Paulo Coelho anunciou que os seus livros foram proibidos pelo governo do Irã e que tal medida estaria relacionada com a perseguição que tem sofrido o seu editor iraniano desde que testemunhou um assassinato em Teerã, durante os protestos contra a reeleição do presidente Ahmadinejad, acusado de fraude pela oposição.
Não morro de amores por Paulo Coelho, nem pelos seus livros. Até que tentei ler alguns, mas nunca consegui ir além de trinta ou quarenta páginas. Ele não escreve de todo mal, mas o que escreve me soa falso e artificial (o que nada tem a ver com ficção, que só é boa quando convincente, por mais delirante e fantástica), como me parece falsa e artificial a sua persona de mago.
De todo modo, supondo-se que a notícia seja verdadeira e não mais um golpe de marketing do grande alquimista (os maldosos dizem que transforma merda em dinheiro), a proibição de um livro, de qualquer livro, é sempre lastimável, um crime lesa-humanidade. Melhor qualquer livro, do que livro nenhum.
A Rainha de Copas das Aventuras de Alice no País das Maravilhas (um dos meus livros preferidos), sempre que se sente contrariada, ordena imediatamente que se cortem as cabeças dos que a incomodam.
Proibir livros, que é cortar cabeças de quem desagrada, contesta ou pensa diferente, sempre foi atitude típica de tiranos, regimes ou espíritos autoritários, entre os quais a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana.
Mario Vargas Lhosa (este sim, um grande escritor, embora muitos lhe queiram cortar a cabeça por suas ideias políticas), no seu maravilhoso discurso de aceitação do prêmio Nobel de Literatura, cujo título é Elogio da Leitura e da Ficção, abordou com lucidez a questão:
Sem as ficções seríamos menos conscientes da importância da liberdade para que a vida seja suportável e do inferno em que ela se converte quando dominada por um tirano, uma ideologia ou uma religião. Quem duvida que a literatura, além de nos levar ao sonho da beleza e da felicidade, nos alerta contra toda forma de opressão, pergunte por que todos os regimes empenhados em controlar a conduta dos cidadãos, do berço ao túmulo, a temem tanto a ponto de estabelecerem regras de censura para reprimi-la.
[…]
Fazem isso porque sabem o risco que correm ao deixarem que a imaginação flua pelos livros.
[…]
Queiram ou não, saibam disso ou não, os criadores de fábulas, ao inventar histórias, propagam a insatisfação, mostrando que o mundo é mal feito, que a vida da fantasia é mais rica que a rotina cotidiana. Essa constatação cria raízes na sensibilidade e na consciência, torna os cidadãos mais difíceis de manipular.
[…]
A boa literatura cria pontes entres pessoas diferentes […], nos une sobre as barreiras das línguas, crenças, usos, costumes e preconceitos que nos separam.
Quando a grande baleia branca sepulta o capitão Ahab no mar, o coração dos leitores se oprime do mesmo modo em Tóquio, Lima ou Tombuctu.
[…]
A literatura cria uma fraternidade dentro da diversidade humana e apaga as fronteiras que erguem entre os homens e mulheres a ignorância, as ideologias, as religiões, os idiomas e a estupidez.
Um colega professor, que sabe da minha paixão pela literatura, repassou-me um texto do escritor e editor José Godoy, mestre em teoria literária pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), intitulado Queimem os livros!, em que anota num dos tópicos:
Em frente à Universidade Humboldt, em Berlim, os passantes param e contemplam um quadrado de vidro, que interrompe o calçamento de pedras. A superfície revela então uma série de estantes vazias, agrupadas sob nossos pés inocentes. Foi esse o modo do povo alemão lembrar a todos a noite da queima de livros em 1933. A população berlinense compareceu em massa naquela noite em Bebelplatz. Fala-se em mais de 20 mil exemplares dos títulos da lista preparada pelo bibliotecário Wolfgang Hermann, lançados à fogueira. A epígrafe de Heine — um dos autores cuja obra ardeu nas chamas —, próxima ao monumento, talvez seja a melhor definição para o fato: “Onde se queimam livros, no final também queimam-se pessoas”.
E encerra reportando-se ao comunicado com que Mark Twain abre As Aventuras de Huckleberry Finn (que, aliás, a exemplo de Monteiro Lobato, está sendo patrulhado e “reescrito” pela sanha do politicamente correto): “Pessoas que tentem encontrar um motivo nesta narrativa serão processadas. Pessoas que tentem encontrar uma moral serão banidas. Pessoas que tentem encontrar uma trama serão baleadas. — Por ordem do autor”.
Olá meu caro Antonio Carlos Augusto, plenamente de acordo com tudo o que você escreveu. O Paulo Coelho faz belas “cópias” de textos bíblicos, religiosos e fábulas alheias. Mesmo assim, proibir seus livros (ou qualquer livro) é um crime mortal contra a humanidade. Essa imagem, nos mostra a loucura que o ser humano é capaz, penitência paga em nome dos loucos que já povoaram a Alemanha. Paz e harmonia em seus dias.
forte abraço
C@urosa
Meu caro Carlos Rosa
É sempre muito bom receber gente nova no blog, em especial quem o enriquece com comentários como os seus.
Seja bem-vindo, pois, e continue em órbita conosco. Entrei no seu blog e gostei muito. Parece que temos muita coisa em comum.
Um abraço.
Quando vejo o senhor escrevendo assim, nem sei o que dizer…
Adorei as citações; suas crônicas ampliam os meus horizontes.
Muito obrigada!