Posts from julho, 2009

A face semi-oculta

 

 Karl Malden

 

                        O seu rosto de traços fortes e com um nariz extravagante era difícil de permanecer oculto, mas ele nunca era o protagonista.

                        O seu papel sempre foi de coadjuvante, e como tal ganhou o Oscar de melhor ator em 1952, por sua atuação como Mitch em Um Bonde Chamado Desejo, dirigido por Elia Kazan. Ainda sob a direção de Kazan, atuou em Sindicato de Ladrões (1955), e mais uma vez foi indicado para o Oscar na mesma categoria de ator coadjuvante.

                        Falo do ótimo Karl Malden, que morreu no dia 1º deste mês,  em Los Angeles, aos 97 anos, e até mesmo ao  sair de cena  ficou em segundo plano, diante da comoção provocada pela morte de Michael Jackson.

                        Tanto em Um Bonde Chamado Desejo, quanto em Sindicato de Ladrões, o personagem principal foi interpretado por Marlon Brando, com quem Karl Malden contracenou diversas outras vezes, uma delas em A Face Oculta (1961), dirigido pelo próprio Brando.

                      A face oculta 2 A Face Oculta (One-Eyed Jacks), um dos últimos filmes produzido pela Paramount Pictures utilizando-se da tecnologia Vista Vision, é um western atípico e perturbador, considerado como obra-prima por uns e detestado por outros, que me impressionou e agradou  muito quando assisti no cinema, em tela grande. Há muito tempo não o revejo e não sei como me parecerá agora. Existe cópia em DVD, mas talvez o filme perca muito na TV, apesar dos atuais aparelhos enormes, com extraordinária definição de  imagem e de som (que ainda não tenho).

                        Inicialmente, A Face Oculta seria dirigido pelo grande Stanley Kubrick, que queria Spencer Tracy para interpretar o xerife Dad Longworth, que no passado havia sido assaltante de banco e traído o companheiro Kid Rio (Marlon Brando), deixando que fosse preso na cena do crime e fugindo sozinho com o ouro roubado. Ao que consta um dos motivos de Brando ter assumido a direção foi a insistência da empresa produtora em dar o papel de Dad a Malden, que o desempenhou de modo magnífico, como, aliás, era do seu feitio.

                        A inexperiência de Brando como diretor e o seu perfeccionismo o levaram a rodar seis vezes mais material de fotografia do que normalmente é usado em um filme do gênero, cuja primeira versão tinha nada menos do que cinco horas de duração! A Paramount decidiu então reeditar o filme por conta própria, fazendo com que ele tivesse sua duração final de 140 minutos.

                        Antes de se dedicar ao cinema, Karl Malden teve uma bem sucedida carreira na Broadway, participando de produções épicas como Todos os Meus Filhos (All My Sons), de Arthur Miller, e Um Bonde Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire), de Tennessee Williams, em cuja versão cinematográfica atuaria depois. Foi nessa época que conheceu e se tornou amigo de Marlon Brando e Elia Kazan.

                       São Francisco Na década de 70, Malden participou de séries para a televisão, entre as quais a mais popular foi  São Francisco Urgente  (The Streets of San Francisco), que marcou a estreia do ator Michael Douglas, o qual afirma que Malden tornou-se seu mentor desde então. A presença do jovem e atraente Michael Douglas acabou mais uma vez por se sobrepor ao papel desempenhado por Karl Malden, que deveria ser o protagonista. 

                        Malden participou ainda de diversos outros filmes famosos, como Patton (Frandklin J. Schaffner), Beijo da Morte (Henry Harthaway), O Homem de Alcatraz (John Frankenheimer), O Matador (Henry King), Passos na Noite (Otto Preminger),  A Árvores dos Enforcados (Delmer Daves), A Tortura do Silêncio, (Alfred Hitchcock), Crepúsculo de uma Raça (John Ford), A Conquista do Oeste (John Ford, Henry Hathaway, George Marshall, Richard Thorpe).

                        Foi presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, de 1989 e 1992, e o principal defensor da entrega do Oscar honorário pelo conjunto da obra em 1999 ao diretor Elia Kazan, tido como delator de companheiros durante a chamada caça às bruxas dos anos 50.

                        ― Sou viciado em trabalho, dizia Karl Malden, ― Amo cada filme que fiz, mesmo os ruins, mesmo as séries de TV, cada peça, porque eu amo trabalhar. É o que me faz seguir.

                        Talvez por isso, e como todo grande e verdadeiro ator, Karl Malden não se importasse em ser o astro principal nem ter sua face em primeiro plano.