Cheguei às docas de Alcântara pegando duas linhas de metrô e o comboio que vai para Cascais. Sou um caminhante, especialmente quando viajo, e depois descobri que com uma boa e prazerosa caminhada de uns 20 minutos teria chegado ao Cais do Sodré, onde apanhei o comboio, sem necessidade do metrô.
Sento-me num dos bares, abaixo da extensa ponte ferro-carril, que os comboios cruzam sem cessar, um túnel sem fim a sufocar como um túmulo o ruído dos veículos que passam logo acima.
Abaixo de mim, os barcos ancorados balançam levemente com o vento e a água. Um pequeno barco ostenta uma placa de “Vende-se – Marítima – 912346603”. Mas o que me agrada é um outro, à vela, jeito antigo, todo de madeira, lindamente ornado de amarelos, azuis, vermelhos, rosas, chamado “Ana Paula”. Esse não está à venda, mas com ele me sentiria um Vasco da Gama.
Mais à frente, o Tejo com sua magnificência e placidez parece se preparar para acolher o sol, que ainda vai alto às 19 horas.
Enquanto o sol não se põe, me ponho a beber e navegar por lembranças que fluem, fantasias, sonhos e mares nunca dantes.
A tarde tarda, tardonha, e afinal o sol engana o Tejo e a mim, pouco a pouco arrefece e súbito já é lua.
Com o sol que sorrateiro se foi, me fui, mas parte de mim fiquei, à espera de D. Sebastião, o desejado rei.