Talvez quando nasci, um outro anjo torto tenha saído das sombras e dito: “Vai, Antonio Carlos! ser desagendado na vida”.
A cumprir sua profecia, tenho passado os dias desagendado e desajeitadamente.
Invejo todos aqueles que, além de ajeitados, mantêm agendas impolutas ano a ano, organizando e facilitando a vida cotidiana. Nunca fui capaz disso. Sou absolutamente inepto em relação às agendas, e muitas outras coisas mais.
Conheço várias pessoas que não vivem sem sua agenda, em que caprichosamente anotam os compromissos, aniversários, efemérides, afixam boletos e carnês no dia em que deverão ser pagos, e ainda se dão ao luxo de deixar alguns comentários e impressões à posteridade.
A cada final de ano recebo um grande número de agendas como brinde, algumas lindíssimas, de rica confecção. A grande maioria delas repasso aos que têm competência e talento para utilizá-las. Às vezes mantenho uma ou outra pela beleza, mas permanecem imaculadas, ou quando muito com escritos que nada têm a ver com o seu fim.
Não sou, porém, desorganizado. Muito pelo contrário. Mas as agendas definitivamente não fazem parte da minha arrumação.
No início da minha carreira de promotor de justiça, nos idos da década dos 70, do século passado (!), um Corregedor Geral do Ministério Público, à falta do que fazer ou em vez de fazer o que da fato devesse, baixou uma extensa e insólita portaria instituindo a obrigatoriedade de que todos os promotores (de primeira instância, é claro, já que os seus preclaros pares procuradores lhe dariam uma banana) mantivessem uma agenda e um fichário para anotar as audiências, os prazos e o trâmite dos processos, sob pena de incorrer em grave infração administrativa. A tal portaria era de um ridículo atroz, chegando a prelecionar longamente como manter a agenda e o fichário, denominando os promotores agendados e fichados como “consulentes atentos”.
Naquela prisca época — que remédio! — fui obrigado a manter uma agenda, que nunca chegou a ser corrigida pelo eminente Corregedor.
Na verdade, posso confessar agora, simulei ser um “consulente atento”, já que era uma funcionária solícita do cartório que se dispunha a fazer as anotações na agenda e no fichário, que raramente eu verificava. A comarca era pequena, com pouco movimento, e tinha na cabeça todos os processos criminais e cíveis em que atuava. Mesmo depois, quando o ilustre Corregedor já não corrigia, e estava eu em exercício em comarcas ou varas trabalhosas, sempre me utilizei de outros meios para acompanhar processos e prazos, e jamais tive ou causei problemas nesse aspecto. Assim continuo agora como advogado e professor.
Na vida pessoal, raramente me esqueço de efetuar um pagamento na data aprazada ou de cumprir um compromisso.
Além de livros e livrarias, adoro uma boa papelaria, com cadernos e papéis diferenciados, lápis, canetinhas, apontadores, que vivo a comprar.
Mas continuo desagendado e desajeitado, a cumprir fielmente os desígnios do meu anjo torto.
P.S. Com ou sem agenda, que em 2011 todas as nossas aspirações se cumpram, linha a linha.