Quando estive no Rio, de afogadilho, para assistir à apresentação dos painéis “Guerra e Paz” de Portinari no Theatro Municipal, descobri por acaso a “Travessa dos Poetas de Calçada”.
Foi assim.
Logo depois de dar entrada no hotel, por volta das 10 horas, tomei um táxi e fui direto ao Theatro Municipal para pegar o meu convite, conforme instruções que havia recebido.
Soube então que a retirada dos convites não era na bilheteria do Theatro, como imaginava, mas sim num outro prédio ao lado. A minha ansiedade era tanta, que cheguei entes da equipe encarregada da entrega dos convites.
Enquanto esperava, para matar o tempo, saí a andar pelas imediações, dando vazão ao meu espírito de flâneur quando me vejo numa cidade desconhecida. O Rio não me é totalmente estranha, pelo contrário, mas a bem de ver todas as cidades, por mais que as conheçamos, sempre nos reservam surpresas, como uma amante caprichosa e sedutora.
Caminhei pela Avenida Treze de Maio e pela Rua Senador Dantas até que numa esquina deparei com uma tabuleta do restaurante Al Kwait, que se denomina o árabe mais antigo do Rio, anunciando as especiarias que minha avó materna fazia como ninguém.
O restaurante ainda não estava aberto para o almoço àquela hora da manhã, mas servia algumas guloseimas, como quibes e esfihas, num balcão e nas mesas da calçada. Sentei-me numa delas e pedi uma coalhada, um suco de laranja e um café.
Súbito, ao olhar a placa da indicação do local, me surpreendi-e emocionei ao ver que estava na Travessa dos Poetas de Calçada, um desses becos do centro do Rio em que provavelmente muitos passam sem dar a mínima atenção ao nome. Não havia na placa explicação alguma sobre os tais poetas de calçada. Aos que perguntei, garçons e pessoas que por ali estavam, ningúem sabia de nada.
Anotei o nome e o local para verificar depois, com mais calma.
Hoje retornei lá, mas as informações que colhi foram mesmo na internet e, aliás, são poucas.
Consta que nos anos 70 um poeta chamado Gilson escrevia poemas com giz em tapumes naquelas cercanias. Descobri, também, que Drummond trabalhava próximo dali, no Castelo, mas certamente o nome da travessa deve ser muito anterior aos dois.
Pouco importa. O que interessa é a maravilha do nome da travessa e para onde ele transporta a nossa imaginação.
Quem seriam os poetas de calçada? Poetas sem teto, que viviam pelas calçadas do beco?
Ou será que apenas se reuniam naquele beco para dizer e escrever seus poemas? Uma confraria?
Haveria ali uma feira de poesia, com bancas de poemas fresquinhos (segundo o estilo), como nas feiras livres, para vender aos apaixonados ou vaidosos que apresentariam como seus às amadas ou nos saraus? Se houvesse, aconteceria também aquela hora da xepa do final das feiras, quando os produtos não vendidos ou rejeitados são vendidos mais baratos?
Quando foi isso?
Rubem Fonseca, que infelizmente tem escrito muita porcaria nos últimos tempos — seu mais recente romance (?) “O Seminarista” chega a ser constrangedor —, mas que sem dúvida é um grande mestre da narrativa, tem um conto antológico, recentemente reeditado pela Editora Agir, intitulado “A arte de andar pelas ruas do Rio de Janeiro”, em que o personagem Augusto Epifânio é um emérito perambulante do centro do Rio, mas não consta que ande pela Travessa dos Poetas de Calçada.
Eu, pobre homem da póvoa do Bexiga e do São Sebastião do Ribeirão Preto, é quem fui andar por lá.
Pois é, meu caro amigo Antonio Carlos Augusto, na verdade, essa travessa é um lugar “mágico” e, na minha opinião, o caminho de todos os poetas e amantes da poesia. Que bela descoberta! Na minha próxima ida ao Rio, vou passar por lá.
forte abraço
C@urosa
Antes do arrasa quarteirão “Tropa de Elite” não dava importância para os filmes nacionais, aos quais atribuía a má fama de serem meros (e desonestos) destinatários do dinheiro mal aplicado do governo, via Ministério da Cultura. O(s) Tropa de Elite fez-me ver as coisas de outro modo, fiquei fã do cinema e, principalmente, do Wagner Moura (aquela voz narrando o filme é demais…)
Mas, ouvi contar que num filme em que aparece a Fernanda Montenegro, ela se prestou a escrever (e ler?) cartas para algum analfabeto.
Talvez, como bem disse o senhor no texto, esses Poetas de Calçada tenham servido, em algum tempo remoto, para transmitir as impressões e sentimentos de outras pessoas que não podiam fazê-lo.
Eu conheço a Travessa dos Poetas de Calçada no Rio. Em Paris, entre 1976 e 1995, convivi ao lado de uns poetas de rua, sempre cheios de cerveja, que chegavam de repente nos bares e começavam a declamar. Isto ali para o lado do Chatelet, ao lado do Centro Beaubourg, que ao ser construído quase que acabou com os botequins que existiam na área. Mas salvaram-se alguns, aonde esses poetas recitavam. Um especialmente que no momento não me lembro o nome , enquanto eu lá estava ficou meu amigo. Tenho o nome dele em casa. Era um artista marginal por opção. Fazendo suas publicações em xerox.
Eu sou artista plástico, mas sempre também escrevi poesias. E já recitei não exatamente na rua,mas em espetáculos, em clubes. E o bom disso tudo é a gente sair recitando de improviso em qualquer lugar. Tenho a impressão que os poetas da Travessa dos Poetas de Calçada era mais ou menos assim. Para sabermos o que acontecia ali num tempo remoto teremos de consultar os cronistas do final do século XIX e início do século XX. Como Machado de Assis, Manuel Antonio de Almeida, um cronista que foi um dos primeiros tradutores de Oscar Wilde para a língua portuguêsa do Brasil. Era um mulato sofisticado que fazia parte da Academia Brasileira de Letras. E no momento esqueci o nome dele, mas tenho anotado em casa. E outros cronistas em jornais da época no Rio.
Em Recife , por exemplo, eu soube de uma poetisa , traduzida para o francês que recitava nas ruas recifenses. Seu nome também não me lembro agora está anotado em casa.
Em relação aos poetas de calçada uma das coisas que se pode fazer é ir na Prefeitura do Rio, na Cidade Nova, talvez no 10º ou 11º andar do prédio principal e saber se figura nas relações das ruas o título Travessa dos Poetas de Calçada. E se tentar descobrir em que ano isso foi feito, se foi feito. O serviço que fazia isso na Prefeitura chamava-se antigamente Nomenclatura. Ou então procurar n as ruas que fazem ligação com essa Travessa, em que ano receberam nomes. Ou a data da Travessa dos Poetas de Calçada mesmo. E talvez com essa data, se é que se possa conseguir, pesquisar jornais da época com seus respectivos cronistas, etc. É tudo que posso dizer sobre isso.E até breve.
Vim aqui nesta página porque procurava também poetas de calçada, agora vou acessar poetas de rua.
Eis aí as informações sobre a Travessa dos Poetas, é só clicar no link:
http://robertoandersonmagalhaes.blogspot.com.br/2010/04/travessa-dos-poetas-da-calcada.html
Abraços a todos