O polêmico, vaidoso e maledicente Sinhô, José Barbosa da Silva, nascido no Rio de Janeiro em 18 de setembro de 1888 e morto em 4 de agosto de 1930, ao sofrer uma hemoptise fulminante a bordo da velha barca que fazia a travessia entre a Ilha do Governador e o Cais Pharoux, foi um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos e um dos criadores do gênero que passou a ser denominado de “samba”.
Manuel Bandeira, que era seu amigo e admirador, escreveu uma belíssima crônica sobre a sua morte e seu enterro, publicada no livro “Os Reis Vagabundos e mais 50 crônicas”, e incluída em “Crônicas da província do Brasil”, assinala: “O que há de mais povo e de mais carioca tinha em Sinhô a sua personificação mais típica, mais genuína e mais profunda. De quando em quando, no meio de uma porção de toadas que todas eram camaradas e frescas como as manhãs dos nossos suburbiozinhos humildes, vinha de Sinhô um samba definitivo, um Claudionor, um Jura, com um “beijo puro na catedral do amor”, enfim uma dessas coisas incríveis que pareciam descer dos morros lendários da cidade, Favela, Salgueiro, Mangueira, São Carlos, fina-flor extrema da malandragem carioca mais inteligente e mais heróica…”
Como Sinhô era frequentemente acusado de plagiar composições ou de se apropriar de músicas alheias, costumava responder a seus detratores, com a irreverência e o bom humor que eram sua marca, que “samba é como passarinho, está no ar, é de quem pegar”.
Por isso mesmo, e para não dar sopa ao azar, fazia questão de carimbar cada uma de suas partituras com seu nome e assinatura, tornando-se também um dos pioneiros da defesa dos direitos autorais (pelo menos dos dele).
Mas não apenas o samba é como passarinho no ar. Também na literatura as ideias volitam soltas à espera de quem as apanhe primeiro.
Algumas vezes já me ocorreu uma história, um esboço de poema ou letra de música, que por incapacidade ou falta de tempo não consigo desenvolver e de repente aparece na gaiola de outro, geralmente bem mais cuidado do que eu faria, maravilhando-me com sua rica plumagem e seu gorgeio mavioso.
Muitas outras vezes — e aí a emoção é maior ainda — deparo com uma revelação surpreendente, mas que diz o que eu sempre quis dizer, sem que sequer soubesse ainda.
Já há algum tempo cogitava escrever uma pequena resenha sobre o mais recente romance de Moacyr Scliar, Eu vos abraço, Milhões, que me encantou e cuja leitura estava prestes a terminar, quando mestre Carlos Heitor Cony, com algumas poucas palavras da sua crônica do último dia 9, na Folha de S. Paulo (O novo livro de Scliar), me tomou todas as minhas pobres palavras.
O mais recomendável seria que eu então me calasse e recolhesse à minha insignificância, mas como alguém que acessa este blog pode não ter visto a crônica, e sobretudo porque Cony, que se diz esmorecido de ler novos livros e desatualizado com a literatura, gostou muito do livro, a ponto de afirmar que teve “[…} um momento de verdade ao ler o último romance de Moacyr Scliar […]”, arrisco-me a lhe furtar o passarinho e colocá-lo a cantar aqui.
Moacyr Scliar, ano a ano, tem mantido uma produção impressionante, tanto na qualidade, quanto na abundância e diversificação dos temas. Como informa a orelha de Eu vos abraço, Milhões, “É autor de mais de oitenta livros em vários gêneros: romance, conto, ensaio, crônica, ficção infantojuvenil”, além de ser colaborador em vários órgãos de imprensa no país e no exterior. Tudo isso e ainda é médico e participa com frequência de diversos eventos literários que (felizmente) proliferam por todo o país.
O intrigante título do livro, que logo me despertou a atenção, é um verso extraído da Ode à Alegria, de Friedrich Schiller, que teria inspirado Beethoven a compor a Nona Sinfonia. Mas, acima de tudo, expressa com perfeição o sentimento do protagonista Valdomiro ou simplesmente Valdo, quando ainda jovem, que se apaixona pelos ideais do comunismo, influenciado por um amigo mais velho que lhe diz: “Abraçar os milhões de seres humanos que compunham as massas, esse deveria ser o nosso ideal”
Valdo nasceu e vivia no interior do Rio Grande do Sul, em Santo Ângelo (onde Luís Carlos Prestes chegou em 1922 integrando o 1º Batalhão Ferroviário) e sua revolta latente contra o capitalismo e os capitalistas desperta a partir de uma cena que presencia de sofrida submissão do pai, capataz de uma estância, ao ser estupidamente humilhado pelo patrão.
Pouco antes de morrer, devastado por um câncer fulminante, Geninho, o amigo e guru de Valdo, pede-lhe para continuar na luta e que fosse completar seu aprendizado pelas mãos de Atrojildo Pereira, um dos lendários fundadores do PCB, que morava no Rio de Janeiro, para depois regressar ao Rio Grande do Sul, integrar a militância e comandar as massas.
Assim, o ainda guri Valdo parte como clandestino num trem de carga para o Rio de Janeiro, a fim de completar sua formação e participar do projeto revolucionário de mudança social.
Ouso discordar de Cony que entende não se tratar de um romance de formação, já que Scliar nasceu bem depois do tempo em que se passa a narrativa. Talvez não seja um romance clássico de formação do próprio autor, mas sem dúvida o é em relação a Valdo, que provavelmente terá, apesar da diferença de idade, traços da própria vivência de Scliar.
No Rio, nada se passa como havia planejado ou sonhado Valdo. Astrojildo Pereira está fora do Brasil, em Moscou, e ninguém sabe quando voltará. Resta então ao jovem descobrir o mundo por sua própria conta.
Para se manter, acaba por trabalhar (e se torna um empregado de confiança tanto do mestre de obras, quanto do engenheiro Heitor Levy, outro personagem real) na construção da monumental obra do Cristo Redentor; acompanha de longe as escaramuças da Revolução de 30, mas assiste à chegada triunfal dos conterrâneos gaúchos no Rio de Janeiro, com o famoso episódio dos cavalos amarrados no obelisco e a tomada do poder por Vargas; faz um curso e se torna um excelente eletricista; descobre o amor ou a paixão com uma linda anarquista, que o manipula e quer que a ajude, graças às facilidades de que dispõe como trabalhador do monumento e aos seus conhecimentos de eletricidade, a colocar explosivos no interior da estátua para explodi-la no momento em que Marconi acionasse da Itália um sinal que acenderia as lâmpadas do Cristo Redentor, na noite da inauguração.
Astrojildo Pereira finalmente retorna, mas cai em desgraça, é defenestrado da secretaria-geral e se afasta do Partido Comunista, passa a escrever crítica literária e se torna um reles vendedor de bananas, para completa decepção do jovem Valdo, que nunca chegará a encontrá-lo (sobre a extraordinária figura de Astrojildo, há um pequeno mistério ou um gancho — na verdade um fato que eu já conhecia e muitos também conhecem — que Scliar guarda para o final, e portanto não revelarei).
Tudo isso é relatado pelo velho Valdo, apaziguado e com certa ironia nostálgica, em uma carta ao neto nascido nos EUA, que lhe escrevera pedindo informações sobre suas raízes brasileiras e indagando do avô se é feliz.
Apesar da idade avançada, Valdo se orgulha de manter a lucidez e, sobretudo, a memória: “Para alguns, mesmo não muito velhos, o rio da memória é um curso de água barrenta que flui, lento e ominoso, trazendo destroços, detritos, cadáveres, restos disso ou daquilo; para mim, não: é uma vigorosa corrente de água límpida e fresca.”
Ainda no início do livro, ao tentar responder à pergunta do neto se é feliz, há trechos simplesmente antológicos (que são numerosos ao longo de todo o romance), como este:
“De qualquer modo, tua pergunta me faz pensar. E tendo pensado a respeito, acho que posso responder afirmativamente: sim, sou feliz. Quão feliz? Que nota eu atingiria na escala de felicidade, se é que tal coisa existe? Dez sei que não, mas do zero também escapo. E acho que estou acima de cinco, acima da média; se houvesse um exame vestibular de felicidade, provavelmente eu nele passaria, arranhando, mas passaria. Descontada a inevitável angústia — parte existencial, parte neurose propriamente dita (a velhice não nos poupa disso) —, acho que na maior parte do tempo sou razoavelmente feliz. Poderia ser mais feliz, se não tivesse essas dores pelo corpo, se escutasse melhor, se enxergasse melhor… se urinasse melhor já seria uma coisa muito boa. Eu queria, meu neto, que minha urina fluísse impetuosa e alegre como o rio da memória de que te falei antes. Mas a próstata, meu caro, a próstata de um idoso é qualquer coisa de inimaginável em termos de obstáculo e de transtorno. “Crescei e multiplicai-vos”, disse Deus, e a próstata segue esse ditame à sua maneira; não pode multiplicar-se, a não ser através de metástases de um câncer, o que seria, contudo, contraproducente, porque poderia levar ao óbito o corpo que a aloja; mas “crescei” — por que não? Todos querem crescer, sobretudo os empreendedores, e a próstata, a minha pelo menos, é, antes de tudo isso, uma ambiciosa empreendedora. Seu sonho é, mediante um processo de imperialismo biológico, expandir-se, rechaçando para a periferia o frágil, inócuo, descartável portador, o portador em quem o destino a colocou, reduzindo-o a um gnomo enfezado, grotesco, um ser encarquilhado e atrófico que por algum tempo, e antes de desaparecer por completo, servirá de suporte para a descomunal e arrogante glândula.”
Ao ler Eu vos abraço, Milhões desfrutei — como Cony — de um momento de verdade e arrebatamento, que só os grandes livros são capazes de nos proporcionar.
Um rio da memória límpido, fresco? Acho difícil. Mesmo tendo bloqueado a parte ruim das memórias, elas insistem em reaparecer, vez ou outra, na voz de um amigo e nas próprias circunstâncias de hoje. Aquela música, um lugar qualquer… tantas coisas.
Quanto ao vestibular da felicidade, sei não se passaria. “Gosto” de alimentar ódios passados como provas de que aprendi a lição e até para manter-me coerente com minhas posições… rsrs
Feliz? Concordo com ele. Eu passo bem do zero e talvez não chegue ao 10 até pela questão de um passado mais longo do que o futuro. E também se não tivesse essas dores pelo corpo, se escutasse melhor, se enxergasse melhor…. e como não tenho próstata e meus órgãos da baixa região, assim como os da alta estão em ordem, então estou bem.
E, a bem da verdade, felicidade é algo tão relativo….
E do passado não trago tantos estragos, apesar de ter saltado de níveis e até me tornar simples vendedora de banana, mas nada que me atinja para chegar à infelicidade.
Gostei da forma de relatar do autor. O livro deve ser muito bom mesmo. Beiojos
Li esse livro porque foi indicado para o vestibular da UFG, que vai ser realizado amanhã, gostei muito do enredo, li-o rapidamente, incrivelmente talentoso esse autor.