O curioso e ilustrado jornalista Roberto Rockmann, com seu faro refinado não apenas para vinhos e comidas — este ano chegou a desencavar, com artes investigativas dignas de Hercule Poirot, em textos ingleses pouco conhecidos de Salinger, que ele tanto adora, como teria morrido Holden Caulfield, o inesquecível protagonista de The catcher in the rye —, no seu comentário ao post sobre os painéis Guerra e Paz de Portinari quis saber mais sobre o poema que Drummond escreveu sobre a mão do grande pintor, dito com a costumeira classe por Fernanda Montenegro na solenidade realizada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a que tive a felicidade e o privilégio de assistir.
Antes de lhe satisfazer a curiosidade, ou para aguçá-la ainda mais, conto que quando estive na casa do João Cândido Portinari ele me levou a um recanto onde mantém recordações do pai. Logo me chamaram a atenção vários vasos, com uma grande quantidade de pincéis, de variados tamanhos e tipos, usados mas em perfeito estado de conservação, e ao lado uma escultura em gesso de uma delicada mão.
Eram os pincéis do mestre, nos mesmos vasos em que ele os guardava, e o molde de sua mão direita, tirado quando ele faleceu.
Fiquei pasmado, olhando os pincéis, a mão, rascunhos, estudos, modelos em madeira, e muitas outras coisas mais.
A mão consta do livro Lição de Coisas, lançado em 1962, exatamente no ano em que morreu Portinari, mas Drummond publicou antes o poema apenas três dias depois da morte de Portinari e talvez — quem sabe? — pode tê-lo escrito sob o impacto de ver uma das cópias do molde da mão do pintor morto.
A MÃO
Carlos Drummond de Andrade
Entre o cafezal e o sonho
o garoto pinta uma estrela dourada
na parede da capela,
e nada mais resiste à mão pintora.
A mão cresce e pinta
o que não é para ser pintado mas sofrido.
A mão está sempre compondo
módul-murmurando
que escapou à fadiga da Criação
e revê ensaios de formas
e corrige o oblíquo pelo aéreo
e semeia margaridinhas de bem-querer no baú dos vencidos.
A mão cresce mais e faz
do mundo-como-se-repete o mundo que telequeremos
A mão sabe a cor da cor
e com ela veste o nu e o instável.
Tudo tem explicação porque tudo tem (nova) cor.
Tudo existe porque foi pintado à feição de laranja mágica
não para aplacar a sede dos companheiros,
principalmente para aguçá-la
até o limite do sentimento da Terra domicílio do homem.
Entre o sonho e o cafezal
entre guerra e paz
entre mártires, ofendidos,
músicos, jangadas, pandorgas,
entre os roceiros mecanizados de Israel
a memória de Giotto e o aroma primeiro do Brasil
entre o amor e o ofício
eis que a mão decide:
Todos os meninos, ainda os mais desgraçados,
sejam vertiginosamente felizes
como feliz é o retrato
múltiplo verde-róseo em duas gerações
da criança que balança como flor no cosmo
e torna humilde, serviçal e doméstica a mão excedente
em seu poder de encantação.
Agora há uma verdade sem angústia
mesmo no estar-angustiado.
O que era dor é flor, conhecimento
plástico do mundo.
E por assim haver disposto o essencial,
deixando o resto aos doutores de Bizâncio,
bruscamente se cala
e voa para nunca-mais
a mão infinita
a mão-de-olhos-azuis de Cândido Portinari.
No vídeo abaixo (a qualidade é precária), o poema dito pelo próprio Drummond e algumas imagens de Portinari pintando.
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