

Fui soldado, creio que capitão, de uma guerra de mamonas, lançadas contra a hoste inimiga com as atiradeiras. As bolas de meia, e depois de borracha, com as quais jogávamos futebol nas ruas, não existem mais. As mães já não gritam da janela: “Olhe o sereno, menino! Já pra dentro!” 

Nas noites de chuva, brincava-se de esconder dentro de casa. Uma noite escondi-me dentro de um guarda-roupa, entre travesseiros com cheiro de alfazema, e adormeci.

Mas de manhã o sol voltou a aparecer, e fomos riscar na calçada, com carvão, a sua carantonha.

As enxurradas corriam pelas sarjetas, e íamos lançar nelas os barquinhos de papel.Todos os barquinhos naufragaram. O menino de ontem é hoje um velho obsoleto.

 

barquinho de papel

 

“O barquinho” (Ronaldo Bôscoli / Roberto Menescal), com Stacey Kent

 

 

 

O homem que olhava pela janela

 

              Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

 

Regularmente, tarde da noite, vou à janela iluminada da minha casa, e vejo o homem que, ao longe, parece também olhar da janela, igualmente iluminada, do seu sobrado. Ele olha para fora, durante algum tempo, e depois se afasta. Também eu, ao cabo de uns dois minutos, me afasto. Passa-se ainda algum tempo, e o homem que, do sobrado, olha pela janela, fecha-a e apaga a luz. Faço o mesmo.

Isto acontece todas as noites, e quase de madrugada.

Considerei bem todos esses fatos, e cheguei à conclusão, medindo a distância, que precisava conhecer o homem que olhava da janela, todas as noites.

Durante o dia, andei pelas ruas, e acabei descobrindo o sobrado, do qual o homem espia pela janela, recolhe-se e, depois, fecha a janela e apaga a luz.

O sobrado tinha um pequeno jardim à frente, uma cerca alta, de ferro e um portão. E a campainha.

Apertei a campainha e, decorridos alguns minutos, alguém apareceu na porta e perguntou:

─ Que é que o senhor deseja?

Respondi-lhe que precisava falar com ele. E vi que era um homem magro, de baixa estatura, já velho.

─ Pois fale daí mesmo ─ ele acrescentou.

Disse-lhe que dali não, precisava que ele me deixasse entrar e então nos entenderíamos.

Com relutância, ele abriu o portão. Entrei, e segui-o até uma sala.

─ Agora, o senhor diga-me o que tem a me dizer, e acabemos com isso.

Expliquei-lhe que o via, todas as noites, e tarde, ele olhando da janela iluminada do seu sobrado e eu, da minha casa o observava.

─ Ah, então, o senhor é que aparece numa janela iluminada, todas as noites?

De fato era eu. Ele olhava da janela do seu sobrado, e eu olhava da janela da minha casa.

─ O senhor mora sozinho? ─ eu quis saber.

─ Moro. E o senhor?

Também eu morava sozinho.

Assim, tudo entendido entre nós ambos, despedi-me e fui embora.

E continuamos os dois a olhar pela janela iluminada, todas as noites.

O que não sei é se é ele que me olha da janela, ou se sou eu que o olho da janela.

 

“Janelas Abertas” (Tom Jobim / Vinicius de Moraes), com Tom e Gal Costa

 [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=ZWbGLHAsqRM[/youtube]

 

 

 

Da arte de chutar tampinhas

 

            Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Se você ainda não chutou tampinhas nas ruas, latinhas de refrigerante, etc., é decerto um homem infeliz ou mal humorado. Não conhece o prazer de chutar as tampinhas e latinhas, principalmente de madrugada e assobiando um samba ou uma marchinha do Carnaval. E como eu quero que todas as pessoas sejam felizes, vou ensinar-lhe a arte de chutar tampinhas.

Venha pela rua, descuidadamente, mas atento às portas dos botecos e às sarjetas. Ali está uma tampinha. Eu prefiro as tampinhas de Coca-Cola e também as latinhas da mesma bebida, mas não rejeito as demais.

Primeiro, você nunca deve agachar-se para pegar a tampinha ou a latinha, e colocá-las de jeito para que possam ser chutadas. Quem faz isso é um ignorante da arte. Você deve aproximar-se da tampinha, ou da latinha, juntá-la com as bordas dos sapatos, e dar um pulo, levando-as presas, de modo que elas sejam largadas na calçada, no ponto certo para ser chutadas. Então, recue um pouco, arme o chute com a ponta do sapato e aplique-o vigorosamente no alvo. O certo é que a tampinha chutada voe em linha reta para a frente, caindo e rolando a uns vinte metros de onde você está. Se a tampinha ou a latinha fizer uma curva e for cair de novo na rua, é porque você errou o chute, e ainda não está devidamente preparado por esta arte tão sutil. Com o tempo, e adestramento, porém, você chegará a ser um craque, e a tampinha cairá sempre lá na frente, no meio da calçada. Assim acontecendo, tome fôlego, venha correndo e chute de novo a tampinha. E continue, ainda que ultrapasse a rua da sua casa.

Você também, quando devidamente habilitado, pode fazer umas firulas. Levantar a tampinha ou a latinha com o bico do pé, apará-las com a cabeça e, quando elas vierem caindo, chutá-las, antes que cheguem ao chão. E se tiver um amigo que o acompanhe pelas ruas, durante a madrugada, disputar com ele o melhor chute, ou uns dribles.

Chutar tampinhas ou latinhas é muito melhor do que ser jogador profissional de futebol. Você não precisa de clube, estádio ou campo, empresário, torcida, campeonato, e todas essas bobagens que estão acabando com o verdadeiro ludopédio.

Vá chutando pelas ruas, dando passes de calcanhar, mas evite o tranco com o amigo que o acompanha. Apare a tampinha com o peito. Chute sempre para frente, em linha reta.  Não é permitido passe para trás. Corra, pare, chute. Também é um prazer ouvir o ruído da tampinha, ou da latinha, quando elas rolam pela calçada. Chute também a tampinha contra a parede para, quando ela voltar, você atingi-la com um chute de voleio. Jamais use as mãos. Levante a tampinha com os pés, para que o seu amigo chute.

Depois de uns oito quarteirões, você está suado e feliz. Encoste então a tampinha, ou a latinha, na parede, porque elas podem ainda servir na noite seguinte.

Só então você deve recolher-se à sua casa e beber um copo d’água. Cumpriu a sua missão.

E vá chutando, porque a vida é um chute, e só são vitoriosos os que chutam bem.

 

tampinhas

“Camisa Molhada” (Carlinhos Vergueiro / Toquinho), com Carlinhos

 

 

 

 

As bruxas

 

                Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

 

O filme em que Kim Novak está mais bela, belíssima, é “Sortilégio do Amor”. Nele, há bruxas, bruxedos e bruxarias. E ela é uma bruxa muito poderosa, que faz os seus bruxedos com um gato. E ficamos sabendo que as bruxas não coram, nem choram. Quando amam, perdem as suas bruxarias. Porque o amor é a maior bruxaria, e a definitiva.

Nos meus anos de adolescente, conheci uma mocinha, que era uma bruxa, e ligeiramente estrábica, o que a tornava mais encantadora e perigosa. Uns dez ou doze anos depois, ela apaixonou-se, casou, engordou e virou uma matrona. Então, quando entrava numa casa, as tábuas do soalho rangiam. Ela que havia sido alípede e não andava, mas esvoaçava.

A vida desfaz as bruxarias. Ou por outra, faz bruxarias desastradas.

Aqui, na minha casa, costumam entrar aquelas borboletas noturnas, chamadas bruxas. Diferentemente das borboletas diurnas, as noturnas pousam de asas abertas. Pego-as delicadamente e vou colocá-las em lugares altos, para que alguém não pise nelas.

Machado de Assis tem aquelas páginas extraordinárias da borboleta preta, em Brás Cubas. Este, para espantá-la, com uma toalha, acaba matando-a, e depois pergunta, com remorso: “Mas também, por que não era azul?”

Geralmente, os homens são tolos. As bruxas têm as cores que quiserem, nós é que não as vemos.

Só quando realmente amamos é que vemos todas as cores. E tudo pode ser azul.

Há aquela estória do tintureiro japonês, para quem um freguês foi levar um terno branco, para lavar. Naquele tempo, a expressão “tudo azul”, significava “tudo bem”. O sujeito deixou o terno com o japonês e perguntou-lhe: “Tudo azul?” E o tintureiro japonês respondeu-lhe: “Tudo azul”. No dia seguinte, foi ele buscar o terno, e o japonês havia-o tingido de azul.

Tinja também a sua vida de azul, leitor.

 

Kim Novak

 

 

 

 

Dona Eloá e seu marido elefante

 

             Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Ele era um elefante no tamanho e na gordura, mas sua mulher, Dona Eloá não era. Ao contrário, pequenina e magrinha.

Como é que eles se arranjavam na cama, não sei, mas suponho que ele devia esmagá-la com o seu peso. Também ignoro como ele conseguira Dona Eloá. Acho que talvez não fosse antes tão gordo, mas devia já ser grande, um metro e noventa de altura.

Dona Eloá era a delicadeza em pessoa, e veio me consultar. Queria que eu o aconselhasse a fazer aquela cirurgia que tira metade do estômago, e um regime alimentar frugal.

Dona Eloá, eu lhe disse, não posso fazer nada se ele mesmo não vier me procurar, estes assuntos são muito pessoais. Então eu fico doente, isto é, finjo que estou doente, de cama, e lhe telefono. O senhor vai à minha casa, ele estará lá, e o senhor o aconselha.

De fato, dois dias depois me telefonou, e fui lá. Foi ele que me recebeu na porta, e atravancava a passagem. O senhor é o médico para quem minha mulher telefonou? Entre, ela está na cama, e o senhor a examina e receita. Entrar como, se ele atravancava a passagem, na porta?

Afinal, ele se desvencilhou e entrei. Fui para o quarto e simulei examinar Dona Eloá. Uma febrícula, ela esta enfraquecida, mas vou fazer-lhe uma receita, e ela logo ficará boa. Receitei-lhe umas pílulas inócuas.

Quanto é, doutor? Olhei para ele e lhe ponderei. O senhor é e que precisa tratar-se. Com todo este peso, o coração não aguenta. Três papadas sobre o queixo, a barriga enorme. Me sinto muito bem. O senhor é que pensa, ninguém pode estar bem com todo esse peso.

Dois dias depois, ele surgiu no meu consultório. Minha mulher já está bem, e aceitei a sugestão dela em vir consultá-lo. Levei-o para a balança, e ele quase a arrebentou. Pesava mais de duzentos quilos.

O senhor precisa fazer uma cirurgia, tirar metade deste estômago, e depois entrar num regime alimentar, para não tornar a engordar. Eu, doutor?! Está doido? Não vou para a mesa de operação de jeito nenhum. Na minha gordura é que está o meu êxito na vida. E a sua mulher, não pensa na sua mulher? Ora, damo-nos muito bem. Não o convenci, e só pude recomendar-lhe um regime dietético. Ele olhou o que eu havia escrito, e riu. Isto aqui eu como em dois minutos, e preciso logo de outra refeição substancial.

Pobre Dona Eloá, não havia solução para o elefante do marido dela. Dona Eloá, telefonei para ela, o seu marido é recalcitrante, não posso fazer nada. Vá vivendo com ele, como puder. Então, doutor, trate também de me fazer engordar. Outro regime alimentar. Ela engordou sessenta quilos, e os dois elefantes, agora, pastam no mesmo pasto.

Há sempre um elefante para uma elefantinha.

 

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O silêncio caiu

 

             Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

 

Num conto de Vladimir Nobokov, leio a frase: “o silêncio caiu”. Suponho que a tradução do seu texto, do inglês para o português, seja correta. E, sabidamente. Nobokov era um estilista. Mas pergunto a mim mesmo: o silêncio cai?

Alguém, há muito, muito tempo, escreveu: “o silêncio caiu”. Depois disso, centenas, milhares de outros escritores, repetiram: “o silêncio caiu”. A frase torno-se um clichê.

Ora, o silêncio não cai. Não é um, saco de chumbo, para cair do teto. Depois, ao invés de cair, pode também levantar-se do chão. Expandir-se, envolver uma sala e as pessoas que se acham nela.

Também habitualmente se diz ou se escreve: “A noite caiu”. Pois bem: A mim me parece que a noite não cai. Ao contrário. ela parece brotar do chão. O que cai é o sol, no horizonte.

Admite-se que a chuva caia, ou que o vento uive na folhagem das árvores. Mas essas frases, de tão repetidas, viraram lugares comuns, que já não nos dizem nada.

Elas compõem o que se denomina “fraseologia” de um idioma. E quase ninguém escapa disso, que já nada significa.

Homero escreveu, na sua épica: “os dedos róseos da aurora”. Era poético, numa época em que os deuses e as deusas habitavam a Terra. O mundo estava cheio de ninfas.

Muitos, muitos séculos depois, aqui no Brasil, no parnasianismo, Raimundo Correa faria aquele verso: “Raia, sanguínea e fresca, a madrugada”.

E as pombas vão e vêm…

Para um verdadeiro escritor, ou poeta, escrever é de novo descobrir o mundo. Vê-lo com os olhos que nunca outro o viu.

Todavia, a maior parte deles, repete os clichês.

Por isso mesmo, Vallery dizia que não seria capaz de escrever um romance. Porque,.em alguma parte dele, teria de escrever: “Madame, comment allez vous?”

  

silêncio

 

 

 

O livro

 

             Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Moisés, os escritores, com Deus, ou por ele, precisaram de cinco livros para dar início à Bíblia, o Pentateuco. Um deles, o primeiro, tem o título de Gênesis, quer dizer, a criação. Pode ser uma meditação de como se faz o mundo, ou de como se deve fazer um livro.

Cinco livros são um bom número para um escritor escrever, ou para um leitor começar a ler. Infância, adolescência, mocidade, maturidade, velhice. O caminho de uma vida.

Depois do fiat lux, o homem e a mulher são criados e postos no Paraíso, juntos dos pássaros, dos outros animais, da água, das árvores. Deverão se virar, e Deus passeia na brisa da tarde. Irão encontrar, o homem e a mulher, a inocência, a malícia, a alegria, a dor, a morte. E se, mais tarde, são expulsos do Éden, não os expulsam das bibliotecas. Apenas, fazem a lista, o Index Librorum Prohibitorum, que, por isso mesmo, é muito percorrido pelos leitores vorazes. A proibição, a censura, são um convite à leitura. E afinal, os leitores leem aqueles livros condenados, e dizem: “Nem tanto assim…”

Os cinco primeiros livros, com os anos, podem ser multiplicados por cem, trezentos, mil. Mas, no geral, eles se repetem, ou completam-se uns aos outros.

O problema é o espaço. Mil livros já demandam um bom espaço, e é preciso deslocar outros objetos. Que se dirá de dez mil, vinte mil, cem mil livros, de uma biblioteca? E é necessário ainda abrir lugares para os leitores. E os cuidados que os livros exigem, catalogação, fichários, limpeza, conservação, encadernação, restauração, dão ocupação para centenas de pessoas.

Bota-se fogo na Biblioteca de Alexandria, porque o único livro verdadeiro é o Corão e, se todos os demais o repetem, ou divergem dele, são inúteis ou deletérios.

Não seria preciso isso: os ratos, as baratas, o mofo, os insetos se encarregam de destruir os livros.

E eles se dispersam: vão para os alfarrabistas, para os sebos. Tristes mendigos que se juntam ao acaso.

O colecionador de livros, o bibliófilo, é um maníaco inofensivo. Está ali, com os óculos a escorrer pelo nariz, as falripas brancas dos cabelos espetadas para cima, a espirrar e a percorrer as prateleiras. O pó dos livros cobre-lhe os ombros do paletó. Fecha as portas, para não ser perturbado. E as suas saídas são para buscar outros livros, raros, primeiras edições.

É, porém, longevo. Vive até os oitenta, noventa anos, porque não se aventura para as ruas, onde seria esmagado pelos carros. É magro, curvado, só se alimenta para sobreviver. É sagaz, sardônico, e celibatário.

É capaz de falar sobre um livro horas e horas. Sabe da sua história, dos seus descaminhos, da sua impressão, das suas ilustrações, das ideias que agitou, das controvérsias que provocou.

O livro é matéria inflamável. Se não é, não vale a pena.

 

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Balde D’Água

 

          Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

Quando passava debaixo da janela, ela entornou sobre ele o balde d’água com que regava as plantas, no balcão. Ele olhou para cima, aborrecido. Oh, exclamou ela, me desculpe, foi sem querer. E ainda bem que não entornara sobre ele o conteúdo de um urinol, se é que ainda existem urinóis.

Por favor, entre, que eu vou enxugar a sua roupa. Ele entrou, ela ajudou-o a tirar o paletó, e tratou de ir secá-lo e passar-lhe o ferro quente. As suas calças também estavam molhadas, mas ele não iria sacar as calças. Pediu uma toalha, e enxugou-as como pode. Não conseguiu deixar de rir.

É a primeira vez em que conheço uma mulher que me entorna um balde d’água. Ela também sorriu. Nunca o vi caminhar por aqui. Explicou-lhe que viera por ali casualmente, sem dar-se conta, porque o seu caminho habitual era outro. Vestiu o paletó, e já ia embora. Aceita um cafezinho? ─ ela lhe perguntou. Aceitava, e ela lhe trouxe uma xícara de café. Mais uma vez, me desculpe. Era uma mulher de uns trinta anos, bonita, mas sem exagero. Espero que isto seja o começo de uma amizade, disse-lhe. Também espero, ela concordou.

Uns dias depois, ele passou debaixo da mesma janela. Parou e bateu na porta. Ela abriu e convidou-o a entrar. Entrou. Um cafezinho coado agora mesmo vai bem? Outra xícara de café, ele sentou-se na poltrona que ela lhe indicou, e acendeu um cigarro. Chamava-se Maria de Nazaré.

Tudo começa imprevistamente, ou é o destino, como se propala.

Maria de Nazaré contou-lhe sua vida. Morava sozinha, com a mãe, que ele ainda não vira. Providencialmente, na ocasião, a mãe estava ausente, em outra cidade, visitando parentes.

─ E o senhor, que me conta do senhor?

Não ia fazer-lhe um relatório; contou-lhe o que podia interessar, uma coisa e outra. Não me chame de senhor, que eu também não a chamarei de senhora, Maria de Nazaré.

─ Agora que nos conhecemos…

─ Por força de um balde d’água entornado…

─ Seja como for, me sinto feliz.

As mãos dela entre as mãos dele, ambos sentados um diante do outro.

Um ano depois estavam casados.

Minha leitora ocasional: quando as coisas não estão dando certo, e a vida parece um tédio prolongado, atire um balde d’água no cavalheiro que passar debaixo da sua janela.

 

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 “O que é o amor?” (Danilo Caymmi / Dudu Falcão), com Selma Reis