Águas de Janeiro

 

 

 

 

                       As águas deste janeiro tempestuoso levaram junto com pau, pedra e lama a casa em São José do Vale do Rio Preto, no sítio Poço Fundo, onde Tom Jobim se refugiava nas férias e compôs, entre outras preciosidades, a monumental Águas de Março.

                       Conta-se que Tom Jobim, num encontro que teve com Carlos Drummond de Andrade, pediu a este que lhe indicasse um bom dicionário de rimas para que consultasse quando da feitura das letras de suas músicas. E o poeta lhe respondeu:

                       — Quem escreveu Águas de Março não precisa de dicionário de rimas.

                       A letra de Águas de Março — que é primorosa, assim como a melodia, — retrata as chuvas, as coisas, os acontecimentos e o que sentia Tom Jobim nas temporadas que passava na casa agora destruída. O carro quebrado é aquele em que viajava João Gilberto para visitar o amigo Tom.

                      Imagino João Gilberto, com seu indefectível terninho marrom e suas idiossincrasias, sendo obrigado a saltar do automóvel e enfiar o pé no barro em busca de socorro. Como ele não dirige, pode ser também que tenha ficado no carro à espera, afinando o violão, enquanto o motorista se encarregava de resolver o problema.

                      A casinha de Tom se foi.

                       É o fim do caminho?

                       Creio que não. Como o quarto de Manuel Bandeira na casa demolida do velho beco da Lapa, a casinha de Tom Jobim vai ficar:

 

                                             Não como forma imperfeita

                                             Neste mundo de aparências:

                                             Vai ficar na eternidade,

                                             Com seus livros, com seus quadros,

                                             Intacto, suspenso no ar!

                           

                       E quanto as águas de março fecharem o verão, sempre restará a promessa de vida no nosso coração.

 

 

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=srfP2JlH6ls&feature=player_embedded]

 

 

 

2 comentários

  1. c@urosa
    16/01/11 at 14:45

    Pois é, meu bom amigo Antonio Carlos Augusto, que as águas de março sejam mais brandas. As de janeiro, nos trouxeram muita agonia e tristeza.
    Esqueçamos as tristezas!Que belo,eterno e magistral encontro músical. Uma bela escolha, parabéns.

    forte abraço

    C@urosa

  2. Lilian
    18/01/11 at 16:34

    Também achei extremamente chocante essa foto da casa despencando, exibida nas primeiras páginas dos jornais. Junto com o sofrimento das pessoas que perderam algo, lá se foi também parte da nossa história recente, porque um músico como Tom Jobim não é sempre que aparece.

Deixe um comentário

Yay! You have decided to leave a comment. That is fantastic! Please keep in mind that comments are moderated. Thanks for dropping by!