Foi numa sexta-feira, e ele jamais esquecerá a sensação de alívio e de liberdade que sentiu, depois de tanto padecimento no silêncio e na solidão.
Chegou em casa por volta das 19h15min, atrasado para a pelada semanal, que começava impreterivelmente às 19h30min. Quem chegava depois de formados os times, tinha de esperar a segunda partida, mas era a primeira, em que todos ainda estavam com fôlego e com a bola toda, que realmente valia para os comentários e gozações de depois, que se estendiam até a próxima refrega. Quem não participava da primeira partida, ficava à margem, como um reles jogador do banco de reserva ou da segunda divisão, para o qual ninguém dá bola.
Arrumava freneticamente seu material na bolsa quando verificou que o seu tênis de futebol-soçaite não estava no lugar de costume.
A empregada já tinha ido embora e a mulher saíra com as amigas para comemorar o aniversário de uma delas numa pizzaria. Voltaria tarde.
Vasculhou sem sucesso toda a casa, até o quintal onde costumava deixar o tênis para tomar sol.
Já em estado de desespero, uma última réstia de esperança tremeluziu ao se lembrar do armário, utilizado como despensa, num pequeno cômodo anexo à cozinha, em que a empregada já havia deixado algumas vezes o precioso tênis, em vez de guardá-lo na sapateira do quarto, sendo repreendida por isso.
Profundamente irritado e praguejando, ao invadir o armário em busca do tênis acabou, na afobação, por bater a porta, cuja maçaneta que se achava defeituosa há algum tempo, soltou-se e caiu, uma parte para dentro e outra para o lado de fora, na cozinha.
A princípio, sem se importar com isso, revirou as prateleiras, vasculhou por baixo delas e pelo chão do exíguo cômodo em busca do seu graal ludopédico, que também não se encontrava ali.
Cada vez mais furioso, tentou sair do armário e então se deu conta de que estava preso.
Com a parte da maçaneta que havia caído do lado de dentro era impossível abrir a porta. Pelejou por longo tempo (pensando que enquanto isso os amigos se empenhavam em outra peleja, na qual queria estar), tentou diversas manobras, com os dedos, com utensílios que encontrou no armário. Tudo em vão!
Só lhe restou aguardar no pequeno vão do armário a volta da mulher festeira.
O tempo não passava, cada segundo era uma eternidade, o que o fez acreditar que afinal compreendia o significado da Teoria da Relatividade de Einstein.
Para se entreter, leu rótulos, comeu bolachinhas e batatinhas, e até tomou uns tragos de um garrafão de pinga armazenado no armário, chegando a cogitar em se embebedar de uma vez.
Sofreu crises intermitentes de claustrofobia, de vontade de urinar, de enjôo pelos muitos cheiros do armário, petiscos comidos e cachaça ingerida. Tentou a meditação transcendental, mas sua mente era logo assaltada por imagens futebolísticas.
Passava da meia-noite quando ouviu ruídos na casa indicando o regresso da mulher, que ainda demorou uns bons minutos até chegar à cozinha, intrigada e temerosa com os seus gritos e murros desferidos na porta do armário.
Só então, e finalmente, conseguiu sair do armário.
Para sempre!
boa crônica.
Muito bom!
Mas cá entre nós, gostei do “graal ludopédico”.
Amigo, nunca tinha ouvido um tênis ser chamado tão luxuosamente.
Geralmente se diz que “saiu do armário” pensando-se em outras formas de se assumir. Aqui nada a ver, não é?
Beijos
Como assim, “para sempre”??? rsrs
Não quer mais saber da mulher, do futebol, de nada?
Tadinho…
Mas acho, no mínimo, engraçado, esse “apego” (?) que os homens têm com o futebol. No dia em que as mulheres resolverem fazer o mesmo (sei lá com o que, talvez com um “clube de leitura”…) provavelmente nossa sociedade (pelo menos da forma como a concebemos atualmente) se desintegrará…
Realmente, a força de integração familiar está com as mulheres. Para os homens sobra o futebol e os armários, de onde podem, ou não, saírem.
Falando em futebol, o meu São Paulo foi muito bem ontem! Os preconceituosos malvados tiveram que engolir um gol do Richarlyson!
Muito bom..adorei, e ainda melhor com o título…se não tinha a ver, pq não na primeira pessoa, acho que ia ficar mesmo mais engraçado, até pq me lembrei do Gama dos velhos tempos, se vestindo para jogar e as trapalhadas ainda são as mesmas…beijo, Carol
Papilly, gostei muito. A descrição dos odores, dos objetos do armário é perfeita. Ao ler o texto, me senti claustrofobicamente dentro deles. Pensei quantas quinquilharias estão no meu armário e que me seguem a vida inteira. Amei! Saudade, ti doro. beijos