— Bom dia (ou boa tarde ou boa noite). Como vai? É um prazer revê-lo!
— Bom dia (ou boa tarde ou boa noite). Igualmente.
A cordialidade entre nós soa falsa. Ambos sabemos disso. Mas com velada ironia insistimos nela.
Os encontros (ou confrontos) são sempre tensos. Porque nos conhecemos tanto, vivemos a nos estranhar.
Raramente nos sentimos apaziguados. Num fim de noite, num meio de página, num verso, num acorde de canção, numa taça de vinho, num suspiro.
Ele sabe o que penso. Eu penso que sei o que ele sabe e pensa.
Ele conhece meus disfarces e eu, as máscaras que usa.
Siameses contrapostos, fazemos as vezes um do outro.
Eu vivo nele e ele existe em mim.
Um dia (ou uma tarde ou uma noite), nos despediremos enfim.
-Bom dia, boa tarde, boa noite.
-Prazer em conhecê-lo.
-Igualmente.
Quantas mil vezes repetimos isto?
Algo tão automático. Só dizeres. Só frases. Só falâncias.
Algum dia nos conheceremos de verdade?
Quem sabe?
É como os dizeres formais de outras ocasiões:
– Meus pêsames.
– Meus sentimentos.
Ou:
– Parabéns.
– Felicidades.
Ou:
– Olá, tudo bem?
– Tudo e você?
Sabe, são dizeres. São motes. Fazem parte do viver social.
Acompanhem-se um ar de tristeza; um sorriso ameno; um qualquer coisa.
Se seremos de verdade um dia…. quem sabe?
E, de verdade, importa?
Seria por isto que Fernando Pessoa escreveu se desdobrando em várias “personalidades”? Para deixar viver cada uma delas com toda intensidade?
Conheço bem as mulheres que “convivem” em mim: a responsável; a cigana; a romântica; a “louca” (excêntrica ficaria melhor, né?), não necessariamente nesta ordem. Mas acho que não teria “munição” suficiente para apresentar uma delas o tempo todo, então acabo sendo uma mistura disso tudo (como se fosse possível… rsrs)
Interessante é que no meu estudo numerológico (feito por minha amiga Ingrid Engel), ela diz que posso ter problemas porque aparento uma coisa e “sou” outra… Pensei bastante nisto, e analisando as diversas situações por que já passei, parece que é assim mesmo; quando viro a mesa, ou quando mostro que, na verdade, sou “boazinha”, as pessoas estranham e querem mudar o enredo da estória. Só que, então, já é tarde demais… o que, às vezes, é uma pena, e, noutras, uma bênção.
Então, no meu caso, seria difícil nos apresentarmos uma às outras (um dia, ou uma tarde, ou uma noite) porque dificilmente nos encontraríamos, de tão diversas (ou volúveis? rsrs) que somos.
Conversando com o espelho? Ti doro. bjo