Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor,
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
(Fernando Pessoa, Poesias de Álvaro de Campos)
Somos seres finitos, que aspiramos à infinitude, para nós mesmos e para o que fazemos de nós.
Embora tenhamos os braços longos para os adeuses, como disse o querido poetinha Vinicius de Moraes num de seus mais belos poemas, creio que não fomos feitos para o adeuses (ou nunca estamos preparados para eles), ainda que a vida seja uma sucessão de adeuses, menores e maiores, provisórios ou definitivos.
Por isso, o rompimento de uma relação amorosa, se ela realmente valeu, nunca é simples, nem indolor.
Não importa como se dê o a ruptura. Em concerto ou desacerto, em silêncio ou ruidosamente, pouco a pouco ou de repente. Sempre haverá abalo e cicatrizes.
A francesa Sophie Calle, ao receber uma carta de rompimento que lhe foi mandada (por e-mail) pelo escritor Grégoire Bouillier, cuja frase final era Cuide de você (Prenez soin de vous), convocou mais de uma centena mulheres, das mais variadas profissões, para que analisassem a carta. Ela própria explica:
“Recebi uma carta de rompimento.
E não soube respondê-la.
Era como se ela não me fosse destinada.
Ela terminava com as seguintes palavras “Cuide de você”.
Levei essa recomendação ao pé da letra.
Convidei 107 mulheres, escolhidas de acordo com a profissão,
para interpretar a carta do ponto de vista profissional.
Analisá-la, comentá-la, dançá-la, cantá-la. Esgotá-la.
Entendê-la em meu lugar. Responder por mim.
Era uma maneira de ganhar tempo antes de romper.
Uma maneira de cuidar de mim.”
Disso resultou uma exposição, que reúne versões da carta comentadas por 40 das mulheres participantes e textos produzidos por elas; documentos, com traduções da carta em braile, código Morse, estenografia, código de barras e outras linguagens gráficas; retratos de 40 cantoras e atrizes; filmes curtos e longos que registram interpretações e perfomances da carta.
A exposição ou instalação encontra-se em São Paulo, no Sesc Pompeia, desde 10 de julho e somente até amanhã, 7 de setembro, como parte das comemorações do Ano da França no Brasil.
Sem ter formação em nenhum campo específico, Sophie Calle escolheu a arte, confessadamente, “para seduzir” o pai, um médico colecionador de arte. Desde os anos 1970 passou a fazer instalações e perfomances no mínimo extravagantes, como escolher ao acaso 28 pessoas para dormir turnos consecutivos de oito horas em sua cama (dela), enquanto assistia e fotografava seus hóspedes; pedir à mãe que contratasse um detetive particular para segui-la por um dia, sem avisá-la sobre quando isso ocorreria, para depois agregar as fotografias, relatórios e anotações feitos por ela própria e pelo detetive; empregar-se como camareira num hotel de luxo em Veneza, fotografar os quartos, os pertences dos hóspedes, as marcas e os lixos que produzem, por meio do que tenta imaginar e descrever quem são aquelas pessoas; instalar uma cama no último andar da Torre Eiffel e passar lá, em claro, a noite da primeira virada cultural parisiense, pedindo aos visitantes que a ajudem a se manter acordada, contando-lhe histórias; filmar durante onze minutos a mãe agonizante, depois de ouvir dizer que os doentes costumam morrer justamente nos intervalos em que seus familiares se afastam (essa macabra e mórbida experiência já fora empreendida muito antes, em 1947, pelo artista plástico brasileiro Flávio de Carvalho, que retratou a agonia da mãe, passo a passo, numa sequência de desenhos denominada Série Trágica ).
O escritor Paul Auster, um dos grandes nomes atuais da literatura norte-americana, criou uma personagem inspirada em Sophie, e para ela imaginou experiências não menos excêntricas: manter em Nova York uma cabine telefônica customizada, com água, cigarros e flores; ou comer apenas alimentos de determinadas cores em dias específicos, como, por exemplo, só ingerir às terças-feiras carnes, frutas e legumes vermelhos, acompanhados de vinho tinto. Parece-me haver certa ironia na criação de Paul Auster, a começar pelo nome, Maria Turner (o verbo tourner, em francês, significa girar, virar, rodar, revolver, revirar), mas Sophie não passou recibo, e tratou de repetir as experiências da personagem de Auster.
Se tudo isso é arte, cada um que o diga, segundo seus critérios e sentimentos. Mas não me furto de algumas considerações.
O que me ressalta nos trabalhos ou propostas de Sophie Calle é o toque de exibicionismo, voyeurismo e invasão de privacidade que demarcam nossa sociedade de espetáculo. Isso tanto pode ser tomado como reprovação, quanto elogio pela coragem e audácia de refletir (no sentido de representar e pensar sobre) nossos tempos, valores e angústias, o que é um dos aspectos da arte.
Por outro lado, o simples fato de estar eu aqui a falar sobre os trabalhos de Sophie revela que eles de algum modo mexem comigo, me incomodam, remexem meu mundo interior, o que também é uma das características da arte.
O texto da carta de rompimento, que li em francês, tateantemente, me pareceu delicado e respeitoso. O missivista fala sobretudo de si mesmo, do momento que atravessa, do amor que sente por Sophie, da incapacidade de lhe ser fiel, como ela lhe impunha, o que o leva a não seguir com a relação amorosa. Ele é que se acha exposto na carta, e não Sophie. A própria frase final, que dá título à exposição, soa a mim como uma preocupação carinhosa, embora admita a possibilidade de outras interpretações.
Parece que Sophie quis lhe demonstrar que a recomendação era ociosa, e que ela sabe se cuidar muito bem.
Sophie Calle
PS: Houve um debate (ou embate?) do ex-casal na programação da última Festa Literária de Paraty, o que também me provoca estranhamento e reforça as considerações que fiz acima.