É costume qualificar Alfred Hitchcock como o “mestre do suspense”, quando na realidade ele é um mestre do cinema, um dos maiores diretores da história, cultuado por ícones como François Truffaut, cujo livro em que registra a série de entrevistas que realizou com Hitchcock nas décadas de 50 e 60 é uma lição completa de cinema.
Não há um único filme de Hitchcock em que não haja pelos menos três ou quatro tomadas, sequências ou planos antológicos. Aliás, sem falsa modéstia, ele costumava dizer que “Mesmo meus fracassos ganham dinheiro e se tornam clássicos um ano depois que os faço”, o que era pura verdade.
Difícil escolher o seu melhor filme entre tantas obras-primas que realizou, mas por simples questão de gosto o meu predileto é Um corpo que cai (Vertigo), ou pelo menos o que me causa inquietação e estranhamento até hoje e sempre que assisto (não bastasse a presença de Kim Novak, uma das atrizes mais lindas do cinema, para tirar o fôlego de qualquer um).
A primeira vez que tomei conhecimento de Hitchcock foi quando ainda era menino, em São Joaquim da Barra, e lá chegou para ser exibido sob grande expectativa no Cine Mongol o célebre Psicose (Psycho), a que não pude assistir por não ter idade bastante na época.
Mesmo assim acompanhei com grande interesse e curiosidade os comentários admirados que se mantiveram por semanas, mas ninguém, absolutamente ninguém (nem mesmo meu pai) revelava o final do filme, atendendo ao pedido do próprio Hitchcock. Causou grande alvoroço ainda a proibição, zelosamente cumprida pelo cinema daquela pequena cidade do interior paulista, de nenhum espectador ingressar na sala após o início do filme, conforme determinado por Hitchcock.
Trata-se, talvez, de uma das maiores jogadas de marketing de todos os tempos, no que Hitchcock era também um verdadeiro mestre, muito antes que se falasse em marketing. Outra de suas jogadas era sempre aparecer brevemente numa cena dos seus filmes e desafiar os espectadores a descobrir quando e como isso acontecia.
Enquanto estava em Buenos Aires na semana passada, comprei em um antiquário de San Telmo, por meros 90 pesos (cerca de R$ 50,00), um folheto original em perfeito estado, com quatro páginas contendo recomendações para os exibidores de Psicose, de cuja capa consta: “El cuidado y manejo de PSICOSIS por ALFRED HITCHCOCK como vendedor publicitario y promotor de Paramount Pictures. Nota Importante: Este es um elemento complementario del habitual boletin informativo”.
Nas páginas internas, além de diversas fotografias da filmagem (o que hoje chamaríamos de making of), seguem-se rigorosas e detalhadas orientações aos exibidores, desde a venda dos ingressos até ao término do filme, quando deveriam manter a sala escura por 30 segundos!
Apesar disso, com seu humour inglês, afirmava mestre Hitchcock que “Para mim Psicose foi uma grande comédia. Tinha que ser.”
Curiosamente, quando regressei a Ribeirão Preto, logo na primeira noite aqui um dos canais a cabo que assino exibiu nada mais nada menos do que Psicose (coincidência ou sincronismo?)
Lembro-me que na época do lançamento do filme, pilheriava-se que nossos queridos portugueses haviam vertido o título para “O assassino que era a mãe”, aniquilando a cuidadosa estratégia de mistério elaborada por Hitchcock.
É bem verdade que muito tempo já se passou e quase ninguém mais ignora o que acontece no filme, que se tornou um clássico. Todavia, o esforçado autor da sinopse oferecida pelo canal a cabo se esmerou: “Secretária foge roubando 40 mil dólares de seu chefe. Ela faz uma parada em um hotel dirigido pelo pacato Norman. Porém, o homem possui uma dupla personalidade, e, enquanto Marion está no chuveiro, ela a mata com uma faca.”
O que pensaria Hitchcock disso?