Uma dupla de meliantes invadiu de madrugada a igreja São João Batista, no bairro da Gruta, da cidade de Orlândia, e furtou uma mesa de som, hóstias e seis garrafas do vinho utilizado nas missas.
Por meio de informações de vizinhos da igreja, a polícia identificou os larápios, que confessaram e disseram que o ato foi uma idiotice. A mesa de som foi recuperada, mas as hóstias e o vinho já haviam sido consumidos (Folha de S. Paulo, Caderno Ribeirão, C3, 25/9/2009).
Sobre esse furto, me assaltam algumas dúvidas.
Terá sido furto famélico?
Como os ladrões se arrependeram, ingeriram as hóstias e o vinho sagrados, com isso teriam comungado e recebido o perdão divino?
Em caso positivo, tendo em conta o perdão da vítima, estaria extinta a punibilidade?
O caso me remete a outro, anedótico, mas que me disseram ter acontecido de fato em Guaxupé, que na minha memória da infância é um misto da Recife e da Pasárgada de Bandeira, e da Macondo de García Márquez.
Um coroinha, acostumado com os hábitos frugais do velho pároco, servia-lhe durante as missas uma pequena porção de vinho no momento solene da consagração, e reservava a sobra para mais tarde, na sacristia, degustar com bolachinhas.
Adoentado e com a idade avançada, o vigário recebeu um auxiliar, padre jovem e vigoroso. Na missa, o coroinha quis lhe servir a mesma pequena dose de vinho, mas o celebrante jovial, com gestos enérgicos, insistiu que completasse o cálice.
Vendo frustrar-se o costumeiro lanche paroquial, o coroinha, irritado, sacou da algibeira o saquinho de petisco e o lançou ao padre moço:
— Se é assim, tome, pode ficar também com as bolachinhas!