Anima

 

 

                        Ao terminar o contorno do balão e entrar na avenida percebeu uns vinte metros à frente o objeto preto no meio da pista.

                        Veio-lhe à mente o verso de Caetano Veloso, que inclui entre os mais belos que conhece — “teu cabelo preto, explícito objeto” —, mas por cautela diminuiu a marcha e desviou o automóvel do objeto.

                        Ao passar pelo objeto, ele se tornou explícito: era um pequeno cachorro, com os olhos baços ainda arregalados de espanto. O pelo era todo preto e um filete rubro corria-lhe da cabeça para o asfalto cinza.

                        Teria um dono que ao dar pela sua falta o procurava e o chamava, aflito?

                        Teria um nome pelo qual atendia e corria abanando o rabo quando chamado?

                        Agora era apenas um objeto explícito, inanimado.

                        Dizem que os animais não têm alma. Mas então o que os anima? O que teria deixado aquele corpo inanimado? Por que desamina tanto aquela visão do corpo inanimado?

                        O entardecer prenuncia o fim do dia, que a manhã trará de volta.

                        Para o cachorrinho, explícito objeto, tanto faz. Amanhã ainda estará ali ou terá sido removido para outro lugar.

                        A vida continuará implícita.

 

 

4 comentários

  1. Lilian
    22/04/10 at 0:05

    Mais um dos mistérios desta terra onde estamos degredados… Ver a violência contra os indefesos animais é uma das coisas mais terríveis que pode nos acontecer, que nem mesmo a poesia pode amenizar.

  2. sonia k.
    01/05/10 at 17:43

    Tenho especial amor por cães. Há 3 anos tenho a Belinha (cofap) que é minha companheira e carinho de todos os momentos. Antes tive o Bob (mesma raça) que infelizmente morreu em minhas mãos após ser atropelado aqui na porta. Até hoje lembro com saudade dos 8 anos que passou comigo. Esses bichinhos só faltam falar embora se comuniquem muito bem com seus olhares, latidos e comportamentos.
    A figura do cãozinho mancha negra no asfalto, inanimado, olhar espantado, me aflige. Prefiro pensar que alguém chorou por ele.
    Como prefiro pensar que todos temos alma e nada é por acaso.

    • Antonio Carlos
      02/05/10 at 14:07

      Sonia,querida,

      Tive um cachorrinho, o Snow. que tomei da Bell (porque ele me escolheu como seu dono) que foi a maior prova de amor e carinho que já tive na vida. Deitava ao meu lado e sabia quando eu estava triste ou alegre, e me acompanhava no sentimento. O seu olhar para mim, de admiração e carinho, era a mais inebriante sensação que já senti na vida. Minhas filhas me amam? Minha mulher me ama? Meus irmãos me amam? Meu pai e minha mãe me amam ou amararam? Quero crer que sim, mas não posso ter certeza. Quem conhece o amor humano? Se me amaram (ou me amam), o amor deles era ou é o amor que eu esperava ou necessitava? Antes será o amor que eles sabem amar. O amor do Snow por mim era incondicional. Como incondicional é a saudade que tenho dele. Por isso, a visão de um cãozinho morto me toca tanto, e não me animei até hoje a ter outro!

      • sonia k.
        04/05/10 at 11:25

        Pensar no amor e nas formas de amar é algo que me encanta e me toma horas tanto pensando como escrevendo.
        Dia desses eu e Bruno (meu neto) viramos a noite conversando sobre temas diversos. E acabamos caindo na questão amor. Falamos, analisamos e, apesar de eu dizer que amei e fui muito amada na vida, as vezes tenho sérias dúvidas se realmente era amor o que eu sentia e recebia. E isto engloba sentimentos de amigos, parentes, família e amados amantes maridos.
        Mas é real a famosa frase “depois de muito conhecer os homens, prefiro meus amigos cachorros”.
        Tente um novo Snow em sua vida, pois acho que é uma forma de sentimentos que trocamos, que vale a pena.

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