O bar e restaurante do Claridge Hotel em Buenos Aires, na Calle Tucumán, 535, a um quarteirão da Florida, é uma reminiscência do apogeu da Argentina, no fim do século XIX e início do século XX.
Um imenso salão, com cerca de cem metros de extensão, decorado em estilo inglês, com madeira escura, quadros de paisagens campestres, poltronas lindas e aconchegantes, iluminação suave.
O balcão, com as tradicionais banquetas de couro vermelho, tem quase a metade de comprimento do salão.
Ele estava sentado na última banqueta à direita de quem entra, com um copo vazio à sua frente, solitário e ensimesmado, apesar da presença de um único garçom, sonolento, na outra ponta do balcão, perto de uma grande caixa registradora dourada.
Eram quase quatro horas da madrugada e eu havia acabado de chegar ao hotel. Deixei as malas no quarto e desci para tomar alguma coisa no bar que tanto me agrada, para espantar o frio e relaxar da viagem cansativa, e assim talvez depois conseguir dormir um pouco.
Não sei bem por que, mas após pedir uma dose de conhaque ao garçom, com o imenso salão vazio, fui me sentar numa mesa próxima de onde ele estava.
— ¡Carajo, tomó vos una eternidad! ¡Me pensé que estabas desubicado!, me disse ele naquele espanhol italianado, tipicamente portenho.
Não existia outro mais a quem ele pudesse estar se dirigindo. Sorri ao me lembrar do chiste maldoso de que os argentinos são italianos que falam espanhol e se julgam ingleses. As três características estavam presentes ali, naquele momento.
Resolvi levar a conversa adiante, já que não tinha nada a perder. Arrisquei meu portunhol:
— Tienes razón, todavía mi vuelo se retrasó. Mil perdones.
— Puedes hablar en portugués. Si los dos hablan despacito, nos entendemos perfectamente. Mi nombre es Benjamín Miguel Chaparro y quiero contar una historia que sucedió muchos años atrás y siempre ejerció en mi una oscura fascinación, como si me diera la oportunidad de ver reflejados, en una vida destrozada por el dolor y la tragedia, los fantasmas de mis propios miedos. ¿Quieres escucharme?
Tinha o nariz aquilino, o rosto simpático, com algumas rugas nos cantos dos olhos, barba, bigode e cabelos embranquecidos. Aparentava certa amargura, mas seus olhos brilhavam intensamente ao começar a me contar a história.
Amanhecia, quando me despedi de Benjamín e fechei o livro La pregunta de sus ojos que comecei a ler quando cheguei a Buenos Aires. Trata-se do romance de Eduardo Sacheri do qual foi extraído o roteiro do filme El segredo de sus ojos, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro.
Todo fim de noite ainda passo algumas horas no bar inglês do Claridge acompanhando a narrativa surpreendente de Benjamín.
Depois de ver a alegria da Dona Macena estampada no outro post, fica até difícil comentar este, “noturno”.
Também faço isso quando chego a um hotel: procuro um cantinho bacana aonde possa ler os jornais e ver o povo passando (o que não poderia fazer de madrugada, claro!)
“Legal” é quando mais pessoas têm a mesma idéia e fica aquela troca de partes do jornal… e lá se vai o meu posto de observação!
Converse bastante com seu amigo Benjamin, que a estória dele parece boa… Quem sabe, ao final da viagem, já saiba tudinho?
(O senhor é um ótimo contador de estórias. Esse dom não poderia resultar num romance?)
Papilly, você desperta em nós aquela dúvida que só os bons autores consegurem. Será que é verdade?