Caiu-me às mãos em Lisboa uma excelente publicação, em formato de tablóide, intitulada Ípsilon, que na edição de 17 de julho de 2009 trazia uma longa entrevista, feita por Isabel Coutinho, em que Chico Buarque fala sobre o seu último livro e sua condição de escritor.
Das que li ultimamente, pareceu-me a melhor entrevista de todas. A jornalista sabe perguntar e escrever (coisa cada vez mais rara no Brasil), e Chico está bem à vontade, revelando coisas divertidas e interessantes.
Duas delas: sobre a influência de Machado de Assis, Chico não a recusa, especialmente porque o livro (Leite Derramado) “passa pelo tempo de Machado de Assis”. Mas afirma também, para meu espanto, que não é conhecedor da obra de Machado, que só leu aos 15, 16 anos: “Então estudei, li Machado de Assis, como li Eça de Queiroz na escola. Eu li “Dom Casmurro”, “O Alienista”. Não li “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (risos) e têm citado muito ele”.
A outra curiosidade foi o medo de não conseguir se libertar do velho Eulálio, o personagem e narrador do livro. Conta Chico que Guimarães Rosa, no meio da escrita do romance A Fazedora de Velas foi tomado pela tristeza do livro e o guardou numa gaveta. “Mas a personagem ficou rodando na sua cabeça e meses depois Guimarães Rosa ficou doente com uma doença que imitava, ponto por ponto, a do narrador do seu livro. Lembrei disso antes de escrever “Leite Derramado”. Achei que não deveria tomar esse velho como narrador. Pensei: “Me vai fazer mal”. Isso me perseguiu o tempo todo. Escrever é sofrido. Quando alguma coisa sai com facilidade, eu desconfio. Eu escrevo pelo prazer de ler, quando se passa do pensamento para o papel, alguma coisa sempre se perde. Durante alguns momentos de crise na escrita, eu disse: ”Maldita a hora em que eu fui escolher escrever sobre este velho!” E aí me lembrava de Guimarães Rosa e dizia: ”Este velho vai-me envelhecer. Este velho vai-me fazer mal. Eu vou sair desse livro mais velho do que sou!” O que aconteceu até foi pequeno. Não quebrei o fémur, mas quebrei a fíbula, antigo perônio, mudou de nome.” (foi mantida a grafia do original português).
Da matéria consta ainda a opinião de Manya Millen, editora do suplemento Prosa & Verso de O Globo, com a qual concordo inteiramente. Diz ela que Chico vem melhorando e que já não se pode ignorá-lo no meio literário: “Não se tem que gostar ‘a priori’ porque é Chico Buarque, mas também não se tem que detestar ‘a priori’ porque é Chico Buarque. A cada livro, ele prova que escreve, escreve bem, tem um domínio da linguagem muito bom. Pode não ser uma obra-prima. Pode ser que o próximo romance dele seja muito melhor que todos, pode. Pode ser muito pior, pode. Mas ele escreve. É isso, Chico Buarque escreve.”
O jornal tem um site, ou sítio como preferem os lusitanos, que vale a pena conhecer, com muitas e ótimas matérias sobre literatura, música, teatro, cinema, artes e vídeos, e no qual a entrevista de Chico poderá ser lida na íntegra: http://www.ipsilon.pt/.
“Das que li ultimamente, pareceu-me a melhor entrevista de todas.” Me desculpe, Professor, mas penso que qualquer coisa que o senhor tenha feito nas férias (ainda mais numa “viagem dos sonhos” de muita gente, como essa) seja melhor, mais agradável do que qualquer outra do dia a dia.
Isabel Coutinho pode ser realmente boa no seu ofício, como são (quase?) todos que trabalham no que gostam, mas o sabor da viagem d’além mar deve ter sua “parcela de culpa” no alto apreço que lhe foi atribuído.
Mas o que eu gostei mesmo de saber foi que o próprio, o grande Chico Buarque, leu os clássicos brasileiros da mesma forma que eu: como tarefa escolar. Abençoados sejam os professores de “antigamente”… O que será que os atuais professores pedem aos seus alunos que leiam? – Espero que estejam pedindo alguma coisa e que os estudantes realmente leiam, de capa a capa, e não apenas os resumos que encontramos na internet (porque se os resumos existem, e como existem, deve ter público pra isto…)
Chico Buarque cantor não faz uma obra importante há tanto tempo quanto a MPB não registra avanços. Talvez seja a falta de um regime militar (frise-se aqui que não sou fã de gorilas vestidos de democratas, mas apenas comento que a liberdade fez mal à criação).
A minha geração foi massacrada pela ditadura militar, as que se sucederam, com as exceções de sempre, alienaram-se da política para só pensarem no sucesso pessoal e material. Ninguém mais do que eu odeia regimes autoritários, de qualquer ideologia ou matiz, mas tenho que concordar com sua constatação óbvia e irretorquível: naqueles tempos bicudos e de pouca ou nenhuma liberdade a criatividade da MPB, e do Chico em especial, era bem maior. O Chico compositor tem uma obra já definitiva e extraordinária, mas ultimamente sua qualidade declinou. Penso as vezes se a sua derivação para a literatura não seria uma das causas disso. A conferir.
Não gosto do Alvaro Pereira Junior, mas essa coluna de 1998 eu assino embaixo e retrata tudo o que eu coloquei no curto post acima.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq06119836.htm
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm29039916.htm
Na realidade acho que esrever é uma arte como tantas outras e se julgar arte é algo que não considero lícito. Para tudo há platéia. Assim não fosse não estariam as editoras soltando livros e mais livros como vemos nas livrarias e boa parte com grande número de leitores. Considero que quem escreve o faz com a alma, o coração e por que não com o objetivo de conseguir atingir um alvo.
Lógico que as livrarias andam cheias de livros hoje muito em moda, ditos de auto ajuda, mas a procura que têm é inacreditável. Basta se escolher um título sugestivo e abordar um tema mais ou menos em voga e saem à vontade. Leitura de clássicos é pra quem gosta do gênero.Tem coisas lindas e boas. Mas também muita coisa difícil de engolir.
De qualquer forma só queria comentar que acho difícil se julgar escritos e outras artes. Cada criação pode ser boa ou não, dependendo de quem a vê. As vezes até dependendo do momento de vivência. Acabo de ler Leite Derramado e pra mim foi uma leitura de fácil digestão, mas que não me encantou nem desencantou (consegui ler até o final!).
Tem músicas do Chico que tocam fundo e marcaram muito e outras que passaram em seu tempo. Aliás, mais ou menos como tudo na área das artes. Arte, no meu humilde conceito, é pra ser admirada e consagrada, ou odiada ou ainda nem ser notada.
AMIGOS “BLOGUEIROS”!
ALGUÉM JÁ LEU O LIVRO: ” A CURA DE SHOPENHAUER”
É DO MESMO AUTOR DO LIVRO “QUANDO NIETZSCCHE CHOROU”.
O AUTOR :IRVIND D.YALON
MUITO BOM …..
MISTO DE PSICANÁLIZE COM AS PERDAS NOSSAS E AINDA O AUTOR É UMA BELEZA DE ORIENTADOR FILOSÓFICO
VIRGÍNIA