Se há um samba que tem me encantado nos últimos tempos é Beijo sem, composição que Adriana Calcanhoto, com seu enorme talento e a delicadeza de sempre, fez especialmente para Marisa Monte. Mas a versão de que mais gosto é a de Teresa Cristina em dupla com a própria Marisa Monte, gravada no disco da primeira, Melhor Assim.
Aliás, volto aqui a anotar como somos pródigos em revelar continuamente novas cantoras excepcionais, como é o caso da própria Teresa Cristina, Maria Gadú, Verônica Ferriani, Roberta Sá e várias outras, enquanto os bons cantores mínguam.
Notem a leveza malandra de Beijo sem, que na sua estrutura circular altera o sentido da letra com trocas sutis de palavras (deixou, amor/deixou de ver; bebo todas/beijo bem; viro outras/beijo sem/; viro todas/beijo bem; eu não sou mais, quem?)
Há ainda a evocação da nova Lapa (em que estive recentemente na minha viagem ao Rio), não apenas reduto de boêmios, malandros e prostitutas, mas onde a mulher de hoje, dona de seu nariz e decotada, também vai para a orgia curar as desilusões de amor e dar o troco.
Ao mesmo tempo uma sensação de nostalgia — que é típica do samba como gênero e da Lapa como memória — nos invade, enquanto as vozes de Teresa Cristina e Marisa Monte se casam de tal forma que às vezes quase não se consegue distinguir qual das duas está cantando.
Maravilhoso!
Beijo sem (Adriana Calcanhotto)
Eu não sou mais quem você
deixou, amor
vou a Lapa decotada
bebo todas, beijo bem.
Madrugada, sou da lira
manhãzinha, de ninguém
noite alta é meu dia
e a orgia é meu bem.
Eu não sou mais quem você
deixou de ver
vou à Lapa decotada
viro outras, beijo sem.
Madrugada, sou da lira
manhãzinha, de ninguém
noite alta é meu dia
e a orgia é meu bem.
Eu não sou mais quem você
deixou, amor
vou à Lapa decotada
viro todas, beijo bem
Madrugada, sou da lira
manhãzinha, de ninguém
noite alta é meu dia
e a orgia é meu bem
Eu não sou mais quem você
deixou de ver
vou à Lapa decotada
viro outras, beijo sem.
Madrugada, sou da lira
manhãzinha, de ninguém
noite alta é meu dia
e a orgia é meu bem.
Eu não sou mais
quem?
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P.S. Estou desde a madrugada de ontem em Buenos Aires (muita chuva e frio, por enquanto), onde trocarei por uma semana o samba pelo tango. Pelo menos me livrei de ver o Maradona pelado… Mas tenho encontros marcados com Borges e Cortázar (vestidos com seus livros),