Posts from julho, 2009

Pôr-do-sol em Alcântara

 

 

Cheguei às docas de Alcântara pegando duas linhas de metrô e o comboio que vai para Cascais. Sou um caminhante, especialmente quando viajo, e depois descobri que com uma boa e prazerosa caminhada de uns 20 minutos teria chegado ao Cais do Sodré,  onde apanhei o comboio, sem necessidade do metrô. 

Sento-me num dos bares, abaixo da extensa ponte ferro-carril, que os comboios cruzam sem cessar, um túnel sem fim a sufocar como um túmulo o ruído dos veículos que passam logo acima.

Abaixo de mim, os barcos ancorados balançam levemente com o vento e a água. Um pequeno barco ostenta uma placa de “Vende-se – Marítima – 912346603”. Mas o  que me agrada é um outro,  à vela, jeito antigo, todo de madeira, lindamente ornado de amarelos, azuis, vermelhos, rosas, chamado “Ana Paula”. Esse não está à venda, mas com ele me sentiria um Vasco da Gama.

Mais à frente, o Tejo com sua magnificência e  placidez parece se preparar para acolher o  sol,  que ainda vai alto às 19 horas.

Enquanto o sol não se põe, me ponho a beber e navegar por lembranças que fluem, fantasias, sonhos e mares nunca dantes.

A tarde tarda, tardonha, e afinal o sol engana o Tejo e a  mim,  pouco a pouco arrefece e súbito já é lua.

Com o sol que sorrateiro se foi, me fui, mas parte de mim fiquei, à espera de D. Sebastião, o desejado rei.

 

 

 

 

O Chiado de Pessoa

 

Ontem, no Mosteiro dos Jerônimos, vi o túmulo de Fernando Pessoa, cujo corpo foi para lá trasladado.

Hoje, no Chiado, tomei um conhaque com ele nA Brasileira.

Não sei com qual deles. Talvez com todos, ou com nenhum.

Coitado do Fernando Pessoa (ou de suas pessoas). Estava compenetrado e de pouca prosa. Não me respondeu o que lhe falava.

Quem sabe pensava na vida e na morte, que são a mesma coisa.

Coisa de Pessoa.

O Tejo

 

 

“O Tejo é mais bonito que o rio que passa na minha aldeia,

mas o Tejo não é mais bonito que o rio que passa na minha aldeia

porque o Tejo não é o rio que passa na minha aldeia.”

Não sei se, de memória, citei corretamente os versos do mestre Alberto Caeiro.

Mas o Tejo é lindíssimo e empolgante, ao saber que dele os portugueses se lançaram ao mar oceano (que de tudo sabe e tudo guarda) em busca do seu destino, que acabou sendo também o destino de nós, brasileiros.

Passamos o dia à toa, à toa, como a andorinha de Bandeira, às margens do Tejo, revisitando a Torre de Belém, o Padrão dos Descobrimentos, o Mosteiro dos Jerônimos (restaurado e ainda  mais maravilhoso), com o Tejo nos sussurando as suas histórias e segredos.

 

 

Portugal

 

 

Chegamos hoje, dia 14, em Lisboa, depois de muitas peripécias, por volta das 20 horas daqui.

As peripécias foram por conta do voo interno Paris/Lisboa numa empresa aérea muito  popular por aqui, de baixo custo, chamada easyJet, que, como todas as empresas que operam no limite, atrasam os voos sem maiores explicações e tratam os usuários como um bando de idiotas. Deveria chamar “confusionJet” . Nunca mais, mas temos ainda de regressar a Paris por ela…

No hotel por volta das 21 horas, tomamos um bom banho, e a Delucena só pensava em dormir. Mas pelo meu fuso horário brasileiro ainda eram 17 ou 18 horas, e resolvi sair sozinho pelas imediações.

 Estar em Portugal é como chegar na casa do nosso avô ou bisavô, muito velhinho e sábio, que nos adora mas gosta de nos passar “pitos” de vez em quando para mostrar quem é que manda.

Perto do hotel, e morto de fome, encontrei um restaurante típico português, “Delfim”, onde comi um bacalhau da casa, simplesmente bestial, com um vinho do Dão.  Depois o dono do estabelecimento me fez provar um arroz doce feito, segundo ele, com “ovos de galinha solteira”, o que nos propiciou uma gostosa e amigável discussão filosófica sobre os ovos dessa galinha casta.

Agora realmente me sinto em férias, e de volta ao hotel ainda encontrei  o computador dando sopa, o que me permitiu rabiscar este post.

 

 

 

 

Aviso aos Navegantes 2

 

 

                        Saio de férias amanhã e realizo um velho sonho de regressar à Europa, desta vez com minha mulher Maria Delucena, companheira e principal responsável da minha vida venturosa, mas que até agora resistia em se lançar a mais esta aventura comigo.

                        Voltaremos apenas no final do mês, portanto até lá os posts neste blog minguarão. Não sei nem mesmo se conseguirei postar alguma coisa nesse período. Mas vou tentar.

                        De todo modo, espero que estas férias sejam menos traumáticas e frustrantes do que aquelas de janeiro no Rio, e que ao atracar de volta meu barco encontre todos os amigos à minha espera neste blog, que tem sido o porto de chegada, ao qual me guia e conduz minha estrela binária.

                        Saudade e até breve.

 

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O sonho roubado

 

 

Em homenagem, e desforra, a meu inconfidente companheiro

de viagem, que não me acompanhará nesta,

mas sempre estará comigo.

 

 

                        Às vezes ele acreditava em Deus. Às vezes, não.

                        Dizia ser um livre-pensador, cético ou agnóstico, mas alguma coisa, bem no fundo de si, acreditava ou queria crer.

                        Livre-pensador é uma redundância, pois que só é possível pensar com liberdade, aceitando ou admitindo aquilo que se harmoniza com a sua razão.

                        Cético não é o que duvida de tudo, mas antes o que acredita em tudo, ou melhor, numa coisa e no seu contrário também.

                        Agnóstico é um pernóstico, a que falta a coragem de ser materialista convicto ou acreditar no invisível.

                        Tudo isso ele também livremente pensava consigo mesmo.

                        O que de fato o incomodava e não conseguia compreender era o fanatismo religioso, que em vez de religar ou aproximar as pessoas, impinge a intolerância e o ódio entre crentes e incréus.

                        Lia sem parar, os escolásticos e os filósofos eminentes, mas cada porta que se lhe abria o levava a um vestíbulo com diversas outras portas cerradas.

                        Uma noite, em que tardou a dormir, depois de muita leitura, achando-se naquele estágio intermédio entre o sono e a vigília, a revelação se fez!

                        Com clareza e lógica perfeita, os argumentos foram se encadeando em sua mente, até que ficasse demonstrada de forma evidente e incontestável a existência de Deus!

                        Como ninguém havia pensado nisso antes? Era tudo tão cristalino, tão óbvio, tão exato!

                        Apaziguado e sentindo uma felicidade plena, finalmente adormeceu, a prometer que tão logo despertasse  registraria para a humanidade a sua comprovação definitiva da existência de Deus.

                        Na manhã seguinte, lembrava-se do que havia acontecido, mas não lhe acudia como desenvolver o raciocínio perfeito. Ao contrário, a cada argumento ou hipótese de que cogitava, inúmeras dúvidas e contradições lhe assaltavam.

                        Concluiu então que, se existe ou não, Deus resiste.                  Deus 3

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A face semi-oculta

 

 Karl Malden

 

                        O seu rosto de traços fortes e com um nariz extravagante era difícil de permanecer oculto, mas ele nunca era o protagonista.

                        O seu papel sempre foi de coadjuvante, e como tal ganhou o Oscar de melhor ator em 1952, por sua atuação como Mitch em Um Bonde Chamado Desejo, dirigido por Elia Kazan. Ainda sob a direção de Kazan, atuou em Sindicato de Ladrões (1955), e mais uma vez foi indicado para o Oscar na mesma categoria de ator coadjuvante.

                        Falo do ótimo Karl Malden, que morreu no dia 1º deste mês,  em Los Angeles, aos 97 anos, e até mesmo ao  sair de cena  ficou em segundo plano, diante da comoção provocada pela morte de Michael Jackson.

                        Tanto em Um Bonde Chamado Desejo, quanto em Sindicato de Ladrões, o personagem principal foi interpretado por Marlon Brando, com quem Karl Malden contracenou diversas outras vezes, uma delas em A Face Oculta (1961), dirigido pelo próprio Brando.

                      A face oculta 2 A Face Oculta (One-Eyed Jacks), um dos últimos filmes produzido pela Paramount Pictures utilizando-se da tecnologia Vista Vision, é um western atípico e perturbador, considerado como obra-prima por uns e detestado por outros, que me impressionou e agradou  muito quando assisti no cinema, em tela grande. Há muito tempo não o revejo e não sei como me parecerá agora. Existe cópia em DVD, mas talvez o filme perca muito na TV, apesar dos atuais aparelhos enormes, com extraordinária definição de  imagem e de som (que ainda não tenho).

                        Inicialmente, A Face Oculta seria dirigido pelo grande Stanley Kubrick, que queria Spencer Tracy para interpretar o xerife Dad Longworth, que no passado havia sido assaltante de banco e traído o companheiro Kid Rio (Marlon Brando), deixando que fosse preso na cena do crime e fugindo sozinho com o ouro roubado. Ao que consta um dos motivos de Brando ter assumido a direção foi a insistência da empresa produtora em dar o papel de Dad a Malden, que o desempenhou de modo magnífico, como, aliás, era do seu feitio.

                        A inexperiência de Brando como diretor e o seu perfeccionismo o levaram a rodar seis vezes mais material de fotografia do que normalmente é usado em um filme do gênero, cuja primeira versão tinha nada menos do que cinco horas de duração! A Paramount decidiu então reeditar o filme por conta própria, fazendo com que ele tivesse sua duração final de 140 minutos.

                        Antes de se dedicar ao cinema, Karl Malden teve uma bem sucedida carreira na Broadway, participando de produções épicas como Todos os Meus Filhos (All My Sons), de Arthur Miller, e Um Bonde Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire), de Tennessee Williams, em cuja versão cinematográfica atuaria depois. Foi nessa época que conheceu e se tornou amigo de Marlon Brando e Elia Kazan.

                       São Francisco Na década de 70, Malden participou de séries para a televisão, entre as quais a mais popular foi  São Francisco Urgente  (The Streets of San Francisco), que marcou a estreia do ator Michael Douglas, o qual afirma que Malden tornou-se seu mentor desde então. A presença do jovem e atraente Michael Douglas acabou mais uma vez por se sobrepor ao papel desempenhado por Karl Malden, que deveria ser o protagonista. 

                        Malden participou ainda de diversos outros filmes famosos, como Patton (Frandklin J. Schaffner), Beijo da Morte (Henry Harthaway), O Homem de Alcatraz (John Frankenheimer), O Matador (Henry King), Passos na Noite (Otto Preminger),  A Árvores dos Enforcados (Delmer Daves), A Tortura do Silêncio, (Alfred Hitchcock), Crepúsculo de uma Raça (John Ford), A Conquista do Oeste (John Ford, Henry Hathaway, George Marshall, Richard Thorpe).

                        Foi presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, de 1989 e 1992, e o principal defensor da entrega do Oscar honorário pelo conjunto da obra em 1999 ao diretor Elia Kazan, tido como delator de companheiros durante a chamada caça às bruxas dos anos 50.

                        ― Sou viciado em trabalho, dizia Karl Malden, ― Amo cada filme que fiz, mesmo os ruins, mesmo as séries de TV, cada peça, porque eu amo trabalhar. É o que me faz seguir.

                        Talvez por isso, e como todo grande e verdadeiro ator, Karl Malden não se importasse em ser o astro principal nem ter sua face em primeiro plano.

 

 

 

O poeta efêmero

 

 

                        Há pouco mais de dez anos, quando ainda não havia  o euro e o real valia um dólar,  pude fazer minha primeira (e até agora única) viagem à Europa, na companhia de meu pai. Optamos por uma jornada sentimental pelos países latinos, de que somos mais próximos e que mais de perto influenciaram nossa formação, Portugal, Espanha, Itália e França.

                        Com um carro alugado, percorremos a partir de Lisboa mais de oito mil quilômetros de deslumbramentos e surpresas inauditas, já que embora tivéssemos estabelecido algumas cidades como pontos de referência e estadia, o roteiro não era rígido e nos permitíamos parar em outras cidades e lugarejos que nos despertavam o interesse ao longo do caminho.

                        Ao sair de Portugal e cruzar a Espanha rumo a Madri, permanecemos três dias em Salamanca, com a qual nos encantamos, embora a intenção inicial fosse de lá ficar apenas um dia.

                        Depois de visitarmos a famosa e tradicional Universidade de Salamanca, entramos em uma velha livraria das imediações, onde passamos algum tempo folheando e garimpando livros. Acabei comprando, entre outros, um pequeno livro de capa amarela, de pouco mais de cem páginas, escrito por um professor de literatura daquela universidade, Juan Sebastián Agullo, sobre a vida de uma figura extravagante e lendária por lá, de quem jamais tinha ouvido falar até então e nem ouvi falar depois.

                        Trata-se do poeta Guilhermo Pérez-Arroyo, nascido em Barcelona, de família nobre, que abandonou a Marinha para combater ao lado dos rebeldes na Guerra Civil espanhola, e depois passou a viver em Salamanca. Morreu no ano de 1944, em circunstâncias misteriosas, havendo suspeitas de que teria sido assassinado a mando do ditador Franco.

                        Em Salamanca, tornou-se um verdadeiro ídolo dos estudantes da universidade, com os quais passava as noites na Plaza Mayor, embebedando-se de absinto, entoando canções tradicionais e declamando seus poemas, que costumava queimar depois, por achar que a poesia devesse ser como a faísca de um relâmpago que deixa marcas apenas naqueles a que atingiu com sua descarga efêmera  e fulminante. Por isso, não publicou nenhum livro e da sua obra restaram somente fragmentos salvos por alguns de seus companheiros ou por estes reproduzidos de memória.

                        Remexendo numa caixa em que guardei as recordações daquela viagem, deparei-me com o livrinho, do qual extraio um dos poucos poemas que consta como sendo da autoria de Guilhermo Pérez-Arroyo, e cujas referências náuticas, segundo o autor do estudo, reportariam à sua vida de Oficial da Marinha.

 

MAREO

 

                                               Marino de uno barco fantasma

                                               me busco e non me hallo

                                               em cada puerto que paso.

 

                                               Navegar por siete mares

                                               me fue de poca valía

                                               son siempre iguales lugares

                                               y cada mañana repetie el mismo día.

 

                                               Pero una noche de marea alta

                                               por mando del mor capitán

                                               zarparé a la viaje definitiva

                                               y la última misión.

 

                                               !Vaya, vida vana!

                                               Tú eres la áncora

                                               que me ata a lo largo

                                               del misterio de las cosas.

 

                         Dentro do livro, em papel de carta do hotel em que nos hospedamos em Salamanca, encontrei uma tosca tradução que fiz do poema, com os tropeços do conhecimento de espanhol e algumas licenças poéticas:

 

MARESIA

 

                                              Marujo de um barco fantasma

                                              procuro e não me acho

                                              em cada porto que passo.

 

                                               Navegar os sete mares

                                               me foi de pouca valia,

                                               são sempre iguais os lugares

                                               e cada manhã repete o mesmo dia.

 

                                               Mas numa noite de maré cheia

                                               a mando do mor capitão

                                               zarparei na viagem definitiva

                                               para a derradeira missão.

 

                                               Ah, vida vã!

                                               Tu és a âncora

                                               que me prende ao largo

                                               do mistério das coisas.