O grande nome da literatura portuguesa hoje é um lobo, não de estepe, mas profundamente fincado no chão pátrio e incomodado pelas dores e mazelas da história lusitana.
Psiquiatra, António Lobo Antunes foi destacado para Angola, a serviço do Exército português, que combatia a guerrilha de libertação da colônia, liderada pelo MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), durante a fase final da Guerra Colonial portuguesa, experiência que o marcou tão profundamente que lhe serve de tema em vários de seus livros, a partir de Memória de Elefante, após o qual nunca mais exerceu a Medicina.
O primeiro livro dele que li ― impelido pelo título singular e instigante ― foi Os Cus de Judas, que muito me impressionou pela reflexão crítica sobre o imobilismo português, fruto de uma renitente fantasia sebastianista e de um imperialismo nostálgico. Confesso que até então, aqui de longe, o sebastianismo me empolgava como o mito ou a utopia de um povo extraordinário, a sonhar com as glórias saudosas de sua história.
Além dessa reflexão inquietante, o livro nos enreda, poeticamente, no desejo do narrador pela mulher que ele intenta seduzir. Apaixonado pelo Brasil, e grande admirador de Machado de Assis, Lobo Antunes refere-se ao nosso país em duas ocasiões: uma em Angola, quando fazendeiros importam prostitutas brasileiras, e a outra em Lisboa, quando, após regressar da guerra, só e sem a mulher amada, o personagem ouve um cassete de Maria Bethânia
Nos tempos de estudante, Lobo Antunes combateu a ditadura salazarista, e o romance, em muitos momentos, retrata uma traição a si mesmo, ou seja, do estudante idealista que se formou médico e acabou por servir ao regime que abominava, daí a referência a Judas, o protótipo do traidor.
Além de Os Cus de Judas, já li Memória de Elefante, Conhecimento do Inferno, e estou lendo As Naus, numa edição que comprei em Lisboa.
O estilo de Lobo Antunes não é dos mais fáceis. Numa narrativa não-linear e fragmentada, de longos parágrafos, utiliza-se do fluxo de consciência e da associação de idéias, para construir a história e o perfil de seu narrador/protagonista, explorando a condição arbitrária ou absurda da existência humana, na esteira de Kafka e Camus.
O que se diz em Portugal é que, enquanto Lobo Antunes permanece obsessivamente local e vai se tornando uma consciência nacional, o consagrado Saramago descambou para parábolas anódinas, que se passam em lugares imaginários. Ambos têm adeptos ferrenhos, e os de Lobo Antunes, que parecem ser majoritários, afirmam que o Nobel foi ganho pelo homem errado.
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Já li Saramago (O Evangelho segundo Jesus Cristo), mas esse Lobo, não. Preciso ler, pelo visto. Mas se ele critica o “imobilismo português”, o que diria da, no mínimo, “indolência brasileira”? Esse Lobo precisava vir pra cá, para saber (reconhecendo em si mesmo) o que é amar o seu país. Doutor Gama, sempre fui apaixonada por Portugal, e agora com isto tudo o que o senhor conta, já estou querendo até me mudar pra lá… (gosto especialmente da “fantasia sebastianista” e do “imperialismo nostálgico”. E dos fados!)