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Ela pode

 

 

 

“All of me” (Gerald Marks / Seymour Simons), com Billie Holiday

http://www.youtube.com/watch?v=4P0hG3sD0-E

 

 

 

O visitante

 

 

 

 

Ele bateu à porta na véspera do dia dos pais.

Passava da meia-noite, e a inesperada presença o incomodou.

Depois de tanto tempo, por que foi aparecer logo agora?

Lembrava-se de que ele desprezava essas datas comemorativas, forjadas por interesses comerciais. Acabou por ter a mesma conduta, sempre repetindo à família que não queria festejos, nem presentes.

Sabia, porém, que era inútil. Amanhã a casa seria tomada pela turba ruidosa de filhos, genros, noras e netos. No fundo, isso não o desagradava, apenas não via sentido em ser homenageado pela simples condição de pai.

Mantiveram uma relação tempestuosa durante toda a vida, com inúmeros conflitos e poucos pontos de convergência, o que talvez explicasse o distanciamento gradual, que um dia se tornou definitivo.

Fitando-se de perto, verificou que, passados os anos, ele parecia o mesmo do retrato no canto da parede. A mesma fronte alta, com cabelos ralos e embranquecidos, mas volumosos e encaracolados nas laterais e na nuca. O mesmo olhar ressabiado, o mesmo esboço de sorriso, com algo de sarcástico. As mesmas mãos de palmas largas e dedos curtos, “mãos de semeador”, costumava ele dizer. Apresentava ainda a mesma inquietude, o mesmo andar apressado, o mesmo jeito de sentar e balançar as pernas.

A voz também era quase a mesma, mas não era preciso falar. Ele sempre apreciara o silêncio da noite.

De vez em quando ele se levantava, ia até ao banheiro, ou à cozinha tomar água e café. De volta à sala, remexia nos livros da estante, folheava, lia algumas páginas, antes de recolocar na prateleira.

Acabou por adormecer na poltrona, com um livro entreaberto nas mãos.

Amanhecia quando finalmente resolveu se deitar.

Ao entrar no quarto e acender a luz, o espelho do armário trocou com ele o mesmo olhar do retrato no canto da parede da sala.

 

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=JCQVnSOFqfM[/youtube] 

 

 

Just the way you are

 

 

 

“Just the way you are” (Billy Joel), com Diana Krall

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=d8RYUZT57XA[/youtube]

 

 

 

O som do silêncio

 

 

“The sound of silence) (Paul Simon), com Simon & Karfunkel

[youtube] http://www.youtube.com/watch?v=I2-AZzcQHns[/youtube]

 

 

 

De ternuras

 

 

Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para Sinatra, uma das mais ternas canções jamais escritas. ‘Não há na letra um “I love you” sequer, mas o amor está todo lá’, comentou certa vez.

Adoro “Little Green Apples”. Música de 1968. Com ela, as descobertas, os primeiros versos… Verdes como as maçãs.

 

 

                                                 POEMILHA

 

                                                 Garrafas ao mar

                                                 Bilhetes em quilhas

                                                 e árvores, a estilete

 

                                                 Mapas, luas, estrelas

                                                 signos, mitos, sons

                                                 ideogramas, ritos

 

                                                 Em vão.

 

                                                 Apenas o eco e seus iguais

                                                 respondem ao meu coração.

 

                                                 Decifra-o se és capaz.

 

 

Do bauzinho da garota… Ousada, não? Drummond tremeu.

 

Uma das versões de “Little…” , na voz personalíssima de B.J. Thomas.

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=avXntFPN0vc[/youtube]

 

 

 

A foggy day

 

 

“A foggy day” (George / Ira Gershwin), com Fred Astaire

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=QbgyZzJ7Oig[/youtube]

 

 

 

Fragmentos

 

        Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(foto de Cartier-Bresson)

 

 

Ela desviou o olhar com a leve impressão de que o conhecia. Ele, não. Ele tinha certeza. Tanto assim que à saída do elevador, delicadamente se (re)apresentou, repetiu-lhe o nome de solteira, perguntou se estava feliz, quantos filhos… Na escada rolante e pelo caminho que os levaria à rua, lembrou-se da casa em que ela morou, da sua melhor amiga, dos bailes, das músicas que dançavam, do exato ponto da praia em que ficavam, do seu maiô azul… Sentiu que era hora de ir quando ele disse lembrar-se do perfume que ela usava. Ah, os homens… Décadas sem se verem e o mesmo papo sedutor, ainda que pleno de lembranças tão precisas. Seguiram em direções opostas. Com ela, a saudade daqueles dias azuis.

 

 

“Only You” (Buck Ram / Ande Rand), com The Platters

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=3FygIKsnkCw[/youtube]