Posts from agosto, 2009

Sabores inusitados

 

 

                        Modesto apreciador de vinho, ainda engatinho nos seus mistérios, sempre amparado pela mão segura do meu amigo Roberto Rockmann, ele, sim, um expert.

                        Apesar do meu noviciado e do pouco talento olfativo (em que pese o nome, sou incapaz de discernir toda a gama de aromas preconizados), acontece-me com o vinho o mesmo que com a música. Embora tenha tipos preferidos de um e de outra, o sabor de ambos tem muito a ver com o momento e o estado de espírito.

                        É claro que há vinhos e músicas que sempre nos fazem bem, ou  intragáveis em qualquer circunstância, mas às vezes somos surpreendidos e nos sentimos inebriados com um espécimen inopinado, e nisso está toda a graça da coisa.

                        Com filmes isso também pode acontecer (não consigo deixar de assistir, quantas vezes passem na TV, e mesmo já indo adiantados, A Primeira Página, Quero ser grande, Meu Querido Presidente, De volta para futuro, ET e alguns outros filmes do gênero, que são para mim um refrigério), mas com livros o fenômeno não ocorre, pois sua leitura sempre se estende no tempo e, se não me afeiçoa a obra, o momento passa, o estado de espírito volta ao normal, e acabo por abandoná-la para avançar em outra, mais apetitosa.

                        Na minha recente viagem, fartei-me de bons vinhos, mas o instante mágico e inesperado ocorreu numa pequena garrafeira, denominada Alfaia, no Bairro Alto, em Lisboa. Sentado num modesto banquinho à porta do estabelecimento, e com dois outros servindo de mesinha, passei algumas horas de raro encantamento e prazer, comendo petiscos locais, como presunto cru e azeitonas, e bebericando um vinho branco (embora prefira os tintos), que caía maravilhosamente, como a tarde que se alongava enquanto a noite preguiçosa tardava. O nome do vinho (que anotei, para que mestre Rockmman talvez me diga alguma coisa) é Erva Pata, safra de 2005, da Agrícola Ribeiro Correa, região da Estremadura.

                        Assim também com alguns gêneros musicais pelos quais não tenho especial predileção, mas que em determinados lugares e momentos tornam-se um deleite.

                        Ainda agora, enquanto trabalho na minha estreita toca em casa, ouvindo música pela internet, como costumo fazer, eis que começa a tocar Beijo Roubado, de Adelino Moreira, numa interpretação deliciosamente kitsch de Ângela Maria, com suspiros e protestos débeis, negando-se ao beijo que lhe foi roubado (mas que afinal tem mais sabor). Aliás, Adelino Moreira tem uma obra musical vastíssima, grande parte dela gravada por Nelson Gonçalves, que mereceria um estudo sem preconceito, assim como as inúmeras composições da dupla Evaldo Gouveia e Jair Amorin, entre as quais a não menos deliciosa Brigas, que tem uma gravação antológica de Altemar Dutra e Cauby Peixoto, cantando juntos.

                        Nem mais me lembrava do Beijo Roubado, que tocava muito em serviços de alto-falante, parquinhos, quermesses e outros locais ou zonas menos familiares de antanho, para onde fui transportado tão logo comecei a ouvir a melodia.

                        De volta para o presente, suspendi temporariamente o trabalho para rabiscar estas baboseiras, pelas quais espero ser perdoado, como o ladrão de beijos.