A rotina da aventura

 

 

                        Gilberto de Mello Kujawski em seu magnífico livro-ensaio O sentido da vida, recentemente lançado (O sentido da vida : transforma-te em quem és / Gilberto de Mello Kujawski — 1ª ed. — São Paulo / Gaia 2010), uma verdadeira opus magnum do seu pensamento e das suas reflexões filosóficas a partir das ideias de Ortega Y Gasset — mas sem repeti-las ou copiá-las, antes lhes dando renovado frescor e a contribuição da sua plenitude intelectual —, discorre no Capítulo IV sobre os ritmos da vida, aventura e rotina.

                        Entre outros “achados”, assinala que “Ao contrário do que parece, aventura e rotina não se excluem nem se contrapõem entrei si. Em primeiro lugar porque a rotina é filha de aventura é a própria aventura congelada em alguns de seus momentos”. […] “A rotina escolta a aventura e, reciprocamente, no plano conhecido e muitas vezes percorridos da rotina, nos desvãos do cotidiano, em seus recantos e esconderijos, lateja em surdina o apelo da aventura. É uma praça esconsa que descobrimos em nossa andança por uma cidade desconhecida, sugerindo histórias e romances evaporados no passado. É aquele casarão abandonado no qual adivinhamos as alegrias e os dramas secretos de seus antigos habitantes. É o encontro casual com alguém que vai mudar nossa vida. É a ideia repentina que nos assalta ao dobrar a esquina e nos leva a rever nossa concepção das coisas ou o planejamento do trabalho que fazemos. É a intimidade com o companheiro de caminhada, nosso amigo ou nossa amada, que se aprofunda e nos enriquece. É a súbita vista do mar que nos leva para a distância do horizonte.”

                        O capítulo se estende para vários outros aspectos, incluindo o conceito absolutamente original — e diria mesmo genial — elaborada por Gilberto sobre nosso “relógio biográfico”, como “um condensador do tempo vital, da minha vida, que interfere diretamente no exercício dos meus sentidos, na vibração das minhas emoções, na perspectiva da minha percepção, no ângulo do meu pensamento, na direção dos meus desejos, e, por assim dizer, no meu enfoque cognitivo, volitivo e sentimental do mundo”.

                        Valho-me dessa brevíssima síntese e da maestria de Gilberto Kujawski para tentar expor como me sinto nas minhas breves e poucas viagens (bem menos do que gostaria), como a que acabo de fazer para Buenos Aires.

                        Antes, a grande ansiedade de escapar um pouco do cotidiano, da rotina, conhecer novos lugares e pessoas, ver a vida de outros ângulos, o desejo de me aventurar. Mas, ao mesmo tempo, certa melancolia por deixar o mesmo cotidiano, a mesma rotina, o meu modo de viver.

                        O mais desagradável de qualquer viagem é o cansativo e irritante processo de deslocamento, as longas esperas nos aeroportos, os inevitáveis atrasos e atropelos, a desconsideração com que somos tratados pelas companhias aéreas, sem exceção, e em especial os pobres mortais da classe econômica. Mas aqui já se está a viver a aventura da viagem, com seus imprevistos, incertezas e temores, por mais banais que possam ser (O avião não vai cair? Chegaremos em tempo para a conexão? E a nossa mala que tarda a aparecer na esteira?).

                        Quando enfim chego ao destino, a emoção de uma nova etapa da aventura, numa cidade que não é a minha, desconhecida ou pouco conhecida. Se estou no exterior, a estranheza maior ou menor da língua e dos hábitos locais, já nos primeiros momentos após a chegada.

                        É preciso em seguida (pelo menos eu sinto essa necessidade imperiosa), e o mais rápido possível, estabelecer uma nova rotina, para prosseguir na aventura.

                        As primeiras horas, às vezes os dois primeiros dias são de adaptação, até criar essa nova rotina. Aí então estou pronto a retomar a aventura. Por isso, tanto quanto de conhecer novos lugares, gosto muito de retornar a uma cidade, em que já estive, me agradou e tenho recordações e locais especiais para rever, além dos novos a descobrir.

                        Nessa fase gosto especialmente de mergulhar na vida da cidade, seu dia a dia, seus bares, cafés e restaurantes, suas livrarias, sua cultura enfim. Conversar o máximo que posso com seus moradores, garçons, motoristas de táxi, jornaleiros, livreiros, artistas, empregados do hotel, e todos mais que possam me transmitir o ambiente local.

                        Há em tudo isso um permanente encantamento, e até um doce e instigante estranhamento, que se renova em conformidade com nosso “relógio biográfico” a que se refere brilhantemente Gilberto Kujawski. Da mesma forma que, segundo Heráclito de Éfeso, não se pode entrar ou tomar banho duas vezes no mesmo rio, nunca visitamos duas vezes a mesma cidade, notadamente aquelas de que mais gostamos.

                        Não me lembro bem onde li há muito tempo, e cito de memória. Ao lhe pedirem para fazer aquela costumeira lista das dez melhores coisas da vida, Rubem Braga — grande viajante, aventureiro e vivente — arrolou entre elas: tomar um ótimo banho num bom hotel, vestir uma roupa confortável e sair pelas ruas de uma cidade estranha, achando que vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E acontecerem.

 

 

 

 

 

Um comentário

  1. Lilian
    24/07/10 at 17:39

    O sentido da vida – nossa, quantos livros já li sobre isto… O interessante é que apenas descobri que a vida precisava ter algum sentido ao ver que este era um tema recorrente de vários autores, e dos bons. O que mais me lembro é do Krishnamurti. Foi ele quem me disse, primeiro, que a vida precisava ter algum sentido. Até então eu não havia pensado nisto. Li, li, até que cheguei à Bíblia: “Conheça a verdade, e a verdade vos libertará.” – De novo, um problema: mas o que é a verdade? Que verdade é essa que pode libertar? Saí procurando a verdade que teria o poder de me libertar. E nisso estou até hoje! Sem sentido e sem verdade… rsrs Talvez o fato disto não mais me preocupar já seja uma libertação, pode ser.
    E rotina dentro da aventura… só o senhor, mesmo! Mas está certo, temos que descobrir a maneira de nos sentirmos mais confortáveis até para viver as aventuras.
    Rubem Braga, mais uma vez, está certíssimo: encher-se das mais promissoras expectativas e sair por aí. Simplesmente olhando, porque a beleza acontece o tempo todo, até nas coisas mais pequenas, nas quais poderíamos nem prestar atenção.

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