Trata-se de uma óbvia provocação, porém instigante, do amigo que sabe muito bem pisar o calo do outro.
Ao comentar o post A mão, o pintor e o poeta, que escrevi em resposta a uma indagação dele mesmo, Rockmann ataca outra vez: “O senhor, que é um estudioso da literatura, que acha do poema “José”, do Drummond. Quando ele diz “E agora, José?” está pensando na situação política do país? será que está fazendo um mea culpa de ter aderido ao Estado Novo?”.
O “senhor” é mais uma provocação, a que já me acostumei e relevo.
Mas a especulação sobre Drummond ter aderido ao Estado Novo — feita por muitos — não posso deixar passar em branco, e provavelmente Rockmann já saiba muito bem o que direi.
Convém esclarecer, desde logo, que não sou um estudioso da literatura. Sou apenas um leitor enlevado e intuitivo, e por isso mesmo assistemático e desorganizado.
Digo, pois, na condição pura e simples de leitor que raramente me agradam os escritores (e os artistas em geral) ditos engajados. Há pouquíssimas obras dessa vertente que ficaram, e as que permaneceram foram por méritos outros. Diria mesmo que malgrado o engajamento. Isso não significa que a arte seja ou deva ser um fim em si mesmo. A arte será sempre transformadora, e isso nada tem a ver com ideologia ou sectarismo.
Não apenas Drummond, mas outros escritores absolutamente geniais como Machado de Assis, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e mais recentemente Ferreira Gullar são com frequência acusados de alheamento, adesismo ou de serem reacionários.
O poema José de Carlos Drummond de Andrade tem como mote uma frase prosaica (há quem sustente também que com o tempo a sua poesia teria se tornado prosaica), um dito popular que reflete a incerteza ou o desalento em face das agruras, dos insucessos ou das decepções cotidianas: E agora José? José o homem comum, o nome comum, que nos representa a todos.
Um homem comum era o carpinteiro José, que já maduro se casou com a jovem Maria e se viu envolvido no mistério da Imaculada Conceição e na paixão daquele que seria o Filho do Senhor, cuja guarda lhe foi confiada. O que terá pensado, passado, sofrido, temido o pobre e rude José? E agora José?
A partir dessa indagação, dessa frase transformada em verso, Drummond desfia a sua — a nossa — perplexidade diante da vida e do mundo.
Drummond se dizia um poeta sem metafísica, mas não convém acreditar em tudo o que fala o poeta, que é um fingidor.
Em José e muitos outros poemas seus a metafísica, mesmo dissimulada, está presente. Já tratei disso em outro post (que por razões que desconheço é o mais acessado até hoje do blog), Carlos Drummond de Andrade e a máquina do mundo, publicado em 24/4/2009.
Quanto à adesão de Drummond ao Estado Novo de Vargas e ao suposto arrependimento posterior, que de algum modo estaria refletido no poema José, não me convenço minimamente, nem mesmo creio que uma e outro (a adesão e o arrependimento) tenham de fato ocorrido.
Ainda que haja anotado acima que não se deva tomar como verdade tudo o que o poeta diz em sua obra, a regra não se aplica ao homem, já no ocaso da vida, que rememora episódios vividos e reflete serenamente sobre si mesmo.
Dou portanto a palavra ao próprio Drummond, na sua última e talvez melhor entrevista concedida pouco antes de morrer a Geneton Moraes Neto e transformada no ótimo Dossiê Drummond, a que também já me referi aqui.
Ao ser indagado por que durante tantos anos havia se resguardado de aparecer em público e dar entrevistas, explicou:
Aparentemente é verdade. Mas na realidade, não é bem assim. É que eu mudei de profissão. Fui chefe de gabinete do ministro da Educação, o meu amigo Capanema, de 1934 a 1945. Nesse período, eu não podia aparecer dando entrevistas porque a minha função exigia um certo resguardo. Mas eu tinha as portas abertas na minha sala de trabalho. Os jornalistas, os repórteres e as outras pessoas que iam me procurar sabiam que eu era uma pessoa fácil de conversar. Era meu dever atender a todo mundo. Isso passou despercebido às pessoas que acham que eu me fechei em copas.
A partir de 1945, tive uma atuação política muito curta e muito decepcionante, me incorporando ao Partido Comunista, embora eu não me alistasse no Partido. Fui simpatizante efetivo e atuante. Fui co-diretor de um jornal comunista. E esse período foi também frustrante [Depois de deixar a chefia de gabinete do ministro Gustavo Capanema, Drummond é convidado por Luís Carlos Prestes para ocupar o cargo de co-diretor do diário comunista Tribuna Popular. Aceita. Poucos meses depois, afasta-se por discordar da orientação do jornal.]
Tentei comparecer a atos públicos, tentei realmente participar da atividade comunista, mas, depois de alguns meses, me desencantei. A partir de então, me cerrei, porque, terminada a minha vida de funcionário público e de ativista político e iniciada a de puramente jornalista, achei que, ao dar as minhas opiniões e meus palpites — que nunca me neguei a dar — na minha crônica e no meu palmo de coluna assinado, eu mantinha o contato com o público, o que era o mais correto.
Eu me recusava a participar de atos públicos porque, por minha natureza, não gosto, não sou pessoa inclinada a fazer vida social e participar de almoço, jantar, coquetel e festa. Então, me fechei, nesse sentido. Toda vez que um repórter me procurava para pedir uma opinião, eu dizia assim: “A minha opinião saiu na minha coluna”.
Perguntado sobre a causa política com que simpatizava na época e se o Partido Verde o entusiasmava, responde com alguma ironia, que lhe é peculiar:
Acho o Partido Verde muito limitado. Por que somente verde? Eu seria partidário de todas as cores do arco-íris: vermelho vivo do sangue que palpita nas artérias ao azul do céu. O partido que eu gostaria de ver implantado no Brasil, com condições de realmente assumir o poder ou de partilhar o poder com partidos mais burgueses, seria o Partido Socialista.
Finalmente, para não me alongar em demasia, em outro trecho da entrevista em que trata das duras críticas que recebeu e se teria se magoado, relata:
Não, não. Eu ficava um pouco chateado quando moço, com a história da “pedra no caminho”, porque tinha uma certa conotação política. Como meu cargo era de confiança do ministro, muitas vezes chegavam até o chefe de gabinete… [Drummond foi chefe de gabinete do ministro da Educação e da Saúde Pública, Gustavo Capanema, no primeiro governo de Getúlio Vargas] Então, me esculhambavam e me acusavam de favoritismo político e de arranjar nomeação de pessoas para falarem bem de mim nos jornais, o que é absolutamente falso. Eu não tinha poder para isso! Era um homem de confiança do ministro. Ele foi meu colega de colégio. Éramos íntimos amigos. Eu não trairia a confiança de Gustavo Capanema fazendo coisas assim. Ele era homem muito arguto: perceberia logo que eu estava fazendo mal uso.
Eu não tinha acesso ao presidente da República ou aos ministros. Era um secretário do ministro, essa é que é a verdade. Durante os onze anos que trabalhei com Gustavo nunca tive a oportunidade de substituí-lo. Ele não viajava quase nunca. Quando viajava, era um ministro qualquer — não me lembro qual era — que o substituía interinamente. Mas depois que saí do Ministério, aconteceu de o chefe de gabinete ser eventualmente o ministro interino. Nunca subi a essas alturas e nunca tive oportunidade de conversar com Getúlio, embora fosse acusado de poeta ligado ao Estado Novo. Eu não tinha nada com o Estado Novo!”.
Uma derradeira observação: José integra o livro Sentimento do Mundo, publicado em 1940, a que se seguiu A Rosa do Povo, em 1945, nos quais estão os poemas considerados mais “ativistas” ou “políticos” de Drummond, escritos em pleno período da Segunda Guerra Mundial e da ditadura Vargas, sob o impacto do regime de terror implantado pelo nazifascismo (logo depois também pelo comunismo) e diante da necessidade de reconstrução do humano, como paradigma e referencial ético, que me parece ter sido sempre a preocupação básica da poesia drummoniana, e também do homem — certamente imperfeito, mas admirável — que a laborou.
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Quanta informação! Imagino que o senhor passe as noites acordado, para saber de tudo isso… Muito provavelmente esta é uma (das muitas) vantagens dos homens sobre as mulheres: poderem dedicar-se à leitura enquanto nós pensamos em supermercado, varejão, roupas para lavar e a casa, que deve estar “sempre” impecável. Depois de tudo isso, deito um pouco no sofá para assistir algum dos meus seriados preferidos e acordo horas depois… Assim, os livros vão se acumulando, os cds e dvds também. Mas não perco a esperança! Acredito que chegará o dia em que me entenderei com todas essas coisas me esperando!
Mas, “E agora, José?” é uma pergunta que nos fazemos todos os dias, principalmente agora, nesses tempos corridos, mutável a todo momento. Não sei se me considero privilegiada por compartilhar todas essas mudanças ou se melhor seria estar noutras órbitas. De qualquer forma, FELIZ ANO NOVO!