Guerrra e Paz

 

 

 

 

                        A Guerra é vermelha, como a fúria e o sangue que encerra.

                        A Paz é azul, como o céu límpido e a quietude que traz.

                        Não para Portinari.

                        Para ele a Guerra é azul, azuis profundos, sombrios, arroxeados, de dor e desespero.

                        A Paz é avermelhada, laranjas, amarelos, alguns azuis claros, como a vida ensolarada e radiante.

                        Foi assim que ele as concebeu nos seus painéis monumentais que pintou entre 1952 e 1956, para que o governo brasileiro doasse à sede da ONU em Nova Yorq, em cujo hall de entrada da Assembleia Geral se encontram desde então.

                        Não há no painel da Guerra uma única cena explícita de violência ou de batalha. Apenas expressões do sofrimento humano que a Guerra dissemina, enquanto um cavaleiro apocalíptico atravessa sinistramente o quadro.

                        A Paz está nas brincadeiras e na alegria das crianças, nos balanços, nos braços das mães, cantando, plantando bananeira. No trabalho sereno dos adultos, semeando a terra e colhendo os frutos. Outro cavalo, agora branco, vem na nossa direção, cavalgado em pelo por um homem jovem com um menino na garupa. Talvez a Paz seja a Brodowski do menino Candinho.

                        Foi o que vi ontem à noite, em completo êxtase, na apresentação dos painéis no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, graças ao convite muito especial que recebi de João Cândido Portinari, que depois de muitos anos de luta com o seu “Projeto Portinari” conseguiu finalmente, aproveitando-se da reforma do edifício sede da ONU e com o decidido apoio do atual governo, a guarda provisória dos painéis até 2013, para o seu restauro e exibição ao povo brasileiro, como desejava seu pai.

                        Os painéis só haviam sido exibidos no Brasil uma única vez no mesmo Theatro Municipal do Rio, por iniciativa do presidente Juscelino Kubitschek, em fevereiro de 1956, antes de seguirem para Nova Yorq.

                        Além da maravilha de poder contemplar os painéis de perto, assisti a apresentações maravilhosas de Milton Nascimento, acompanhado de vários músicos e cantores, e especialmente de Ana Botafogo e seu par, Alex Neorat, numa coreografia emocionante, encenando figuras dos painéis, culminando com a morte de Portinari, que já estava proibido de pintar e gravemente intoxicado pelas tintas quando recebeu o convite para fazer a obra. Disse aos médicos e à família que não poderia recusar, tampouco deixar de pintar, que era a razão da sua vida.

                        A sempre exata Fernanda Montenegro também se apresentou brevemente, ou melhor, fez a apresentação dos painéis e declamou com muita propriedade e categoria os versos de Drummond sobre a mão de Portinari.

                        Quando recebi o convite especial para a solenidade, a primeira reação foi a impossibilidade de vir ao Rio, numa terça-feira e nesta época atribulada de fim de ano.

                        Logo em seguida, porém, me acorreram as sábias palavras do Dabori quando a Bell me oferecia a chance de ir ao show de Paul McCartney e eu hesitava: “Tem oportunidade que não dá para perder…”. Como sou um paciente disciplinado (pelos menos dos médicos em que confio), tratei de seguir a orientação terapêutica.

                        E aqui estou eu, já me preparando para voltar a Ribeirão, depois de mais uma das benditas loucuras que tenho feito ultimamente.

                        Não me arrependo de nenhuma delas.

 

 

 

 

 

 

 

 

4 comentários

  1. 22/12/10 at 15:06

    Nada como ver arte no Rio de Janeiro, nem ouvir o quebrar das ondas no Arpoador. Quais são esses versos de Drummond ao Portinari?

  2. bellgama
    22/12/10 at 19:10

    Sou sua fã! bjo

  3. Carol
    23/12/10 at 21:29

    Pai eu e o shel comentamos com invejinha o gama ta aprontando todas esse ano…eee 2010 foi todo seu

  4. Lilian
    24/12/10 at 9:23

    Acredito que esta seja uma excelente filosofia de vida: “Tem oportunidade que não dá para perder”. Feliz é quem pode percebê-las e seguir o impulso do coração (ele está sempre certo).
    Feliz Natal, amigão querido! Pra você e para todos que você ama.

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