Minha vida de menina

 

                        Sou pai de três meninas, que já são mulheres, maravilhosas mulheres, cada uma a seu jeito.

                        Quando ainda eram meninas, e eu um jovem pai afoito, perturbava-me imaginar como reagiria quando elas se tornassem mulheres, começassem a namorar, a se apaixonar, a sofrer as próprias dores, a mergulhar, enfim, na vida, sem que eu pudesse ajudá-las ou protegê-las.

                        Sem me dar conta, intuitivamente, impelido pelo amor de pai e pelo simples desejo de que elas pudessem ser felizes, e que eu não as atrapalhasse muito, penetrei surdamente no universo feminino, como o poeta, no reino das palavras.

                        Não sei qual dos dois mundos é mais fascinante, mágico e encantador: o feminino ou o das palavras.

                        Com cada uma das três descobri e aprendi coisas diferentes, cada uma delas me enlevou e levou a ver o que não via, a sentir o que não sabia, a conhecer o que me fugia.

                        Elas me fizeram um homem muito melhor do que era e poderia ser.

                        Eu é que fui e venho sendo ensinado, em vez de ensiná-las. No dia dos pais, sou eu que devo homenageá-las, e não elas a mim.

                        Esse fluxo de emoção me assalta depois de ter lido o artigo de Contardo Calligaris, Entre pai e filha, no caderno Ilustrada (E12), da edição da Folha de S. Paulo de quinta-feira (6/8/2009), em que ele comenta o filme À Deriva, de Heitor Dhalia, que “(…) conta de maneira perfeita (peso minhas palavras) o processo delicado e comovente pelo qual uma menina se torna mulher”.

                        Ainda não assisti ao filme (o que não deixarei de fazer), nem cabe reproduzir aqui o artigo de Contardo  (cuja leitura recomendo, com todo o entusiasmo). Mas não posso me furtar de transcrever dois trechos que me pareceram luminares e que servirão ao menos para despertar a vontade de ler o texto integral e assistir ao filme:

 

                        “Se Freud assistisse a “À Deriva”, ele dedicaria ao filme um texto magistral, não sem reafirmar, mais uma vez, que encontramos mais saber na ficção da arte do que nos esforços, sempre grosseiros, de expor nosso entendimento.”.

                        “Qual é o desfecho dessa história que se repete a cada dia? O fim do filme comoverá qualquer pai de menina, e seria sacanagem com o espectador contar as últimas cenas. Digamos assim: quando a história acaba bem, o que sobra é a sensação de um amparo paterno, de um lugar de ternura e amor para o qual é possível voltar para se lavar das eventuais asperezas e sujeiras do desejo, mas um lugar que não infantiliza porque o pai continua enxergando e admirando a mulher que a menina se tornou.”

 

 

6 comentários

  1. maria virgínia
    08/08/09 at 10:37

    Caro Gama,
    Não tive a felicidade de ter uma filha!
    Sou mãe de 2 “varões”.
    Sinto muita falta do carinho de filha, pois convenhamos, “varões” não são lá muito carinhosos!
    E por força do destino sou vó de mais um homem………..
    Felizardo vc!!

    Que conseguiu captar a essência de cada uma de suas maravilhosas filhas.
    Feliz , MAS FELIZ MESMO DIA DOS PAIS

    VIRGÍNIA

  2. Lilian
    08/08/09 at 12:41

    Um “estranho” no paraíso (ou mundo das mulheres)! Só alguém maravilhosamente especial para aproveitar tão bem a oportunidade de ser pai de três meninas… “Infiltrou-se” no universo feminino para conviver melhor com elas, podendo amá-las “melhor”! Parabéns! Pelo dia dos Pais, dos Seres Humanos, dos Heróis!
    Comigo aconteceu o contrário; não tenho filhos (o que já se poderia prever pela minha admiração, quase veneração, à celebre frase de Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”)
    Escolhi um outro caminho: tornei-me “pai” dos meus pais (alguém teria que assumir a função da minha avó materna, que sempre ajudou, protegeu, os meus pais). Não quis ser “mãe” deles porque admirava muito mais o “papel” de pai. Embora as mães tenham maior constância no universo dos filhos, a figura do Pai me impressiona bem mais… Diferentemente das mães, das quais necessitamos de uma forte presença física para nos sentirmos amados e seguros, a força de um pai é tanta que já nos sentimos amparados só pelo fato de tê-los.
    Parabéns Dr.Gama; parabéns ao meu amado Pai e a todos os outros que não se deixaram entranhar, quaisquer que sejam os motivos, pela frase de “Brás Cubas”…

  3. Júlia
    08/08/09 at 19:34

    É pai esse universo feminino é bem complicado. Você sabe o quanto eu ainda me perco nele. Espero que as experiências das meninas e quem sabe a sua visão do universo masculino me ajudem.
    Parabéns (adiantado)pelo seu dia.
    Te Amo.
    Beijos. Júlia

  4. bellgama
    10/08/09 at 10:41

    Papilly,
    O nosso domingo foi uma delícia. Como sempre é.
    Ter você como o homem das nossas vidas também é um honra.
    Sem dúvida, como reafirmamos no dia dos pais: “você é o melhor pai do mundo”.
    Ti doro pra sempre!
    beijos da sua menina,
    Bell

  5. carol
    10/08/09 at 13:00

    Pai, vc já sabe que me emocionei muito com seu texto…então agora é só para registrar. Não existe pai melhor e não existirá avô melhor…beijo, Carol

  6. sonia kahawach
    10/08/09 at 17:27

    Único varão reinando em um palácio composto pelas grandes mulheres de sua vida. Melhor que isso? Não tem.
    Não só por ser único, mas pelas homenagens e palavras que recebe de suas meninas. Receber o reconhecimento das filhas é algo que tem de ser guardado como um grande tesouro. E, lógico, v. deve ter feito por merecer isto. Parabéns como pai e elogios pelas filhas que tem.

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