Posts from janeiro, 2011

O fascínio do Rio

 

 

 

                        Última noite no Rio destas nossas férias. Por certo não a última das muitas que ainda haveremos de passar aqui.

                        Como em toda véspera de viagem, Maria Delucena fica ansiosa, quer arrumar as malas, deixar tudo pronto com antecedência, dormir mais cedo.

                        Assim, já me acostumei nas nossas viagens a desfrutar sozinho da última noite, enquanto ela se recolhe em sua aflita expectativa da volta.

                        Hoje, resolvi assistir ao filme Tetro, que Coppola filmou na Argentina e há muito tempo persigo sem sucesso. Havia visto que estava em cartaz numa das três pequenas salas de exibição do Centro Cultural Laura Alvim, mantido na antiga e maravilhosa casa da família Alvim, doada ao Estado para essa finalidade, que fica à altura do Posto 8, em Ipanema. Só o casarão em si, muito bem conservado, assobradado, com uma ampla varanda na parte de cima com vista para a praia, valeria a pena. Mas, além disso, tornou-se um delicioso e aconchegante espaço com salas de teatro, cinema e exposições de arte, biblioteca, café e uma lojinha encantadora especializada em filmes, livros e objetos sobre cinema.

                        A sessão começou às 19h20 e terminou por volta das 21h30. O filme é perturbador, uma dramática história familiar, quase um tango filmado com a maestria de sempre por Coppola.

                        Ao sair, ainda com o filme na cabeça, resolvi caminhar até o hotel pelo calçadão da praia, para aproveitar a noite estrelada e a brisa do mar.

                        Pouco antes do Posto 9, na esquina da Rua Vinicius de Moraes e defronte do hotel Sol Ipanema, que era o hit da época e onde passamos parte da nossa  lua de mel, diviso um amontoado de gente, mais de 50 pessoas, ao redor de um quiosque, bebendo, cantando e se confraternizando alegremente. Quando cheguei mais perto, vi que havia um violonista e cantor, acompanhado de um baterista, interpretando canções de Tom Jobim, tendo ao fundo uma tela que projetava imagens do mestre. Lembrei-me então de que Tom nasceu no dia 25 de janeiro, data da fundação de São Paulo, e ali se fazia uma singela homenagem a ele.

                        Não resisti e parei, pensando que seria uma bela forma de me despedir do Rio nesta breve viagem. Pedi uma caipirinha e me integrei à celebração, juntando-me à pequena multidão em volta dos músicos.

                        E acabei por presenciar algumas cenas extraordinárias, que só podem acontecer no Rio de Janeiro.

                        Um carioca típico, sessentão, grisalho, barriga de cerveja, trajando bermuda e camiseta regata, que sacolejava o corpanzil ao ritmo das canções, de repente tira para dançar uma negra de aparência simples e mais ou menos da mesma idade que estava próxima. E os dois, principalmente ela, dão um verdadeiro show de passos e rodeios, sendo aplaudidos freneticamente pelo público.

                        Logo depois, um tipo aloirado, com todo o jeito de gringo, aproxima-se do violonista e cantor, pede-lhe o microfone e se põe a cantar com forte sotaque inglês, mas surpreendente balanço, Corcovado, que vinha sendo executada pelos músicos. Fiquei pasmo. Ao terminar, agradeceu, dizendo que tinha acabado de chegar de Nova York e que adorava bossa nova e o maestro Antonio Carlos Jobim.

                        Ao meu lado, um sujeito se matava de rir e não parava de berrar “Vai gringo, filho da puta…”, o que a princípio me pareceu uma injustificável grosseria. Porém, logo fiquei sabendo que o tal gringo era carioquíssimo, uma figura conhecida de Ipanema, que mora há mais de 40 anos num prédio logo em frente, e vive a se passar por americano.

                        Quando a apresentação se encerrou por volta das 22h30, em razão da lei do silêncio, acabei por me aproximar do dançarino e do falso gringo, que se chamam respectivamente Fausto e Armando, e com eles mantive uma divertida conversa, ao cabo da qual acabei convidado, quando voltar ao Rio, a me integrar ao grupo que se reúne ali quase todas as noites.

                        Assim é o Rio comigo. Sempre me deixa a porta aberta e mil motivos para regressar o quanto antes. Desta feita, como uma amante sedutora e sapiente, me proporcionou uma última noite de gozosas delícias.

                        Como resistir?

 

 

 

A frase do dia

 

 

 

 

                        “Palavras de ontem são do idioma de ontem

                         E as de amanhã aguardam outra voz.”

                         (Little Gidding, T S. Eliot)

 

 

 

                        Li hoje, no excepcional romance de Philip Roth, Fantasma sai de cena, a citação dos versos acima — numa tradução livre, mas muito boa — do poema de Eliot, o último que compõe os Quatro Quartetos.

                        Por algum tempo suspendi a leitura do livro, a refletir sobre a beleza e o significado dos versos que me tocaram profundamente. Logo fiquei tentado a reproduzi-los aqui, para compartilhar minha emoção com aqueles que me acompanham.

                        Não é essa a primeira vez que isso me ocorre, mas sempre hesitei em me valer do blog para esse tipo de citação.

                        A razão da minha relutância é traumática e portanto, segundo Freud, neurótica.

                        Tenho um amigo (talvez a definição mais precisa seja “conhecido”, já que nos limitamos a contatos sociais, sem maior intimidade) que é um homem de muitas letras e luzes, mestre e doutor, professor celebrado, intelectual reverenciado, escritor e palestrante emérito, de educação esmerada, um verdadeiro cavalheiro. Gosto dele. Admiro sua cultura, simpatia e lhaneza no trato.

                        Mas tem ele uma veleidade (e quem não temos alguma?) inofensiva, mas que me irrita muitíssimo: a de impingir frases de autores famosos sem mais nem menos, de modo absolutamente gratuito, nas conversas mais despretensiosas e informais

                        Mas que calor, hem?

                        Pois é! Aliás, Faulkner dizia… E lá vem uma citação tirada do bolso do colete.

                        Um outro amigo comum (este sim, íntimo), que também se aborrece com tais referências inoportunas (ou oportunistas), acha que o fraseômano acorda toda manhã e antes de sair de casa seleciona uma citação para pontificar durante o dia. E, de qualquer modo, venha a calhar ou não, sentencia.

                        Conta esse mesmo amigo que numa ocasião embarcou num ônibus em São Paulo com destino a Ribeirão Preto, altas horas da noite, exausto, e quanto se acomodou no assento deu com o outro sentado na poltrona ao lado.

                        Cumprimentaram-se, e antes que o outro pudesse sacar a frase do dia (ou da noite), meu amigo abriu um livro e se pôs a ler gravemente.

                        Logo que o ônibus ingressou na rodovia para as quatro horas de viagem, meu amigo deixou o livro cair sobre o peito e dormiu (ou fingiu que dormia). Nem mesmo desceu no posto em que o ônibus costuma parar brevemente, para tomar um café e fumar um cigarro.

                        Quando finalmente o ônibus estacionou na rodoviária de Ribeirão Preto, meu amigo já se regozijava por não ter dado a menor chance para que o outro lhe atirasse a frase engatilhada.

                        Ledo e Ivo engano.

                        Enquanto pegavam a bagagem, o fraseador sapecou:

                        Pois é, Fulano, sabe que durante a viagem vinha pensando no que dizia Kierkegaard…

                        E pespegou Kierkegaard no meu pobre e cansado amigo àquela hora da madrugada…

                        Durma-se com um barulho desses!