Posts from setembro, 2010

Juventude

 

 

 

 

                        Os feriadões são uma institucional nacional, como a jabuticaba. Esperados com avidez, como a temporada dos frutos da jabuticabeira, quando despontam são saboreados gostosamente, e no final sempre deixam um gostinho de quero mais.

                        Menino, adorava subir nos pés de jabuticaba cultivados nos quintais das casas de meus avós, paternos e maternos, e chupar a fruta ali mesmo, com o doce sabor da aventura. Quando não era época de jabuticaba, os galhos das árvores forneciam excelentes forquilhas para a confecção de estilingue.

                        Na juventude, invariavelmente os feriadões eram fruídos em viagens com a turma de amigos, perto ou longe, para a praia ou a montanha, cidade ou campo. Inadmissível ficar em casa.

                        Agora, pelo contrário, o que me apraz é justamente ficar em casa e fazer o que mais gosto, ler, ouvir música, assistir a filmes, conversar calmamente tomando uma bebida, sem os compromissos e as obrigações do dia a dia. Fujo do rebuliço, dos congestionamentos, dos lugares lotados, da barulheira. Passeio-me pela cidade vazia, que me revela os seus encantos ocultados, como a mulher que se despe para o amante.

                        Será esse mais um sinal de que a juventude já não passa de uma doce recordação, como as jabuticabas que há tanto tempo não saboreio?

                        Nesse último feriadão, sem a angústia da segunda-feira que sempre me assoma nas noites de domingo, assisti placidamente a um filme de Domingos de Oliveira, exibido pelo Canal Brasil.

                        Ainda não havia visto Juventude (nem mesmo sei se chegou a entrar no circuito regular), lançado em 2008 e ganhador de quatro Kikitos da mostra competitiva de longas metragens do 36º Festival de Cinema de Gramado: melhor diretor e melhor roteiro (Domingos Oliveira), melhor montagem (Natara Ney) e ainda o Prêmio de Qualidade Artística (para os três atores, o próprio Domingos Oliveira, Paulo José e Aderbal Freire Filho). Quando da exibição em Gramado, emocionou de tal forma a plateia que foi aplaudido de pé, entre choros e risos, por longos minutos.

                        A força do roteiro é exatamente a sua singeleza cativante que nos envolve a ponto de nos tornar partícipes (como um quarto mosqueteiro) do reencontro e das reminiscências de três velhos amigos, David (Paulo José), Antonio (Domingos de Oliveira) e Ulisses (Aderbal Freire Filho), que se juntaram pela primeira vez, ainda adolescentes, para uma representação colegial da peça A Ceia dos Cardeais, de Julio Dantas, um clássico português. Passados 50 anos, voltam a se reunir uma noite na casa maravilhosa de David para confraternizar e efetuar um balanço das suas vidas, dos seus amores e dissabores.

                        Já maduros, na faixa dos 70 anos, não perderam a fome de viver e o bom humor. Não se trata, pois, de um encontro de três velhos amargurados, mas de três homens vividos e vívidos, que carregam ilusões, perplexidades, temores, anseios como os jovens de todas as idades. O filme é uma celebração da vida, da amizade e do espírito de juventude.

                        Domingos, Paulo José e Aderbal são de fato amigos de velha data e dessa amizade surgiu a ideia do filme. Segundo Domingos de Oliveira, “Juventude é a nossa própria vida, misturada com certa ficção daquilo que secretamente imaginávamos viver em nossas conversas doidas”.

                        Contemporâneo do boom do Cinema Novo, Domingos de Oliveira sempre se manteve à parte, fazendo filmes do seu jeito, com um toque muito pessoal, mais interessado no texto do que nos artifícios tecnológicos.

                        Com um orçamento modesto, de apenas R$ 800 mil, filmou Juventude em digital e tendo como cenário único a mansão em que os amigos se reúnem. Isso não impede tomadas belíssimas, nos diversos ambientes da casa, internos e externos. O filme flui com tamanha naturalidade que nos dá a impressão de ter sido feito numa única tomada. Há quem faça crítica à luz, mas Domingos explica que foi de propósito: “Queria uma luz mais estourada, mais aberta”.

                        Como é característico das obras de Domingos, os diálogos, entremeados de alguns monólogos, são primorosos, sustentados pela atuação deslumbrante dos três protagonistas. Impossível e injusto destacar um deles, mas comovem o esforço e o talento de Paulo José lutando há muitos anos com os efeitos do Mal de Parkinson, que usa magistralmente na composição do personagem que encarna.

                        A mim, por razões pessoais que contarei num outro post, emocionou-me especialmente a cena em que os três amigos, que se acham na idade dos velhos cardeais que interpretaram na juventude, vestem-se com trajes cardinalícios comprados por David (Paulo José) para surpreendê-los, e enquanto ceiam repetem parte de suas falas da peça, com suas imagens e vozes fundindo-se com as dos rapazinhos que foram.

                        Ao término do filme, me senti com a alma e os olhos lavados, estes pelas lágrimas que não pude conter. Não sei se isso é sinal de juventude ou senectude.

 

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