Preamar

 

 

Post coitum omne animal triste, nisi gallus qui cantat.

 

 

                        Parece um sonho.

                        Ela ali, deitada ao seu lado, linda e sorridente, olhando fixamente para ele, com ternura e paixão.

                        O anseio é tanto, que teme quebrar o encanto breve. Mais de uma vez recolhe o gesto esboçado para continuar a contemplá-la, esparramada no lençol de cetim, nua e lânguida.

                        Até que não mais resiste, estica o braço e toca a carne palpitante e quente, numa carícia trêmula.

                        O corpo agora é um mar que se crispa e o engolfa numa onda vertiginosa, que cresce, cresce, cresce, até se quebrar espumosa e mansamente despejá-lo na praia úmida.

                        Ao longe, os sons da casa lentamente ressoam, o ruído dos derradeiros pingos da chuva que caem do telhado na folhagem do quintal, pouco a pouco se distinguindo do relógio que lateja na sala.

                        O súbito vazio, absoluto e oco como uma lata velha, aberta dos dois lados, transpassada pelo vento.

                        Por que assim?

                        Em que baía, em que ilha, o desejo naufragado se acoitou?

                        De costas para ela, acende o cigarro e se deixa ficar, desterrado e indolente, acompanhando o bailado da fumaça no ar.

                        Lá fora o galo cantou, para o dia que nascia.

 

 

2 comentários

  1. Lilian
    05/08/09 at 21:53

    Só não gostei dos sons da casa atrapalhando o sonho… Deu pra acordar mesmo!
    Existem os que sonham mas também existem os que não dormem. Veja como se expressou, certa vez, Fernando Pessoa:
    “Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
    E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela,
    Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
    E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
    Amar é pensar.
    E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
    Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
    Tenho uma grande distracção animada.
    Quando desejo encontrá-la
    Quase que prefiro não a encontrar,
    Para não ter que a deixar depois.
    Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só
    Pensar nela.
    Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.”
    (FERNANDO PESSOA – 10-7-1930)

  2. sonia kahawach
    06/08/09 at 9:44

    Lindo sonho… Por essas é que sentimos nosso coração existente e no batente, não?

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