Em um dos seus contos mais conhecidos e reverenciados, Machado de Assis dá a palavra a um padre velho, que narra uma aventura extraordinária que lhe aconteceu quando era capelão de São Francisco de Paula.
Uma noite, ao se recolher mais tarde do que de costume, intrigado com uma estranha luz que lobrigou por baixo das portas bem fechadas do templo, acabou por surpreender os santos descidos de seus nichos e sentados nos altares, com a dimensão não das próprias imagens, mas sim de homens, conversando entre si: “Era assim, segundo o temperamento de cada um, que eles iam narrando e comentando. Tinham já contado casos de fé sincera e castiça, outros de indiferença, dissimulação e versatilidade; os dois ascetas estavam a mais e mais anojados, mas São Francisco de Sales recordava-lhes o texto da Escritura: muitos são os chamados e poucos os escolhidos, significando assim que nem todos os que ali iam à igreja levavam o coração puro. São João abanava a cabeça.”
A mim me aconteceu neste fim de semana que passei em São Paulo algo semelhante ao velho vigário, mas que ao contrário dele não me surpreendeu, antes confirmou um juízo que há muito tenho: o de que os livros, como os santos machadianos, quando não há ninguém por perto, vagueiam pelas estantes, conversam entre si, têm afetos e desafetos, mantêm conversações amistosas e ásperas discussões, escondem-se quando não estão dispostos a ser lidos ou não gostam do leitor.
Sábado de manhã, estava eu na nova Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, a procurar um pequeno livrinho — Tudo e Nada, do argentino Macedonio Fernández — que pretendia presentear ao meu amigo Roberto Rockmann, cujo blog tem o mesmo título.
O livro, com o subtítulo de Pequena antologia dos papéis de um recém-chegado, reúne anotações, textos e reflexões de Macedonio, o qual, embora difícil de ser definido, costuma ser classificado como poeta, metafísico e humorista, escreveu sobre os mais variados assuntos, e foi proclamado por Jorge Luis Borges um de seus doze apóstolos.
Editado no Brasil pela Imago, o livrinho não se acha esgotado, mas é difícil encontrá-lo disponível nas livrarias, sendo necessário encomendá-lo. Como iríamos jantar com o Rockmann e a sua (nossa) querida Adriana (Tuka para os mais íntimos, apelido carinhoso que lhe deu o pai quando ainda pequenina), queria levar-lhe o livro, e fiquei muito satisfeito quando o atendente, após consultar o oráculo dos nossos tempos, conhecido como computador, me disse que tinha um único exemplar, recebido há poucos dias, e que ele estava ali mesmo, pertinho de nós, na estante que abriga os autores de literatura estrangeira, em ordem alfabética.
Ele e eu nos pusemos a procurar o livrinho na referida estante, e não o encontrando no local em que deveria estar, continuamos a remexer as prateleiras (já que poderia ter sido deslocado por algum incauto), buscando até mesmo atrás das fileiras da frente.
Diante do nosso insucesso — e depois de novamente consultar o oráculo que lhe confirmou a existência do livrinho —, o gentil e simpático atendente chamou dois companheiros para nos ajudar na procura. Um deles teve a ideia de verificar entre os autores brasileiros, já que o nome de Macedonio poderia ter sido confundido pelo encarregado de colocar o livro entre seus pares. Nosso outro auxiliar, que era uma moça, desenvolvendo o mesmo raciocínio, tratou de procurar o livro entre os autores latino-americanos, que ficavam em outra estante.
Tudo em vão!
Já se passara quase uma hora quando me ocorreu o óbvio, que deveria ter imaginado desde logo.
Indaguei do trio onde estavam os livros de Borges, que não tinha visto nem entre os autores estrangeiros, nem entre os latino-americanos. Informaram-me, então, que se achavam numa estante à parte, com Adolfo Bioy Casares, Ernesto Sábato e outros autores mais conhecidos.
— Então o Macedonio está lá, perto do Borges, respondi-lhes eu.
Os três se entreolharam, e depois me olharam como se eu fosse meio maluco, mas o rapaz que havia me atendido de início, esboçando um sorriso condescendente, disse que ia verificar.
Pouco depois voltou com o sorriso aberto e uma cara de vitorioso, com o livrinho nas mãos:
— Incrível, o senhor tinha razão! Estava mesmo lá! (não gostei do senhor, mas o que se há de fazer…)
Falei-lhes brevemente, então, da minha teoria sobre a vida oculta dos livros, e os três deram boas risadas, talvez pensando que eu fosse um maluco completo.
Quando ficamos sós, o primeiro atendente me confidenciou que poucos dias atrás acontecera uma coisa estranha com um outro livro pretendido por um cliente, mas daquela feita não houve meio de achá-lo, embora constasse como existente no estoque.
No dia seguinte, mexendo na mesma estante que havia revirado em busca do livro sumido, este lhe caiu na cabeça, sem que soubesse de onde havia saído.
— É que o livro, por algum motivo, não simpatizou com aquele comprador. Já o Macedonio estava se reservando para que eu pudesse presenteá-lo ao meu amigo, afirmei-lhe eu, com ares de sapiência, assumindo definitivamente o papel de um bruxo, o que, aliás, está na moda e tem rendido bom dinheiro a muita gente ruim, fenômeno que talvez confirme os poderes de tais gurus.
Macedonio Fernández
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Você já tinha me contado pessoalmente essa história. Que bom que pode compartilhá-la no blog. Eu também acredito que os livros sempre estão reservados para alguém. O fim de semana foi mágico. Já com saudade, Bell
Muito bom ler v. logo cedo. Uma delícia seu relato de procura de um livro numa livraria. Há pouco tempo escrevi algo sobre livros, mas os meus livros e chamei-os de amigos e contei que quando os adquiro (nunca consigo comprar um só!), passo uns dias levando-os comigo pra onde vou (quarto, sala, cozinha, banheiro, terraço…) como se eu não pudesse me separar deles e tivesse trazido realmente amigos queridos.
E depois, na estante, sempre os olho com carinho e atenção, falo com eles e eles comigo. São gostosas “loucuras” que a gente acaba por ter.
E, com certeza, eles devem mesmo dialogar entre sí com toda a energia que exalam.
Sonia
Veja só que coisa boa. Graças à sua sugestão (que não tive coragem ou cara de pau de endossar publicamente), o pai do Rockmann, que também se chama Roberto Rockmann, sem que sequer nos conheçamos pessoalmente, teve o carinho e a gentileza de me gravar os CDs do Paulo Vanzolini da caixa “Acerto de Contas”, que está esgotada.
Valeu pela viagem a São Paulo, e por tê-la como minha querida amiga e leitora assídua. Meu muito obrigado a você, e ao Roberto Rockmann, pai.
Comigo acontece exatamente o contrário… eu literalmente me perco nas livrarias e, algumas vezes, até já saí delas sem qualquer livro que tivesse comprado. Claro que isto me frustra um pouco (estar no paraíso e não conseguir escolher nada, naquela profusão toda de maravilhas), o que me fez recorrer ao bendito “oráculo” que tenho em casa… Fico “namorando” os livros, cd’s, dvd’s, algum tempo, até que num momento sublime acabo comprando. Já me ocorreu escolher os livros na internet e comprar na livraria, mas quem há de resistir, quem suportaria esperar por algo já o tendo encontrado?
Caro Antônio-Carlos: – Você se excedeu, você se ultrapassou, ao lembrar-se de “Entre Santos”, de Machado de Assis, e da busca e conversa dos livros. Se os santos estão nos seus nichos, também estão os livros, nos nichos das prateleiras das bibliotecas e das livrarias. E conversam entre si, uns e outros, quando acham que ninguém os vê nem escuta. Por isso mesmo que uma igreja sem as imagens dos santos, um templo asséptico e cético, como uma livraria virtual, é inconcebível. Não posso admitir uma igreja assim, ou uma livraria virtual, sem o cochicho dos santos, ou sem o cochicho dos livros. Demais disso, é exato que os livros mudam de lugar, e nem sempre estão onde os colocamos. Por outro lado, um leitor que tenha sensibilidade, não coloca os livros por ordem de assuntos, ou em fileiras alfabéticas. Já imaginou colocar Montaigne ao lado de Nietsche, ou Machado de Assis encostado no Jorge Amado? Machado pede a companhia de Borges, ou Borges pede a companhia de Machado. Manuel Bandeira gosta de dialogar com Ribeiro Couto, de quem, aliás, foi amigo a vida inteira. E Lêdo Ivo se compraz em estar ao lado de Marques Rebelo, porque ambos, ferinos, gozavam-se reciprocamente. Há ainda, nas prateleiras, lá em cima, as solteironas pudicas, atrás das quais, maliciosamente, se podem deixar os autores eróticos, ou francamente pornográficos, como Henry Miller. E, de madrugada, ouvimos o barulho de um livro que despencou da prateleira: é uma solteirona, cuja bunda Henry Miller beliscou. É preciso então repreender Henry Miller, ainda que rindo, e botar a solteirona em lugar que ele não possa alcançá-la. O mais curioso em tudo isso é que há livros e autores que parecem incompatíveis, e não são. Por exemplo, tenho notado que o Seigneur Charles de Secondat de la Brède, baron de Montesquieu, se escreveu “L´Esprit des Lois”, escreveu também “Lettres Persanes”, gosta de estar de braços dados com a mulata Rizoleta, de “Marafa”, do mesmo Marques Rebelo. Ninguém ainda escreveu sobre os mistérios de uma autêntica livraria, o que seria matéria singular, com intrigas e mistérios insondáveis. Mas o que temos feito, você e eu, é procurar decifrá-los, o que leva a vida toda.
Primo e Tio,
Vida longa aos dois que nos brindam com textos e comentários impecáveis. Continuo, de longe, a aprender com ambos a decifrar
as entrelinhas da sensibilidade, amizade e amor não só à literatura
e às artes como também na relação profunda e amorosa entre pai e filho. Meu carinho e saudade. Beijos, Rosângela