Posts from agosto, 2009

 

Segunda-feira é dia de pílulas.

O obreiro da música (João de Barro)

 

 

braguinha

 

                           A sua frágil e doce figura, especialmente na idade madura, com os bastos cabelos brancos, parecia a de um passarinho, e seu canto tão mavioso quanto.

                           Talvez por isso, intuitivamente, tenha escolhido o nome artístico de um passarinho, mas quase todo mundo o chamava carinhosamente de Braguinha.

                           Não nos enganemos, porém. Por trás dos apelidos singelos e do porte físico mirrado, avultava um dos gingantes da música brasileira, um artista múltiplo (hoje seria chamado de multimídia), com uma obra monumental e de extraordinária qualidade.

                           Por certo quase todos frequentemente  assoviamos ou cantarolamos  uma de suas músicas, sem nos darmos conta do que ele representou e representa.

                           Carlos Alberto Ferreira Braga nasceu em 29 de março de 1907, no Rio de Janeiro, onde também faleceu, num domingo, na véspera do Natal de 2006, com gloriosos 99 anos de idade.

                                                                  Bando de Tangarás

Músico, compositor e cantor, adotou o pseudônimo de João de Barro quando integrava ao lado de Noel Rosa, Alvinho, Almirante e Henrique Brito, o Bando de Tangarás (cujos integrantes tinham nome de passarinho), que foi o primeiro grupo a usar batucada no samba, quando este ainda era mal visto, como música de malandro.

 

                           Muitas vezes compondo na base do assovio, consagrou-se como um dos campeões do Carnaval com suas marchinhas adoráveis e inesquecíveis como Pirata da Perna de Pau, Chiquita Bacana, Yes! Nós Temos Bananas, Linda Lourinha, Touradas de Madri (cantada em coro pela torcida brasileira em 1950, quando nossa seleção goleou espetacularmente a Espanha, antes da trágica derrota para o Uruguai, na final), Balancê (que tem uma gravação primorosa de Gal Costa, na sua melhor forma).

                           Entre suas mais de 400 composições conhecidas, figuram grandes clássicos, como Copacabana (princesinha do mar), As Pastorinhas (estrela d’alva), em pareceria com Noel, e Carinhoso, música de Pixinguinha para a qual fez a letra.

                           Há, entretanto, algumas facetas de Braguinha que são menos conhecidas, nas quais seu talento e importância não foram menores.

                           Em 1938, participou da dublagem do filme Branca de Neve e os Sete Anões, de Walt Disney, o primeiro desenho animado em longa metragem da história do cinema. A cantora Dalva de Oliveira deu voz à Branca de Neve, e o cantor Carlos Galhardo, ao príncipe. Trabalhou ainda nas versões brasileiras de Pinóquio (1940), Dumbo (1941), Bambi (1942), entre outras.

                           Provavelmente inspirado pela obra de Disney, no início dos anos 40, época em que era o diretor artístico da gravadora Continental (CBS), idealizou e lançou os álbuns da coleção Disquinho, com fábulas e contos (como O Chapéuzinho Vermelho, O Gato de Botas, O Pequeno Polegar, A Cigarra e a Formiga, Festa no Céu, A História da Baratinha), em diálogos rimados e canções. No final da década de 70 e início dos aos 80, os disquinhos de vinil colorido alcançaram a cifra de 5 milhões de cópias vendidas, e foram fonte de alegria e encantamento das minhas filhas Carolina e Isabella, então pequeninas (lembram-se elas?).

                           Também na minha infância, uma das músicas de Braguinha me deliciava, Tem Gato na Tuba (“Todo domingo havia banda/no coreto do jardim/e já de longe a gente ouvia/a tuba do Serafim…”), que por incrível que possa parecer meu pai costumava cantar, e muito bem com sua voz de barítono grave (será que ele ainda se lembra, e saberá que a canção é de Braguinha?).

                           Braguinha também é autor de diversas músicas de festas juninas, como Mané Fogueteiro, Noites de Junho, Capelinha de Melão, Sobe Balão, e de versões antológicas, como as das célebres canções de Charles Chaplin, Limelight (Luzes de Ribalta) e Smile (Sorri). Seus versos em português para esta última superam até mesmo os originais:

 

SORRI

Charles Chaplin & Tuner G. Parsons

Versão: João de Barro (Braguinha)

 

 

                                        Sorri, quando a dor te torturar

                                        e a saudade atormentar

                                        os teus dias tristonhos, vazios.

 

                                        Sorri, quando tudo terminar,

                                        quando nada mais restar

                                        do teu sonho encantador.

 

                                        Sorri, quando o sol perder a luz

                                        e sentires uma cruz

                                        nos teus ombros cansados doridos.

 

                                        Sorri, vai mentindo à sua dor

                                        e ao notar que tu sorris

                                        todo mundo irá supor

                                        que és feliz.

braguinha 2

 

 

 

 

 

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Adão

 

 

                        Acordou, como todo dia, alguns minutos antes que o despertador tocasse.

                        Seguiu a rotina de sempre. Escovou os dentes, banhou-se, tomou o café da manhã, enquanto assistia ao noticiário da TV, folheou o jornal, que leria com calma à noite. Tornou a escovar os dentes, antes de sair para o trabalho.

                        No escritório, cumpriu as tarefas matinais, sem novidade alguma.

                        Foi quando almoçava com os colegas, no restaurante costumeiro, que se deu conta, num repente, de que estava nu.

                        Não obstante, tudo corria da forma corriqueira. As conversas à mesa, o serviço dos garçons, os cumprimentos a conhecidos que entravam ou saíam.

                         Sentia-se absolutamente à vontade, confortável, e ninguém parecia notar a sua nudez. Nenhum traço de espanto, nenhum alvoroço.

                         Pediu licença e foi até ao banheiro. Mirou-se no espelho e confirmou que estava inteiramente nu. Em vez de alarmá-lo, isso o tranquilizou. Não estava delirando, imaginando coisas.

                         De volta à mesa, terminou calmamente a refeição.

                         Pagarem a despesa e caminharam, como de hábito, alguns quarteirões até o escritório.

                         Apesar do sol escaldante e de estar descalço, não sentia incômodo algum. Os pés deslizavam pelas calçadas e pelo asfalto como se estivem protegidos pelo calçado mais aconchegante, ou como se andasse no ar.

                          Ao longo da tarde nada se alterou. Atendeu clientes,  passou orientações para a  secretária e outros funcionários, assinou documentos,  participou de uma reunião.

                          Chegava a se esquecer de que estava nu, mas quando se olhava ou via sua imagem refletida em vidros ou espelhos, a nudez se estampava.

                           Lembrou-se do conto de Fernando Sabino, em que um homem, acidentalmente, se vê nu fora de casa e sofre muitas aflições.

                            Ele, porém, estava em completa paz.

                           Voltou para casa um pouco mais tarde que o habitual, mas ainda em tempo de jantar com a família, brincar com os filhos, ajudá-los nas lições da escola.

                          Depois que as crianças foram dormir, ele e a mulher conversaram tranquilamente sobre as coisas do dia e os planos para as férias que se aproximavam, enquanto tomavam um vinho do Porto.

                           A mulher foi se deitar, e ele permaneceu mais algum tempo na sala, lendo o jornal e algumas páginas de um livro.

                          Quando também foi para o quarto, a mulher já havia adormecido. Deitou-se ao seu lado e logo o sono o enlevou, mansamente.

                             Amanhã recomeçaria.

 

 

 

Como sair do armário

 

 

                        Foi numa sexta-feira, e ele jamais esquecerá a sensação de alívio e de liberdade que sentiu, depois de tanto padecimento no silêncio e na solidão.

                        Chegou em casa por volta das 19h15min, atrasado para a pelada semanal, que começava impreterivelmente às 19h30min. Quem chegava depois de formados os times, tinha de esperar a segunda partida, mas era a primeira, em que todos ainda estavam com fôlego e com a bola toda, que realmente valia para os comentários e gozações de depois, que se estendiam até a próxima refrega. Quem não participava da primeira partida, ficava à margem, como um reles jogador do banco de reserva ou da segunda divisão, para o qual ninguém dá bola.

                        Arrumava freneticamente seu material na bolsa quando verificou que o seu tênis de futebol-soçaite não estava no lugar de costume.

                        A empregada já tinha ido embora e a mulher saíra com as amigas para comemorar o aniversário de uma delas numa pizzaria. Voltaria tarde.

                        Vasculhou sem sucesso toda a casa, até o quintal onde costumava deixar o tênis para tomar sol.

                        Já em estado de desespero, uma última réstia de esperança tremeluziu ao se lembrar do armário, utilizado como despensa, num pequeno cômodo anexo à cozinha, em que a empregada já havia deixado algumas vezes o precioso tênis, em vez de guardá-lo na sapateira do quarto, sendo repreendida por isso.

                        Profundamente irritado e praguejando, ao invadir o armário em busca do tênis acabou, na afobação, por bater a porta, cuja maçaneta que se achava defeituosa há algum tempo, soltou-se e caiu, uma parte para dentro e outra para o lado de fora, na cozinha.

                        A princípio, sem se importar com isso, revirou as prateleiras, vasculhou por baixo delas e pelo chão do exíguo cômodo em busca do seu graal ludopédico, que também não se encontrava ali.

                        Cada vez mais furioso, tentou sair do armário e então se deu conta de que estava preso.

                        Com a parte da maçaneta que havia caído do lado de dentro era impossível  abrir a porta. Pelejou por longo tempo (pensando que enquanto isso os amigos se empenhavam em outra peleja, na qual queria estar), tentou diversas manobras, com os dedos, com utensílios que encontrou no armário. Tudo em vão!

                        Só lhe restou aguardar no pequeno vão do armário a volta da mulher festeira.

                        O tempo não passava, cada segundo era uma eternidade, o que o fez acreditar que afinal compreendia o significado da Teoria da Relatividade de Einstein.

                        Para se entreter, leu rótulos, comeu bolachinhas e batatinhas, e até tomou uns tragos de um garrafão de pinga armazenado no armário, chegando a cogitar em se embebedar de uma vez.

                        Sofreu crises intermitentes de claustrofobia, de vontade de urinar, de enjôo pelos muitos cheiros do armário, petiscos comidos e cachaça ingerida. Tentou a meditação transcendental, mas sua mente era logo assaltada por imagens futebolísticas.

                        Passava da meia-noite quando ouviu ruídos na casa indicando o regresso da mulher, que ainda demorou uns bons minutos até chegar à cozinha, intrigada e temerosa com os seus gritos e murros desferidos na porta do armário.

                        Só então, e finalmente, conseguiu sair do armário.

                         Para sempre!

 

 

 

 

 

                        Para a ressaca de segunda-feira, só mesmo pílulas.

O Lobo português

 

 

                        O grande nome da literatura portuguesa hoje é um lobo, não de estepe, mas profundamente fincado no chão pátrio e  incomodado pelas dores e mazelas da história lusitana.

                        Psiquiatra, António Lobo Antunes foi destacado para Angola, a serviço do Exército português, que combatia a guerrilha de libertação da colônia, liderada pelo MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), durante a fase final da Guerra Colonial portuguesa, experiência que o marcou tão profundamente que lhe serve de tema em vários de seus livros, a partir de Memória de Elefante, após o qual nunca mais exerceu a Medicina.

                        O primeiro livro dele que li ― impelido pelo título singular e instigante ― foi Os Cus de Judas, que muito me impressionou pela reflexão crítica sobre o imobilismo português, fruto de uma renitente fantasia sebastianista e de um imperialismo nostálgico. Confesso que até então, aqui de longe, o sebastianismo me empolgava como o mito ou a utopia de um povo extraordinário, a sonhar com as glórias saudosas de sua história.

                        Além dessa reflexão inquietante, o livro nos enreda, poeticamente, no desejo do narrador pela mulher que ele intenta seduzir. Apaixonado pelo Brasil, e grande admirador de Machado de Assis, Lobo Antunes refere-se ao nosso país em duas ocasiões: uma em Angola, quando fazendeiros importam prostitutas brasileiras, e a outra em Lisboa, quando, após regressar da guerra, só e sem a mulher amada, o personagem ouve um cassete de Maria Bethânia

                        Nos tempos de estudante, Lobo Antunes combateu a ditadura salazarista, e o romance, em muitos momentos, retrata uma traição a si mesmo, ou seja, do estudante idealista que se formou médico e acabou por servir ao regime que abominava, daí a referência a Judas, o protótipo do traidor.

                        As NausAlém de Os Cus de Judas, já li Memória de Elefante, Conhecimento do Inferno, e estou lendo As Naus, numa edição que comprei em Lisboa.

                        O estilo de Lobo Antunes não é dos mais fáceis. Numa narrativa não-linear e fragmentada, de longos parágrafos, utiliza-se do fluxo de consciência e da associação de idéias, para construir a história e o perfil de seu narrador/protagonista, explorando a condição arbitrária ou absurda da existência humana, na esteira de Kafka e Camus.

                        O que se diz em Portugal é que, enquanto Lobo Antunes permanece obsessivamente local e vai se tornando uma consciência nacional, o consagrado Saramago descambou para parábolas anódinas, que se passam em lugares imaginários. Ambos  têm  adeptos ferrenhos, e os de Lobo Antunes, que parecem ser majoritários, afirmam que o Nobel foi ganho pelo homem errado.

 Antonio Lobo Antunes 3

 

 

 

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Sabores inusitados

 

 

                        Modesto apreciador de vinho, ainda engatinho nos seus mistérios, sempre amparado pela mão segura do meu amigo Roberto Rockmann, ele, sim, um expert.

                        Apesar do meu noviciado e do pouco talento olfativo (em que pese o nome, sou incapaz de discernir toda a gama de aromas preconizados), acontece-me com o vinho o mesmo que com a música. Embora tenha tipos preferidos de um e de outra, o sabor de ambos tem muito a ver com o momento e o estado de espírito.

                        É claro que há vinhos e músicas que sempre nos fazem bem, ou  intragáveis em qualquer circunstância, mas às vezes somos surpreendidos e nos sentimos inebriados com um espécimen inopinado, e nisso está toda a graça da coisa.

                        Com filmes isso também pode acontecer (não consigo deixar de assistir, quantas vezes passem na TV, e mesmo já indo adiantados, A Primeira Página, Quero ser grande, Meu Querido Presidente, De volta para futuro, ET e alguns outros filmes do gênero, que são para mim um refrigério), mas com livros o fenômeno não ocorre, pois sua leitura sempre se estende no tempo e, se não me afeiçoa a obra, o momento passa, o estado de espírito volta ao normal, e acabo por abandoná-la para avançar em outra, mais apetitosa.

                        Na minha recente viagem, fartei-me de bons vinhos, mas o instante mágico e inesperado ocorreu numa pequena garrafeira, denominada Alfaia, no Bairro Alto, em Lisboa. Sentado num modesto banquinho à porta do estabelecimento, e com dois outros servindo de mesinha, passei algumas horas de raro encantamento e prazer, comendo petiscos locais, como presunto cru e azeitonas, e bebericando um vinho branco (embora prefira os tintos), que caía maravilhosamente, como a tarde que se alongava enquanto a noite preguiçosa tardava. O nome do vinho (que anotei, para que mestre Rockmman talvez me diga alguma coisa) é Erva Pata, safra de 2005, da Agrícola Ribeiro Correa, região da Estremadura.

                        Assim também com alguns gêneros musicais pelos quais não tenho especial predileção, mas que em determinados lugares e momentos tornam-se um deleite.

                        Ainda agora, enquanto trabalho na minha estreita toca em casa, ouvindo música pela internet, como costumo fazer, eis que começa a tocar Beijo Roubado, de Adelino Moreira, numa interpretação deliciosamente kitsch de Ângela Maria, com suspiros e protestos débeis, negando-se ao beijo que lhe foi roubado (mas que afinal tem mais sabor). Aliás, Adelino Moreira tem uma obra musical vastíssima, grande parte dela gravada por Nelson Gonçalves, que mereceria um estudo sem preconceito, assim como as inúmeras composições da dupla Evaldo Gouveia e Jair Amorin, entre as quais a não menos deliciosa Brigas, que tem uma gravação antológica de Altemar Dutra e Cauby Peixoto, cantando juntos.

                        Nem mais me lembrava do Beijo Roubado, que tocava muito em serviços de alto-falante, parquinhos, quermesses e outros locais ou zonas menos familiares de antanho, para onde fui transportado tão logo comecei a ouvir a melodia.

                        De volta para o presente, suspendi temporariamente o trabalho para rabiscar estas baboseiras, pelas quais espero ser perdoado, como o ladrão de beijos.

 

 

 

 

                        Há uma pílula para a gripe suína e nossas “otoridades” da Saúde (?).

Minha vida de menina

 

                        Sou pai de três meninas, que já são mulheres, maravilhosas mulheres, cada uma a seu jeito.

                        Quando ainda eram meninas, e eu um jovem pai afoito, perturbava-me imaginar como reagiria quando elas se tornassem mulheres, começassem a namorar, a se apaixonar, a sofrer as próprias dores, a mergulhar, enfim, na vida, sem que eu pudesse ajudá-las ou protegê-las.

                        Sem me dar conta, intuitivamente, impelido pelo amor de pai e pelo simples desejo de que elas pudessem ser felizes, e que eu não as atrapalhasse muito, penetrei surdamente no universo feminino, como o poeta, no reino das palavras.

                        Não sei qual dos dois mundos é mais fascinante, mágico e encantador: o feminino ou o das palavras.

                        Com cada uma das três descobri e aprendi coisas diferentes, cada uma delas me enlevou e levou a ver o que não via, a sentir o que não sabia, a conhecer o que me fugia.

                        Elas me fizeram um homem muito melhor do que era e poderia ser.

                        Eu é que fui e venho sendo ensinado, em vez de ensiná-las. No dia dos pais, sou eu que devo homenageá-las, e não elas a mim.

                        Esse fluxo de emoção me assalta depois de ter lido o artigo de Contardo Calligaris, Entre pai e filha, no caderno Ilustrada (E12), da edição da Folha de S. Paulo de quinta-feira (6/8/2009), em que ele comenta o filme À Deriva, de Heitor Dhalia, que “(…) conta de maneira perfeita (peso minhas palavras) o processo delicado e comovente pelo qual uma menina se torna mulher”.

                        Ainda não assisti ao filme (o que não deixarei de fazer), nem cabe reproduzir aqui o artigo de Contardo  (cuja leitura recomendo, com todo o entusiasmo). Mas não posso me furtar de transcrever dois trechos que me pareceram luminares e que servirão ao menos para despertar a vontade de ler o texto integral e assistir ao filme:

 

                        “Se Freud assistisse a “À Deriva”, ele dedicaria ao filme um texto magistral, não sem reafirmar, mais uma vez, que encontramos mais saber na ficção da arte do que nos esforços, sempre grosseiros, de expor nosso entendimento.”.

                        “Qual é o desfecho dessa história que se repete a cada dia? O fim do filme comoverá qualquer pai de menina, e seria sacanagem com o espectador contar as últimas cenas. Digamos assim: quando a história acaba bem, o que sobra é a sensação de um amparo paterno, de um lugar de ternura e amor para o qual é possível voltar para se lavar das eventuais asperezas e sujeiras do desejo, mas um lugar que não infantiliza porque o pai continua enxergando e admirando a mulher que a menina se tornou.”

 

 

Preamar

 

 

Post coitum omne animal triste, nisi gallus qui cantat.

 

 

                        Parece um sonho.

                        Ela ali, deitada ao seu lado, linda e sorridente, olhando fixamente para ele, com ternura e paixão.

                        O anseio é tanto, que teme quebrar o encanto breve. Mais de uma vez recolhe o gesto esboçado para continuar a contemplá-la, esparramada no lençol de cetim, nua e lânguida.

                        Até que não mais resiste, estica o braço e toca a carne palpitante e quente, numa carícia trêmula.

                        O corpo agora é um mar que se crispa e o engolfa numa onda vertiginosa, que cresce, cresce, cresce, até se quebrar espumosa e mansamente despejá-lo na praia úmida.

                        Ao longe, os sons da casa lentamente ressoam, o ruído dos derradeiros pingos da chuva que caem do telhado na folhagem do quintal, pouco a pouco se distinguindo do relógio que lateja na sala.

                        O súbito vazio, absoluto e oco como uma lata velha, aberta dos dois lados, transpassada pelo vento.

                        Por que assim?

                        Em que baía, em que ilha, o desejo naufragado se acoitou?

                        De costas para ela, acende o cigarro e se deixa ficar, desterrado e indolente, acompanhando o bailado da fumaça no ar.

                        Lá fora o galo cantou, para o dia que nascia.