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Não me lembra agora quem disse que nunca se chega a Paris pela primeira vez.
Isso é verdade, porquanto Paris faz parte da memoria coletiva, mesmo quando nunca se tenha estado na cidade.
Penso, contudo, que também se possa dizer que sempre se chega a Paris pela primeira vez, tanto a cidade tem a oferecer e surpreender.
Desta feita, aconteceu comigo uma sensação estranha, que me intrigava. Disse antes que em Lisboa logo me senti em casa, ou melhor, na casa de um avo querido, que também me queria e acolhia. Em Paris, apesar da expectativa e do entusiasmo, me sentia na casa de um tio distante e aristocratico, que eu amava, mas que não me demonstrava o mesmo.
Claro que a dificuldade de comunicação tem influencia nisso, mas não explica tudo, até porque da outra vez logo me senti à vontade. Pois acabo de descobrir o que me aconteceu.
Delucena e eu decidimos que cada um faria hoje o que quisesse, e nos encontrarimos no final da tarde no hotel, cheios de amor e saudade, para jantarmos.
O que fiz eu?
Num impulso, parti em busca da rua, do hotel e do local em que meu pai e eu ficamos na nossa inesquecivel viagem de 1996. Rue des Ecoles, Hotel Saint Germain, proximo da Sorbonne.
Encontrei com facilidade, e eis-me aqui a escrever num café que então frenquentavamos, defronte do hotel.
Antes, visitei o Phantéon e vi que, além dos defuntos ilustres, ainda se encontra la em exposição o famoso Pendulo de Foucault, reproduzindo a célebre experiencia de 1851 e reinstalado exatamente em 1996, quando o vimos pela primeira vez com emoção, pois tinhamos acabado de ler o livro de Umberto Eco.
No final do dia ainda consegui localizar a Taverne Henry IV, na Pont Neuf, pertinho do Louvre. A taverna continua a mesma, mas não estava la o antigo dono e anfitrião, gordo, amigavel e exuberante, mas apenas uma senhora de uns 45 anos, de aspecto sofrido, e uma velhinha encarquilhada, quase careca. Não tive coragem de perguntar pelo nosso velho amigo (cujo poster continua na parede), por temer que tenha morrido. Prefiro pensar que ele apenas atenda na hora do almoço e depois va para casa descansar e curar a ressaca, ja que bebe tanto ou mais que os fregueses que alegremente acolhe. Em sua lembrança e homenagem, fiz uma extravagancia e tomei um verre de un grand cru, de 7,50 euros!
Quando fui embora caia uma chuva fina de verão (“chuva e sol, casamento de espanhol”; “sol e chuva, casamento da viuva”).
Caminhei feliz sob a chuva de Paris, porque havia reencontrado afinal minhas referencias, a mim mesmo e a minha Paris.
Ninguém consegue viver sem referencias. A patria, a lingua, a familia, nosso rio e nossa aldeia podem não passar de abstrações, mas são referencias vitais para nos situarmos no mundo e sermos o que somos, o que fomos e o que seremos.
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