Chame o ladrão

 

 

                        Nos tempos escabrosos da ditadura, Chico Buarque estava no auge de seu talento criativo como compositor.

                        Para escapar do cerco da censura, assinou algumas canções com pseudônimos, entre os quais talvez o mais famoso seja Julinho da Adelaide, que figura como autor, em parceria com Leonel Paiva, de uma canção que se tornou clássica, Acorda Amor, cujo personagem, diante da aflição de acordar no meio da noite com “a dura, numa muito escura viatura” batendo no portão e logo depois “já no vão da escada, fazendo confusão”, implora à mulher que “chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão”.

                        Maria Aparecida Menezes despertou com os gritos do filho Alexandre que, à porta de sua casa, no bairro pobre de Cidade Ademar, em São Paulo, estava sendo espancado impiedosamente, até a morte, por delinquentes travestidos de policias militares.

                        A “diligência” policial foi desencadeada simplesmente porque o rapaz conduzia uma motocicleta nova, que tinha acabado de comprar com muito sacrifício e ainda não se achava emplacada, despertando as suspeitas dos solertes guardiões da ordem pública.

                        Maria Aparecida tentou intervir, implorar, explicar que o rapaz morava ali, era entregador de pizza, casado e tinha um filho de três anos. Foi em vão. Os bandidos fardados lhe disseram que se tratava de um “vagabundo” e, ameaçando-a, fizeram com que ela se afastasse e presenciasse o massacre, impotente e em desespero crescente.

                        — Eles ficaram batendo nele meia hora e depois o enforcaram na minha frente.

                        — O pior é que eu não podia fazer nada, nem discar para o 190 e chamar a polícia para me acudir, porque era a polícia que estava ali, matando meu filho.

                        Quem sabe se ela,  a exemplo do personagem da  canção de Chico Buarque, chamasse o ladrão, não teria de enterrar o corpo do filho no Dia das Mães.

                        Os tempos mudaram, mas nem tanto.

 

 [youtube=http://www.youtube.com/watch?v=CBbIacmaQ5M&feature=related]

 

 

 

3 comentários

  1. sonia k.
    13/05/10 at 9:37

    É chocante que aconteça coisas do gênero.
    É…. os tempos mudaram, mas não tanto, infelizmente.
    A matilha desvairada permanece à solta nas instituições que deveriam ser guardiãs do bem e da moral.
    E não adianta chamar o ladrão!

  2. 13/05/10 at 10:05

    Irmãos Karamazov, mas talvez pudesse estar em Assim Falou Zaratrusta. “Se Deus não existe, tudo é possível.”

  3. Lilian
    13/05/10 at 10:22

    Jesus! Tomara que seja mesmo o fim dos tempos… Eu não suporto ver coisas desse tipo. Numa das últimas vezes que assisti ao noticiário na tv (não vejo mais), um avô lamentava o estupro da neta de cinco anos dizendo simplesmente: “é muita falta de sorte”… Não me esqueço da frase, da extrema desolação que tomava conta dele, do seu rosto vincado pelo tempo, tristemente desiludido, como se nada mais houvesse de bom no mundo. Nunca mais assisti qualquer noticiário (e olha que o meu canal preferido era o Globo News – nem sei se ainda tem esse nome; sei apenas que não devo nunca assistir ao canal 40 da tv, embora a notícia que me abalou tanto tenha sido veiculada no Jornal Regional, Globo, hora do almoço).
    Diante disso tudo, uma boa providência seria ter o celular de algum(ns) “ladrão”(ões) que pudesse nos socorrer em algum momento mais difícil. O problema é que, quem dorme com os porcos, acorda sujo. Não sei o que é pior.
    E “se Deus não existe, tudo é possível”… é bem isto o que estamos presenciando, como se estivéssemos esquecidos por Deus e tudo pudesse ser, até o inconcebível e, no mínimo, o absurdo.

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