Posts from abril, 2010

Anima

 

 

                        Ao terminar o contorno do balão e entrar na avenida percebeu uns vinte metros à frente o objeto preto no meio da pista.

                        Veio-lhe à mente o verso de Caetano Veloso, que inclui entre os mais belos que conhece — “teu cabelo preto, explícito objeto” —, mas por cautela diminuiu a marcha e desviou o automóvel do objeto.

                        Ao passar pelo objeto, ele se tornou explícito: era um pequeno cachorro, com os olhos baços ainda arregalados de espanto. O pelo era todo preto e um filete rubro corria-lhe da cabeça para o asfalto cinza.

                        Teria um dono que ao dar pela sua falta o procurava e o chamava, aflito?

                        Teria um nome pelo qual atendia e corria abanando o rabo quando chamado?

                        Agora era apenas um objeto explícito, inanimado.

                        Dizem que os animais não têm alma. Mas então o que os anima? O que teria deixado aquele corpo inanimado? Por que desamina tanto aquela visão do corpo inanimado?

                        O entardecer prenuncia o fim do dia, que a manhã trará de volta.

                        Para o cachorrinho, explícito objeto, tanto faz. Amanhã ainda estará ali ou terá sido removido para outro lugar.

                        A vida continuará implícita.