Viva a vitória do bom caráter no futebol, nas Pílulas.
Viva a vitória do bom caráter no futebol, nas Pílulas.
Para a Lilian, que anda tristonha ultimamente.
Primeiro, a felicidade é singular (diria que personalíssima), definida no Dicionário Houaiss como a qualidade ou estado de feliz; estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, contentamento, bem-estar. Portanto, não deseje “felicidades” a ninguém, pelo menos se não quiser errar na gramática.
Mas, muito além da gramática, será que tal qualidade ou estado pode ser permanente, ou ainda, será que a felicidade é humanamente possível?
Em Ética a Nicômaco, afirma Aristóteles que a felicidade é o fim maior da natureza humana, um bem supremo que a existência humana deseja e persegue. Esclarece, todavia, que a felicidade depende dos bens exteriores para ser realizada, assim é na busca da felicidade que se justifica a boa ação humana. Nessa concepção, os outros bens são apenas meios para atingir o bem maior da felicidade.
O grande filósofo espanhol Julián Mariás, discípulo de Ortega Y Gasset, tem um livro fundamental a esse respeito intitulado A Felicidade Humana (A felicidade humana — tradução de Diva Ribeiro de Toledo Piza — São Paulo: Duas Cidades, 1989) em que discorre longamente sobre o que ela seria e o que esperarmos dela. Logo no início fala sobre a sua preocupação com uma situação frequente no pensamento do nosso tempo, que ele chama de as “grandes ausências”.
“Quero dizer que há certas questões que se evitam sistematicamente, e que costumam ser das mais importantes. Anos atrás surpreendi-me ao notar que em uma excelente e extensa Enciclopédia não constava o artigo “Amor”. (Algum tempo depois comentei com seu diretor o que me parecia escandaloso, e pediu-me ele que escrevesse tal artigo para o Suplemento; senti-me obrigado e o fiz.) Isto levou-me a olhar algumas das mais ilustres Enciclopédias, sem excluir a Britannica, e encontrei a ausência de “Amor” em suas milhares de páginas. Em compensação, naquele admirável e velho Deccionario Enciclopédido Hispano_Americano, que se publicou etre 1887 e 1899, em vinte e cinco grandes volumes — e do qual costumo socorrer-me em arribação forçada depois de consultar a mais presunçosa bibliografia em várias línguas —, havia um longo e minucioso artigo sobre o amor.”
Ocorre algo parecido com outros temas capitais, como a felicidade, sobre a qual, no fecho da obra, resume suas concepções:
“Como vemos, há dilatações ou contrações e estreitamentos da vida. Creio que se deve tomar posse integral do que nos dá nossa condição, e a ilusão é um fator decisivo para chegar à felicidade. Tem pressupostos, primariamente antropológicos. Provavelmente não tem sentido aplicada ao animal, que pode ter prazer, bem-estar, alegria, mas não propriamente felicidade. Para o homem é um impossível necessário: não podemos renunciar a ela, porém, pelos menos na terra, é impossível.
Apresenta-se-nos como uma empresa humana. Frustrada? Em certa medida sim, mas própria dessa criatura que nós somos, os homens. O homem é uma realidade utópica, que é e não é, que é o que ainda não é e talvez não possa ser. Consiste em ser uma realidade projetiva, futuriça, anelante, nunca conseguida, nunca conclusa, em suma, utópica. A isso precisamente corresponde a felicidade como impossível necessário. Nossa vida consiste no esforço por alcançar parcelas, ilhas de felicidade, antecipações da felicidade plena. E esse intento de procurar a felicidade se nutre de ilusão, a qual, por sua vez, já é uma forma de felicidade.”
Gilberto de Mello Kujawski, também orteguiano e amigo de Julián Mariás, no seu novo livro, O sentido da vida (O sentido da vida — transforma-te em quem és — 1ª ed. — São Paulo: Gaia, 2010) entre outras reflexões luminosas, aborda o problema da felicidade de maneira magistral e com a clareza que é a cortesia dos grandes filósofos, conforme assinalava Ortega:
“O homem às vezes é racional, outras é perfeitamente irracional. A racionalidade no ser humano é uma tendência, uma pretensão, uma utopia.
Então por que nos dizermos humanos, sociáveis e racionais? Porque sem essas três pretensões, esses três ideais, essas três utopias, o homem não cresce, não adquire sua forma e figura, não progride para melhor.
A felicidade é a mesma coisa. Pura pretensão, vivente utopia, ideal inalcançável em toda sua plenitude, mas sem o qual nossa humanidade não poderia respirar. A felicidade, como bem diz Julián Marías, é o “impossível necessário”. Não podemos apresá-la e nos apropriarmos dela para sempre, mas tudo o que fazemos, a toda hora e durante nossa vida inteira, é para consegui-la.
Sem a utopia da felicidade, também não seríamos humanos, à semelhança do que ocorre com a utopia da humanidade, da sociedade e da racionalidade.
A felicidade nos é dada pelas “razões líricas” a que se refere Ortega, isto é, por aquelas opções que tomam conta de nós sem nenhuma razão aparente, uma afinidade eletiva, nascida no mais íntimo de nós, aquela mulher que amamos, aquela viagem que esperamos, aquela aventura que nos arrebata, aquele lugar que escolhemos para morar. A felicidade, trocada em miúdos, se apóia nas razões líricas, e se ela não é segura nem duradoura, “é eterna enquanto dura”. E a própria vocação , em seu apelo compulsivo e espontâneo, não passa de uma razão lírica maior.
O copo meio vazio e meio cheio, dissemos acima. Assim é a felicidade. Mas se o copo não está meio cheio, como poderíamos matar a sede?”
Não sei se inspirado nessas lições ou em outras semelhantes, o senador Cristovam Buarque, intelectual sério e um homem respeitável, para mim um dos melhores quadros dos nossos políticos, após realizar uma audiência pública no Senado para discutir a viabilidade de se incluir formalmente na Constituição da República, o direito fundamental à felicidade, acabou por apresentar um Projeto de Emenda Constitucional, que se tornou conhecida como PEC da Felicidade, a qual propõe alterar a redação do artigo 6º da Carta de 1988, que passaria a vigorar com o seguinte teor: “São direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.”
O próprio Cristovam Buarque admite que essa modificação do dispositivo constitucional não tem efeito prático no sentido de que o governo fique obrigado a criar projetos com o único objetivo de garantir a felicidade dos cidadãos. O objetivo seria subjetivo, ao gravar no imaginário da sociedade a importância da dignidade humana. “Você personaliza os direitos”, explicou o senador:“Não aumenta o direito do cidadão, aumenta a força dos direitos que ele já tem”.
A nossa atual Constituição, fruto do porre democrático pós-ditadura, contém tantos casuísmos, tantos exageros, tantas utopias que, francamente, tenho grande simpatia por essa emenda, embora me veja obrigado a suportar a gozação de um amigo dileto, o qual me diz que diante do que já consta do artigo 6º é inconstitucional ficar doente, morrer. não ter emprego, casa ou lazer, ser assaltado, e também passará a ser inconstitucional sentir-se infeliz, por uma dor de cotovelo, pela derrota do nosso time ou o que seja…
O Ministro Celso de Mello do Supremo Tribunal Federal, nos autos da ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade) nº 3300/DF, em que se discutia a união estável homossexual, reconheceu o direito à busca da felicidade como princípio fundamental, nos seguintes termos:
“Não obstante as razões de ordem estritamente formal, que tornam insuscetível de conhecimento a presente ação direta, mas considerando a extrema importância jurídico-social da matéria — cuja apreciação talvez pudesse viabilizar-se em sede de arguição de descumprimento de preceito fundamental —, cumpre registrar, quanto à tese sustentada pelas entidades autoras, que o magistério da doutrina, apoiando-se em valiosa hermenêutica construtiva, utilizando-se da analogia e invocando princípios fundamentais (como os da dignidade da pessoa humana, da liberdade, da autodeterminação, da igualdade, do pluralismo, da intimidade, da não-discriminação e da busca da felicidade), tem revelado admirável percepção do alto significado de que se revestem tanto o reconhecimento do direito personalíssimo à orientação sexual, de um lado, quanto a proclamação da legitimidade ético-jurídica da união homoafetiva como entidade familiar, de outro, em ordem a permitir que se extraiam, em favor de parceiros homossexuais, relevantes conseqüências no plano do Direito e na esfera das relações sociais”.
Retomando as “razões líricas” a que se refere Gilberto de Mello Kujawski, salto para o plano da cultura popular e da literatura, por que tanto me interesso, para lembrar de alguns exemplos que, intuitiva ou refletidamente, com mais ou menos talento, falam da felicidade de modo aproximado ao que pensam os mencionados filósofos.
No mais recente filme de Arnaldo Jabor, “A Suprema Felicidade” — tão criticado pelos patrulheiros rancorosos e pelos idiotas da objetividade, como diria Nelson Rodrigues — o sempre esplêndido Marco Nanini, numa cena de rara ternura e sensibilidade, confidencia ao neto menino que a felicidade não existe e que na vida o máximo que se consegue é ser alegre, ou seja, gostar de viver.
O cantor e compositor Odair José, considerado um dos reis do brega — autor de verdadeiras pérolas como o hit “Pare de tomar a pílula” — numa outra canção de muito sucesso, denominada A noite mais linda do mundo (A felicidade), verseja:
Felicidade
não existe
o que existe na vida
são momentos felizes.
Já Vinicius de Moraes, em parceria com Tom Jobim, na antológica A Felicidade, composta para a célebre peça Orfeu Negro, canta:
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor
A felicidade é uma coisa louca
E tão delicada também
Tem flores e amores
De todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo de bom ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato dela sempre muito bem
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor
Por fim um soneto clássico, dos mais belos e perfeitos, de autoria do grande poeta Vicente de Carvalho, que sei de cor desde os oito ou nove anos de tanto ouvir meu pai dizê-lo para nós, em família:
Velho Tema I
Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
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