Posts from janeiro, 2010

Janeiro de Rio

 

 

 

                        Gilberto Gil tinha e ainda tem razão: o Rio de Janeiro continua lindo!

                        Tragédias urbanas, violência, traficantes que, se aproveitando da ausência do Poder Público, impõem seu jugo a uma grande maioria de trabalhadores e pessoas de bem que habitam nas favelas.

                        Nada disso é capaz de tisnar a beleza avassaladora da cidade, serpenteando entre morros e praias, sua gente morena e sorridente, suas mulheres de perder o fôlego.

                        Há quem não goste dos cariocas, tachando-os de bairristas e arrogantes.

                        E não teriam motivos de sobra para isso?

                        Sempre me dei muito bem com eles (tanto que até me casei com uma). Adoram gozar os paulistas, como adoramos gozá-los. Trata-se de uma rivalidade amorosa semelhante à que mantemos com os avós portugueses e os hermanos argentinos.

                        Às vezes me ocorre se não teria sido um equívoco transferir a capital da República para Brasília. Juscelino, na época, com seu furor desenvolvimentista, tinha muitos e bons argumentos a favor, a maioria deles convincentes.  Mas passados 50 anos, Brasília se tornou uma ilha de cimento e fantasia, afastando (ou pondo a salvo) os governantes e parlamentares do povo, em especial o povo ferino e crítico do Rio de Janeiro, que admite tudo, menos o ridículo. Todos os presidentes, sem exceção, incluindo os da ditadura militar, isolados em Brasília e rodeados por seus acólitos, pensam-se grandes condutores da Pátria, sábios iluminados que nos levarão a um glorioso destino, levantando-nos finalmente do berço explêndido. A democracia se faz de homens comuns (como o era Juscelino), que governam para seus semelhantes, e não das figuras execráveis dos homens providenciais, de tão triste memória.

                        Mas voltemos aos nossos dias de sol e céu azul, a maioria sem uma única nuvem, o mar com as águas tépidas e cristalinas, as caminhadas pelo calçadão, onde revejo Drummond sentado no seu banco (e de óculos novos).

                        E também as maravilhas do centro antigo, a estreita Rua do Ouvidor, por onde andava Machado de Assis, tirando o chapéu às senhoras, a admirar uns braços expostos. A velha Lapa dos boêmios, em que Manuel Bandeira morou tanto tempo. A Ipanema de Vinicius, Tom Jobim e da Bossa Nova. O Leblon, agora de Chico Buarque. A deliciosa Livraria da Travessa, uma livraria realmente de livros, o que pode parecer uma redundância, mas se torna cada dia mais raro.

                       Reconcilhei-me com o mar e me despeço entardecendo  nas pedras do Arpoador, a ver o sol mergulhar lentamente nas águas do mar, deixando no final reflexos avermelhados (que lembram quadros de Monet), como a mão de quem se afoga, acenando o adeus.

                        Saber que a Manuela, ainda agasalhada no ventre materno, mexe-se como uma cabrocha ansiosa por desfilar, cresce e fica a cada dia mais linda. Não demorará muito tempo para que ela talvez esteja aqui ao meu redor, a ver o mesmo sol se pôr.

                        Às vezes, a felicidade é quase possível. Pena que dure tão pouco!

                         Lá se foram esses nossos dias de puro deleite no Rio. Amanhã, São Paulo nos aguarda.