Posts from julho, 2009

Levantar ancoras

 

 

Caros navegantes e companheiros de viagem,

 

Hoje à noite, nossa caravela alça ancoras, solta as amarras e, à toda vela, segue de volta à nossa mui amada e gentil Terra Brasilis, freguesia de São Sebastião do Ribeirão Preto.

Intrépidos, passaremos pelo Cabo da Roca tal como o bravo Gama, e seguiremos felizes rumo às nossas raizes.

Mui ainda haveria a relatar por este vosso escriba, antes canhestro que destro, mas este Diario de Bordo se encerra aqui, ao menos destas paragens estrangeiras.

A bem de ver, uma viagem nunca finda enquanto fica na nossa lembrança e no nosso afeto.

Atesto que fostes fortes e fiéis companheiros das aventuras e peripécias luso-francesas ora narradas, sempre acrescidas pelas glosas saborosas de vossos pertinentes  comentarios.

Em nome do Mor Capitão e da minha Rainha, vos agradeço pela companhia fidalga, que nos encheu de alegria ao longo dessa travessia.

 

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O Louvre, uma demasia que enfastia

 

 

Calma, não me atirem pedras ainda.

O Louvre é magnifico, um acervo admiravel da cultura e da arte de todo o mundo, um monumento da humanidade!

Mas a opulencia é tamanha, a grandiosidade  é tanta, que entorpece e arrefece o visitante (o D’Orsay, muitissimo menor, mas com o seu impressionante acervo de impressionistas, não nos esmaga tanto). Seria preciso visitar o Louvre trinta dias seguidos para ter uma pequena ideia do que abriga.

No periodo de férias então, como agora, torna-se impossivel e intoleravel. Centenas de asiaticos, alemães, norte-americanos e sul-americanos se amontoam diante da Mona Lisa ou da Venus de Milo e se põem fotografa-las todos ao mesmo tempo!

Alias, uma coisa que me irrita e foge à razão é essa mania de tirar fotos de obras e quadro famosos, em vez de simplesmente admira-los com atenção para rete-los na lembrança, ainda porque os postais e livros trazem reproduções de muito mais qualidade.

“Ah, mas quero mostrar que estive la!”

Para que e para quem?

Bem verdade que fiz algo parecido no Cabo da Roca, mas se tratava de um local aberto e me moviam razões de ordem sentimental, como ja disse.

A turma dos fotografos de museu não se classifica por sexo, raça ou credo, mas apenas pela idiotice comum.

Ocorre-me agora, a respeito do Louvre, uma historia do meu saudoso primo Sérgio (que a Sonia deve conhecer também). Convivi pouco com ele mas sua gorda e trovejante figura é inesquecivel para mim.

Contava ele que ao visitar o Louvre percorreu suas galerias e salas olhando à direita e à esquerda, como o expectador de uma partida de tenis ou de ping-pong. Feito isso, a fome lhe bateu (devia pesar uns 140 quilos na época) e tratou de sair do museu para fazer o que realmente gostava: comer e beber!

Eis, contudo, que na rua depara com uma passeata de trabalhadores e estudantes, que lhe impedia totalmente a passagem.

Sem hesitar, integrou-se ao protesto, e com o seu corpanzil logo se põe à frente da turba, empunhando uma faixa arrebatada de alguém. Como não entendia o que bradavam, por conta propria passa a berrar o  bordão patrio:

“O povo, unido, jamais sera vencido!”

Imagino ele como a célebre figura da Liberdade conduzindo o povo, retratada magistralmente por Delacroix (um dos quadros que consegui rever, para reaviva-lo na memoria).

Mas seu ardor civico durou apenas até um local em que conseguiu se desvencilhar da massa e entrar num restaurante de outras massas, mais apetitosas, para saciar a fome e a sede, que àquela altura eram maiores e mais pungentes do que a vontade de derrubar governos ou presidentes.

 

PS – A quem interessar possa, ha uma pilula nova sobre o Presidente Sarcozy.

 

Um marciano em Paris

 

 

EU ASSISTI À CHEGADA DO TOUR DE FRANCE!

Querer, não queria, mas me obrigaram.

Sai neste domingo de sol para flanar ao longo do Sena, pensando em caminhar até o Champ de Mars. Mas à altura do Jardin des Tuileries, fui apanhado por um grande cerco policial, que não me permitia seguir pelas margens do Sena.

Completamente alheio ao que acontecia  –  um marciano em Paris  –  fui tentando contornar o cerco, o que era impossivel, e acabei na Champs Elysées.

A esta altura, é claro, ja sabia o que se passava. Parecia final de Copa do Mundo (ou pelo menos da Libertadores da América) no Brasil.

As ruas apinhadas de gente, com camisetas amarelas do Tour ou de ciclistas (aquelas bem justinhas e coloridas), bandeiras, bandeirinhas, bandeirolas, agitação frenética, expectativa crescente.  Nos telões, o Galvão Bueno frances se esgoelava,  não sei se dizia tantas bobagens quanto o nosso.

Carros alegoricos, caminhões de som, animadores, buzinaços (so faltavam os famigerados trios elétricos da axé music).

Cansei de ver os ciclistas passando, até que de repente acabou, mas aquele que ganhou não ganhou o Tour, vencido por um espanhol que vinha no meio do pelotão. 

VIVA O FUTEBOL!

 

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Hoje um coração bateu

 

 

Hoje um coração bateu,

um coração que ja batia, mas se escondia.

Um coração é feito para bater

e bate porque vive e porque vive bate.

Enquanto bate esse coração, outros corações com ele batem

e a vida que bate à porta abre outras portas, todas as portas,

para aqueles que a vida importa.

 

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Banho frances 2

 

 

A Carol me alertou, em seu comentario sobre o post “Em Paris”, que a Danuza Leão, no seu livro “Fazendo as malas”, relata uma aventura dela no “Old Navy”, altas horas da noite, em busca de uisque. Tenho o livro aqui, mas ainda não o havia lido. Ao conferir, vejo que a observação da Carol procede, e – o que é mais curioso – diz a Danuza que o bar “era bem  estranho, esfumaçado, e de frances não tinha nada”, bem de acordo com o que senti.

Outra coincidencia:  no livro de Luis Fernando Verissimo, “Traçando Paris”, que havia lido da primeira vez em que aqui estive (e que trouxe agora para a Delucena ler), ele também fala, com muito mais verve e talento do que eu, sobre o banho na França. Isso revela que no fundo somos todos muito parecidos, a sofisticada Danuza, o sagaz Luis Fernando – ambos viajados e experientes – e nos outros, marinheiros de primeira e segunda viagem.

A proposito, Delucena e eu, com a pratica diaria, desenvolvemos duas técnicas, que se completam,  para tomar banho em Paris.

A minha, que denominei provisoriamente de “técnica do movimento minimo”, consiste em prender os cotovelos junto ao corpo e apenas movimentar mãos e antebraços o minimo possivel, roboticamente, sem grandes expansões.

Delucena, por seu turno, desenvolveu a técnica (ainda não nomeada) de colar o corpo na parede durante o banho, de modo a minimizar que a agua espirre para fora do box.

O emprego conjunto de ambas as técnicas nos tem possibilitado tomar um banho sofrivel, mas alagando apenas metade do banheiro.

 

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A Paris de cada um

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Não me lembra agora quem disse que nunca se chega a Paris pela primeira vez.

Isso é verdade, porquanto Paris faz parte da memoria coletiva, mesmo quando nunca se tenha estado na cidade.

Penso, contudo, que também se possa dizer que sempre se chega a Paris pela primeira vez, tanto a cidade tem a oferecer e surpreender.

Desta feita, aconteceu comigo uma sensação estranha, que me intrigava. Disse antes que em Lisboa logo me senti em casa, ou melhor, na casa de um avo querido, que também me queria e acolhia. Em Paris, apesar da expectativa e do entusiasmo, me sentia na casa de um tio distante e aristocratico, que eu amava, mas que não me demonstrava o mesmo.

Claro que a dificuldade de comunicação tem influencia nisso, mas não explica tudo, até porque da outra vez logo me senti à vontade. Pois acabo de descobrir o que me aconteceu.

Delucena e eu decidimos que cada um faria hoje o que quisesse, e nos encontrarimos no final da tarde no hotel, cheios de amor e saudade, para jantarmos.

O que fiz eu?

Num impulso, parti em busca da rua, do hotel e do local em que meu pai e eu ficamos na nossa inesquecivel viagem de 1996. Rue des Ecoles, Hotel Saint Germain, proximo da Sorbonne.

Encontrei com facilidade, e eis-me aqui a escrever num café que então frenquentavamos, defronte do hotel.

Antes, visitei o Phantéon e vi que, além dos defuntos ilustres, ainda se encontra la em exposição o famoso Pendulo de Foucault, reproduzindo a célebre experiencia de 1851 e reinstalado exatamente em 1996, quando o vimos  pela primeira vez com emoção, pois tinhamos acabado de ler o livro de Umberto Eco.

No final do dia ainda consegui localizar a Taverne Henry IV, na Pont Neuf, pertinho do Louvre. A taverna continua a mesma, mas não estava la o antigo dono e anfitrião, gordo, amigavel e exuberante, mas apenas uma senhora de uns 45 anos, de aspecto sofrido,  e uma velhinha encarquilhada, quase careca. Não tive coragem de perguntar pelo nosso velho amigo  (cujo poster continua na parede), por temer que tenha morrido. Prefiro pensar que ele apenas atenda na hora do almoço e depois va para casa descansar e curar a ressaca, ja que bebe tanto ou mais que os fregueses que  alegremente acolhe. Em sua lembrança e homenagem, fiz uma extravagancia e tomei um verre de un grand cru, de 7,50 euros!

Quando fui embora caia uma chuva fina de verão (“chuva e sol, casamento de espanhol”; “sol e chuva, casamento da viuva”).

Caminhei  feliz  sob a chuva de Paris, porque havia reencontrado afinal minhas referencias, a mim mesmo e a minha Paris.

Ninguém consegue viver sem referencias. A patria, a lingua, a familia, nosso rio e nossa aldeia podem não passar de abstrações, mas são referencias vitais para nos situarmos no mundo e sermos o que somos, o que fomos e o que seremos.

 

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Banho frances

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Vamos combinar uma coisa, franceses e parisienses não são mesmo chegados a tomar banho!

Provas incontestes disso são as invenções do perfume, do bide ou banho frances e do que eles chamam de douche, que não passa de um chuveirinho de mão (que agora, por benevolencia extrema, pode ser afixado no alto), dentro de um espaço ridiculo, em que voce, além de dar cabeçadas e cotoveladas por todos os lados e cantos, não consegue tomar um banho decente sem inundar o exiguo banheiro.

A Delucena, a pensar que estamos em nossa casa onde logo receberemos uma visita cerimoniosa – ou talvez o inspetor de banho de Paris -, ficou desesperada e queria porque queria pedir um rodinho para enxugar o piso. Na falta desse tão pratico utensilio domestico, o meu pé chato 42 foi de grande eficacia empurrando a agua para o pequeno ralo, que a engolia aos engasgos, regorgitando, pois que a queda d’agua é mal feita (nem ousem dizer que teria sido obra de algum pedreiro portugues, um dos melhores do mundo!).

Sim, banho como estamos (mal) acostumados é coisa de selvagens, que vivem do lado de baixo do Equador, onde não existe pecado!

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Em Paris

 

Chegamos no hotel por volta das 20 horas (local) e  depois de nos ajeitarmos, tomarmos banho e trocarmos de roupa eram quase 22 horas.

Resolvemos dar uma volta e comer algo pelas cercanias, repleta de cafés, brasseries, restaurantes e bares. Como era domingo, e verão, tudo lotado!

Apenas porque havia uma mesa vaga na calcada, acabamos sentando num pequeno bar de nome nada frances, “Old Navy”, também porque havia alguns mùsicos tocando, o que me agradou.

O bar é comum, sem nada de especial (pareceu-me um ponto de boemios, beberrões e mulheres solitàrias, o que em nada o desmerece), mas os mùsicos, dois guitarristas e um contrabaixo acùstico (daqueles grandões), eram sensacionais, tocavam de tudo e com maestria, até bossa nova e bolero (Sabor a mi), mas com uma levada do melhor jazz, com improvisações e temas paralelos.

De repente, não mais que de repente, parou na calçada um sujeito engomadinho, que imediatamente me lembrou João Gilberto, e ficou sorrindo, extasiado, acompanhando a mùsica estalando os dedos e batendo o pé.  Sùbito sumiu, para logo depois reaparecer, trazendo a caixa de uma guitarra (daquelas parecidas com violão) e logo começou a tocar com os outros mùsicos. Certamente eram conhecidos, pois a perfomance ficou melhor ainda. O carinha era um mestre, como João Gilberto.

Curtimos tanto que somente voltamos para o hotel la’ pelas 2 horas da madrugada, com a banda ainda tocando, por puro prazer.

Não haveria melhor jeito de reencontrar Paris (eu) ou de a conhecer (Delucena).

 

PS   A acentuação vai como consigo, neste teclado (clavier) à francesa!

 

 

O Cabo da Roca

 

Estamos em Paris faz menos de 24 horas e com muito a contar.  Antes disso, contudo, uma derradeira emoção em Portugal. (Notem que por amor ao idioma, estou me vendo obrigado a não usar palavras com acento agudo, cujo sinal não consigo achar neste teclado…).

Em Lisboa me vi tomado de uma euforia juvenil, de um entusiasmo enorme, de uma rara energia vital. Delucena, mais calma e vagarosa, sofreu para me acompanhar no começo, mas pouco a pouco fomos nos ajustando e, enquanto ela descansava no hotel depois dos passeios matinais, continuava eu, ao cair da longa tarde, com sofreguidão e alumbrado, a percorrer avenidas, ruas e becos do Rossio, Chiado, Alfama, Bairro Alto.

Mais do que conhecer um lugar, uma cidade pela primeira vez, gosto de retornar ao lugar, rever e reviver a cidade.

Todavia, ainda não tinha ido ao Cabo da Roca, o nariz do continente europeu, o ponto mais avançado e derradeiro de suas terras ocidentais, “onde a terra se acaba e o mar começa”, cantou Camões.

Tinha fascinação para conhecer o local, especialmente porque imagino o que sentiam e pensavam os navegadores do tempo dos descobrimentos, quando passavam pelo cabo, rumo ao oceano infindo e desconhecido, em busca de novos mundos.  Com toda a razão dizem alguns que a aventura daqueles navegantes foi tão ou mais audaciosa do que as viagens espaciais.

O Cabo da Roca me fez sentir todas as emoções que imaginava, e muito mais. Por isso não resisti a comprar, como um menino, um lindo e pomposo comprovante da minha presença no local, que parece um diploma, com fitas e medalha, em que consta meu nome caligrafado caprichosamente na hora, com uma sutileza a que me permiti, marotamente:

ANTONIO CARLOS AUGUSTO DA GAMA.

 

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Paris, toujour Paris

 

Estamos de saída do hotel em Lisboa, onde a internet era livre e fácil,  a caminho de Paris (onde não sei se conseguirei atualizar o blog, como tenho feito).

Por enquanto a língua ajudou. Mas temo que a partir de agora ela travou, com meu francês e inglês sofríveis,  que nos farão sofrer.

Voilá!