Dunga e seus anões

 

 

 

 

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                        Num País em que todos somos técnicos de futebol, o assunto da semana foi Dunga e a sua convocação dos jogadores da seleção brasileira para a Copa do Mundo que vem aí.

                        Do muito que se falou e escreveu a respeito, há textos e análises brilhantes, mas para mim foi de Xico Sá a mais deliciosa crônica (aliás, tudo o que ele escreve tem inefável sabor), publicada na edição de ontem, sexta-feira, na Folha de S. Paulo (Prefiro não, esporte D3), em que especula sobre “quem seria Dunga se fosse, por acaso, um personagem da grande literatura universal”.

                        Aventa diversos personagens, logo descartados, como Brás Cubas, de Machado de Assis, Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, o canalha do Palhares, de Nelson Rodrigues, o Blau dos contos gauchescos de João Simões Lopes Neto, e outros mais.

                        Enquanto lia a crônica, pensei também em alguns personagens. A associação mais evidente, e já desgastada, é com o anãozinho homônimo da história da Branca de Neve, ingênuo, sorridente, folgazão. Mas nenhuma dessas características se aplica ao Dunga, que mais se parece com outro dos anõezinhos, o Zangado. Ocorreu-me também o protagonista de O Grande Mentecapto, de Fernando Sabino, muito mais pelo título do romance do que pelo caráter de Viramundo, um símile tupiniquim de Dom Quixote, andarilho, louco, desvalido, idealista, picaresco e fanfarrão. Mas bem que o seu triste fim poderá se repetir em relação a Dunga (se não conseguir levar a seleção brasileira ao título): desiludido e amargurado, Viramundo descobre que as cartas de amor da idealizada e inalcançável amada Marília (a taça FIFA?) eram falsas; os amigos (cartolas da CBF, jogadores, diversos jornalistas e demais puxa-sacos?) eram falsos; suas crenças (sobre o futebol?) eram falsas. Percebe então que está só, irremediavelmente só, e a solidão é tudo que lhe resta.

                        Para solucionar o impasse, Xico Sá cogita recorrer, por motivos óbvios, ao Analista de Bagé, mas é o seu fiel escudeiro, o corvo Edgar, quem afinal o acode e define com grande perspicácia e propriedade o personagem que mais reflete o atual técnico da nossa seleção: “O Dunga é aquele cara teimoso do Melville, saca?”

                        O cara teimoso é o escrivão Bartleby, da pequena obra prima tardia de Herman Melville, que chegou a ser traduzida por Jorge Luis Borges, o qual no prólogo faz uma interessante aproximação com a grande obra prima do mesmo Melville, o épico Moby Dick, grandioso como o famoso cachalote raivosamente caçado pelo capitão Ahab, romance “infinito” cuja narrativa “se avoluma até alcançar o tamanho do cosmo”.

                        Anota Borges, que tinha grande domínio da língua inglesa, que o texto de Moby Dick está estruturado num exacerbado dialeto romântico do inglês, ao passo que Bartleby, O Escrivão ― com cerca de apenas 40 páginas ― utiliza-se de um idioma tranquilo, cujo contraste com o assombro da narrativa parece antecipar a ficção kafkiana.

                        Contratado por um advogado como escrivão e copista de documentos (naqueles tempos não havia os prodígios da fotocópia e do escâner), depois de poucos dias em que trabalhou normalmente, Bartleby passa a responder às ordens e aos pedidos do patrão com uma mesma frase, que se tornará a sua marca: “Acho melhor não” (“I would prefer not to.”)

                        De recusa em recusa, Bartleby quase enlouquece o chefe, que apesar de tratá-lo com toda a consideração e ser extremamente tolerante e complacente, não vê outra alternativa senão despedi-lo, mas recebe a resposta de praxe de Bartleby, que não arreda pé do escritório, que àquela altura já se tornou sua moradia, obrigando o empregador a se mudar!

                        Bartleby acaba preso, apesar dos remorsos do advogado que se considera vagamente responsável pela desdita do ex-empregado, que com a frase de sempre passa a rejeitar até mesmo a comida e por fim morre.

                        Para Xico Sá (ou o seu corvo Edgar), Dunga também prefere não, “não escalar nem mesmo o maior jogador do mundo no momento, caso do Ganso, por supuesto”.

                        Exageros à parte ― ainda é cedo para eleger o jovem santista como o maior do mundo ―, não resta a menor dúvida de que Ganso é pelo menos o melhor e mais talentoso meia-armador do atual futebol brasileiro. Seus lançamentos e passes, a sua visão de jogo são comparáveis aos grandes mestres daquele setor de inteligência, como Didi, Gerson, Rivelino, Ademir da Guia. Sua personalidade e vivacidade surpreendem, como demonstrado no jogo final contra o Santo André, em que o Santos tomava sufoco com oito homens em campo, e ele evitou o equívoco do ótimo técnico Dorival Jr., recusando-se a ser substituído, pois sabia que era o único capaz de segurar a bola e esfriar o jogo. Num escanteio, como os poucos jogadores que restavam ao Santos não se aproximaram da área, deu um toquinho malandro pondo a bola em jogo e se afastou, como se esperasse outro para bater o corner, e os adversários demoraram quase um minuto para perceber o que acontecia.

                        Um jogador desse quilate, no atual deserto do futebol brasileiro na posição, e com a má fase da Kaká, não poderia ficar de fora da seleção, ainda que não atuasse como titular. E nem se alegue inexperiência, já que se fosse esse o caso não deveria figurar também da lista suplementar.

                        Dunga, que foi um jogador absolutamente medíocre e sem imaginação, acha melhor não, preferindo formar um meio campo de anões futebolistas iguais a ele, como os cabeças de bagre Gilberto Silva (decadente e incapaz de acertar um passe de três metros), Josué, Júlio Baptista, Felipe Melo (violento e intempestivo, que dia desses tomou uma lição do PVC num programa da ESPN, quando pretendeu encará-lo com os pontapés e cotoveladas — no caso verbais — que está acostumado a distribuir em campo).

                        E o que dizer da convocação dos não menos sofríveis e anões de futebol como Grafite (que jogou apenas 15 minutos na seleção), Kléberson (talvez para adoçar a torcida flamenguista pelo não chamamento, acertado, do lunático Adriano), Doni, Gilberto, Michel Bastos?

                        Vamos para a Copa do Mundo com um time muito parecido com o de 1994, liderado(?) em campo pelo próprio Dunga e no banco por Parreira (um Dunga com demão de verniz). Ganhamos (graças à arte e irreverência do baixinho Romário, levado à última hora), mas quase ninguém se lembra com saudade e carinho daquele time, ao contrário do escrete mágico de 1982 formado por Telê Santana, que perdeu mas nunca será esquecido.

                        Dunga e seus anões podem ser trabalhadores, esforçados, suarem a camisa, como os anõezinhos do conto de fadas, que se davam duro na mina. Mas quem nasceu para anão jamais será o príncipe encantado.

                        Com toda a franqueza, se for para jogar e vencer do jeito daquela “seleção” de 1994, que Dunga não se cansa de citar como referência, tal como Bartleby, acho melhor não.

 

 

 

4 comentários

  1. Lilian
    16/05/10 at 10:41

    Se com uma belíssima constelação de estrelas tivemos “aquele” resultado na última Copa, quem sabe com esse time de meros profissionais consigamos coisa melhor…
    O problema dos “meninos” é que eles podem amarelar, como o próprio Ronaldo, para nossa maior decepção (lembro-me de ter ficado estarrecida na ocasião e até hoje não entendi direito o que aconteceu), já fez.
    Quanto a Gilberto Silva, realmente… tenho a impressão de que ele se arrastará pelo campo (não sendo um Ronaldo, o que é imperdoável). Mas Dunga certamente tem seus motivos.

  2. 16/05/10 at 11:53

    Meu caro Antônio-Carlos:- Se você achou primorosa a crômica de Xico Sá sobre Dunga e a sua seleção (e concordo com você), deveria também referir-se à crônica de Fernando de Barros e Silva (“Os soldados de Dunga) também publicada da Folha de S. Paulo, em 12 de maio deste ano. Diz ele, logo de começo: “No lugar da aposta, o previsível; no lugar do talento, a disciplina; no lugar da alegria, o trabalho; no lugar das estrelas, os esforçados. Essa é a cara da seleção de Dunga ― ele próprio previsível, disciplinado, esforçado e… aborrecido”.

    O mais surpreendente é que o próprio Pelé declarou que Dunga não devia mesmo convocar o Ganso, porque este é inexperiente… Como se Pelé, ao estrear na seleção, tivesse experiência…

    Esta é uma seleção patrioteira (será mesmo?) em que predomina a mediocridade. E até Kaká, de que todos dependem , confessa que está fora de forma. Mas não declara que estará em forma, quando a Copa começar. De duas, uma, ou ele devia afirmar que estará em plena forma, ou então pedir que convocassem outro.

    A próxima Copa já em si é muito esquisita. Vai realizar-se em país conturbado, e os jornais já aconselham a ter cuidado em ir para lá.

    O fato é que o Brasil está perdendo a alegria, ou já a perdeu. Voltamos aos tempos de “ame-o ou deixe-o”. Deixar para quem? Para o Dunga.

    Todas as seleções estão jogando o mesmo jogo. Sabemos exatamente quais os passes que os jogadores darão. Não há mais aquele esfuziante talento de um Garrincha, que nos fazia soltar gargalhadas. E a seleção de Dunga é uma seleção do “deixa disso”, em vez de ser uma seleção chapliniana;

    Estamos entregues aos tecnocratas, aos publicitários e à poupança. É caldo de galinha todo dia. Perdida a noção da aventura, apelamos para a bolsa-família.

    O conselho é limpar a boca com o guardanapo depois do magro jantar, e dizer como o Pascoalino à Dona Concheta, quando ela lhe perguntou se naquela noite ele ia servir-se dela. Como ele respondesse que não, ela resolveu apenas lavar os pés.

  3. Antonio Carlos
    17/05/10 at 8:14

    Li a crônica de Fernando de Barros, que realmente é muito boa. Mas a do Xico Sá, na mesma linha, pareceu-me mais galhofeira e me interessou especialmente pela feliz associação com o escrivão Bartleby, uma dos meus personagens prediletos. Quanto ao Pelé, de quem sempre fui e continuo a ser um grande admirador como jogador (de longe o maior de todos os tempos), quando fala é um desastre. A esse respeito, Romário cunhou a frase definitiva: “O Pelé calado é um poeta!”

    • Lilian
      18/05/10 at 21:35

      Dr.Gama, desculpe se não compartilho com o senhor a admiração pelo Pelé. Mas acho que nunca o vi jogar. Quando comecei a me interessar pelo futebol ele estava findando a carreira, indo jogar num time dos EUA.
      Dos jogadores que passaram pelo meu time, os meus preferidos foram Muller e Kaká (e que saudade do Borges…)
      Pelé (e até o Santos) para mim sempre foram lenda.

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