Posts from agosto, 2009

Chico derramado

 

 

 

                        Caiu-me às mãos em Lisboa uma excelente publicação, em formato de tablóide, intitulada Ípsilon, que na edição de 17 de julho de 2009 trazia uma longa entrevista, feita por Isabel Coutinho, em que Chico Buarque fala sobre o seu último livro e sua condição de escritor.

                        Das que li ultimamente, pareceu-me a melhor entrevista de todas. A jornalista sabe perguntar e escrever (coisa cada vez mais rara no Brasil), e Chico está bem à vontade, revelando coisas divertidas e interessantes.

                        Duas delas: sobre a influência de Machado de Assis, Chico não a recusa, especialmente porque o livro (Leite Derramado) “passa pelo tempo de Machado de Assis”. Mas afirma também, para meu espanto, que não é conhecedor da obra de Machado, que só leu aos 15, 16 anos: “Então estudei, li Machado de Assis, como li Eça de Queiroz na escola. Eu li “Dom Casmurro”, “O Alienista”. Não li “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (risos) e têm citado muito ele”.

                        A outra curiosidade foi o medo de não conseguir se libertar do velho Eulálio, o personagem e narrador do livro. Conta Chico que Guimarães Rosa, no meio da escrita do romance A Fazedora de Velas foi tomado pela tristeza do livro e o guardou numa gaveta. “Mas a personagem ficou rodando na sua cabeça e meses depois Guimarães Rosa ficou doente com uma doença que imitava, ponto por ponto, a do narrador do seu livro. Lembrei disso antes de escrever “Leite Derramado”. Achei que não deveria tomar esse velho como narrador. Pensei: “Me vai fazer mal”. Isso me perseguiu o tempo todo. Escrever é sofrido. Quando alguma coisa sai com facilidade, eu desconfio. Eu escrevo pelo prazer de ler, quando se passa do pensamento para o papel, alguma coisa sempre se perde. Durante alguns momentos de crise na escrita, eu disse: ”Maldita a hora em que eu fui escolher escrever sobre este velho!”  E aí me lembrava de Guimarães Rosa e dizia: ”Este velho vai-me envelhecer. Este velho vai-me fazer mal. Eu vou sair desse livro mais velho do que sou!”  O que aconteceu até foi pequeno. Não quebrei o fémur, mas quebrei a fíbula, antigo perônio, mudou de nome.” (foi mantida a grafia do original português).

                        Da matéria consta ainda a opinião de Manya Millen, editora do suplemento Prosa & Verso de O Globo, com a qual concordo inteiramente. Diz ela que Chico vem melhorando e que já  não se pode ignorá-lo no meio literário: “Não se tem que gostar ‘a priori’ porque é Chico Buarque, mas também não se tem que detestar ‘a priori’ porque é Chico Buarque. A cada livro, ele prova que escreve, escreve bem, tem um domínio da linguagem muito bom. Pode não ser uma obra-prima. Pode ser que o próximo romance dele seja muito melhor que todos, pode. Pode ser muito pior, pode. Mas ele escreve. É isso, Chico Buarque escreve.”

                        O jornal tem um site, ou sítio como preferem os lusitanos, que vale a pena conhecer, com muitas e ótimas matérias sobre literatura, música, teatro, cinema, artes e vídeos, e no qual a entrevista de Chico poderá ser lida na íntegra: http://www.ipsilon.pt/.

 

 

Briguei com o blog

 

                        Durante a viagem a Lisboa e Paris, ao contrário do que supunha, escrevi quase diariamente neste blog. Além do estímulo de tudo o que via, acontecia e sentia, os momentos que passava diante do computador, escrevinhando (e em luta feroz com o teclado francês) mantinham-me em conexão com o Brasil e com os amigos daqui, quase como se estivéssemos todos juntos, sentados à mesa de um café lisboeta ou parisiense, conversando animadamente. 

                        De modo estranho e surpreendente, ao retornar vi-me tomado de sentimento oposto, um bloqueio ou uma necessidade de me manter afastado do blog, como a dar um tempo para encerrar um capítulo e abrir outro. Não se tratou de uma atitude premeditada, sequer consciente. Muito pelo contrário, só agora começo a racionalizar e tentar compreender o que se passou.

                        Essa minha reação talvez esteja na mesma linha de outra, mais comum, que sempre me acomete, e possivelmente a muitas outras pessoas que retornam de um período de férias.

                        Passo os primeiros dias após o regresso um tanto fora do ar, sem conseguir retomar a rotina (ou resistindo a retomá-la). Um centauro, em que uma parte quer prosseguir simplesmente fruindo a vida, enquanto a outra metade o arrasta para as obrigações e os compromissos que ficaram suspensos. Só não sei definir qual dessas metades é a humana, e qual, a equina.

                        De todo modo, com este post espero que o homem e a besta (que muito mais sou) estejam finamente de volta.