Posts from dezembro, 2010

A mão, o pintor e o poeta

 

 

 

 

                        O curioso e ilustrado jornalista Roberto Rockmann, com seu faro refinado não apenas para vinhos e comidas — este ano chegou a  desencavar, com artes investigativas dignas de Hercule Poirot, em textos ingleses pouco conhecidos de Salinger, que ele tanto adora, como teria morrido Holden Caulfield, o inesquecível protagonista de The catcher in the rye —, no seu comentário ao post sobre os painéis Guerra e Paz de Portinari quis saber mais sobre o poema que Drummond escreveu sobre a mão do grande pintor, dito com a costumeira classe por Fernanda Montenegro na solenidade realizada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a que tive a felicidade e o privilégio de assistir.

                        Antes de lhe satisfazer a curiosidade, ou para aguçá-la ainda mais, conto que quando estive na casa do João Cândido Portinari ele me levou a um recanto onde mantém recordações do pai. Logo me chamaram a atenção vários vasos, com uma grande quantidade de pincéis, de variados tamanhos e tipos, usados mas em perfeito estado de conservação, e ao lado uma escultura em gesso de uma delicada mão.

                       

 Eram os pincéis do mestre, nos mesmos vasos em que ele os guardava, e o molde de sua mão direita, tirado quando ele faleceu.

 Fiquei pasmado, olhando os pincéis, a mão, rascunhos, estudos, modelos em madeira, e muitas outras coisas mais.

 

 

                        A mão consta do livro Lição de Coisas, lançado em 1962, exatamente no ano em que morreu Portinari, mas Drummond publicou antes o poema apenas três dias depois da morte de Portinari e talvez — quem sabe? — pode tê-lo escrito sob o impacto de ver uma das cópias do molde da mão do pintor morto.

 

 

A MÃO

 

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

Entre o cafezal e o sonho

o garoto pinta uma estrela dourada

na parede da capela,

e nada mais resiste à mão pintora.

A mão cresce e pinta

o que não é para ser pintado mas sofrido.

A mão está sempre compondo

módul-murmurando

que escapou à fadiga da Criação

e revê ensaios de formas

e corrige o oblíquo pelo aéreo

e semeia margaridinhas de bem-querer no baú dos vencidos.

A mão cresce mais e faz

do mundo-como-se-repete o mundo que telequeremos

A mão sabe a cor da cor

e com ela veste o nu e o instável.

Tudo tem explicação porque tudo tem (nova) cor.

Tudo existe porque foi pintado à feição de laranja mágica

não para aplacar a sede dos companheiros,

principalmente para aguçá-la

até o limite do sentimento da Terra domicílio do homem.

 

Entre o sonho e o cafezal

entre guerra e paz

entre mártires, ofendidos,

músicos, jangadas, pandorgas,

entre os roceiros mecanizados de Israel

a memória de Giotto e o aroma primeiro do Brasil

entre o amor e o ofício

eis que a mão decide:

Todos os meninos, ainda os mais desgraçados,

sejam vertiginosamente felizes

como feliz é o retrato

múltiplo verde-róseo em duas gerações

da criança que balança como flor no cosmo

e torna humilde, serviçal e doméstica a mão excedente

em seu poder de encantação.

 

Agora há uma verdade sem angústia

mesmo no estar-angustiado.

O que era dor é flor, conhecimento

plástico do mundo.

E por assim haver disposto o essencial,

deixando o resto aos doutores de Bizâncio,

bruscamente se cala

e voa para nunca-mais

a mão infinita

a mão-de-olhos-azuis de Cândido Portinari.

 

                        No vídeo abaixo (a qualidade é precária), o poema dito pelo próprio Drummond e algumas imagens de Portinari pintando.

 

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=zSyUi43l6To]