História extraordinária

 

 

                        Depois do domingo e da segunda-feira de chuva fina e intermitente que atrapalha a locomoção e nos obrigou a passar a maior parte do tempo em cafés, livrarias e galerias (não que isso seja propriamente um suplício), finalmente a terça-feira amanheceu com um céu esplendoroso, límpido e azul, daquele tom platense da bandeira argentina.

                        Embora a Delucena reclame de fazê-la andar muito, Bueno Aires, como Paris, é uma cidade para se conhecer caminhando, o que é facilitado pela sua topografia plana. Aliás, para mim as cidades são como as mulheres, e mesmo aquelas mais ásperas e tortuosas somente revelam seus segredos, sua intimidade e real beleza quando nos deixamos perder nos seus caminhos ou descaminhos.

                        Saímos pelo calçadão da Florida rumo à Plaza de Mayo, observando os prédios de arquitetura clássica, entrando em muitas lojas e livrarias.

                        Tinha informação há algum tempo de que na Calle Florida, no subsolo das Gelerias Güemes, havia um lugar belíssimo, dedicado ao tango e em especial a Astor Piazzolla. Nas outras vezes em que aqui estive não consegui localizar o local, em que devo ter passado em frente várias vezes, sem atinar.

                        Desta feita, quase por acaso (ou nem tanto), Delucena entrou na galeria e então percebi onde estávamos por alguns cartazes afixados.

                        Puxei-a pelas escadas que levam ao subsolo e demos com um recanto maravilhoso, as antigas instalações de um teatro de 1915, em estilo art nouveau, totalmente restauradas. O local agora abriga um café, restaurante e pequeno museu em homenagem a Piazzolla, além de um outro grande salão em que de noite há os tradicionais shows de tango, que dizem ser um dos melhores de Buenos Aires, onde se apresentam os artistas mais refinados.

                        Astor Piazzolla é idolatrado ou odiado pelos argentinos. Muitos, entre os quais me incluo, o consideram genial e o grande responsável pela renovação do tango na segunda metade do século XX. Outros o detestam por entender que degradou o tango tradicional, ou simplesmente que não fazia tango.

                        Ficamos cerca de uma hora no café, e andando pelo local li numa das paredes, entre diversas outras inscrições sobre a vida e a obra da Piazzolla, esta história que me pareceu absolutamente extraordinária e que, com alguma pesquisa, daria um ótimo conto ou novela.

                        Aos 14 anos o menino Astor Piazzolla foi convidado por Carlos Gardel para tocar na orquestra que o acompanhava no filme El dia que me quieras. O cantor também conseguiu um pequeno papel para Astor, encarnando um vendedor de jornal.

                        Don Vicente “Nonino”, pai de Piazzolla — em homenagem ao qual compôs a comovente e linda Adiós, Nonino — e grande admirador de Gardel era um hábil entalhador e presenteou o cantor com uma figura humana de madeira que esculpiu. Essa figura estava no avião que caiu em Medellín e foi vista 20 anos depois, chamuscada, em um comércio de New Yorq, mas antes de ser recuperada tornou a desaparecer.

                        Gardel havia convidado Piazzolla a acompanhá-lo no voo fatídico, mas Don Vicente não deixou. A propósito, Piazzolla escreveu com certo humor negro, que se tivesse ido com Gardel “Em vez de tocar el bandoneón estaria tocando el arpa…”.

 

 

Um comentário

  1. Lilian
    23/07/10 at 10:07

    Imagino que Buenos Aires seja linda mesmo… Só não entendo por que num lugar tão bacana tem argentinos. Muito estranho!
    Será que uma visita a Buenos Aires tem o poder de desfazer, ou pelo menos melhorar, a impressão que temos dos argentinos?
    Talvez seja como no Brasil: o que existe de ruim aqui são os brasileiros… No mais, é só beleza!

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