A vida e o mundo são replenos de tragédias, infortúnios e sofrimentos que nos deixam perplexos e inermes na nossa pequenez e insignificância.
Não se trata de adotar o comportamento das avestruzes, que enfiam a cabeça num buraco para se esconder, mas a exploração diuturna e nauseabunda dessas tragédias pela mídia televisiva é outra tragédia da nossa sociedade.
Claro que os meios de comunicação têm o papel e o dever altamente relevante de informar, noticiar, prevenir, ajudar a conscientizar, denunciar falhas, cobrar providências, mas não são esses os propósitos que sobrelevam nas coberturas massivas e massacrantes dos canais de televisão.
O que vem em primeiríssimo lugar é o espetáculo da desgraça, da dor e do sofrimento, das imagens chocantes reproduzidas continuamente, até que outras tragédias e infortúnios tão ou mais espetaculosos sobrevenham.
O poema abaixo já foi publicado neste blog, mas torno a postá-lo porque me parece que esta seja a sua hora. Muitas vezes acontece isso: escreve-se algo que só mais tarde parece ganhar força e encontrar o seu verdadeiro momento.
Soneto aguado
Para Gilberto Kujawski e seu sábio amigo Lopo Noronha
Se não chovem canivetes ainda,
chove a cântaros, cujo barro se rachou
derramando toda a água sobre a Terra
embarrada, emburrada, desavinda.
It’s raining cats and dogs!
Log a internet, ligue a televisão,
para a ver o dilúvio que lá fora
assola em meio a tanta desolação.
Atenção, Noés de plantão, suas arcas
arcarão? Para nós haverá salvação,
reles bichos ao rés do chão?
O mundo se liquefez, fluido e rarefeito
e bracejamos nessa liquidez
sem assomar para o quê somos feitos.