Para a Manuela, no seu primeiro ano de vida (e na sua primeira febre)
Um ano é muito tempo,
todo o tempo da vida vivida
pouco a pouco apreendida,
luzes, olores, cores, sabores,
sons gostosos e assustosos,
bichos encantados e amigos,
o urso com música na barriga,
a boneca que ri e que chora,
a bola que rola, a bexiga que estoura,
a lebre que salta do livro,
a primeira febre que arde,
estranha quentura noturna.
Um ano é pouco tempo,
fração de uma vida cumprida
mas não de todo entendida,
luzes, olores, cores, sabores
e sons que se repetem e esvaecem,
bichos e amigos que fenecem,
até que súbito renascem dela
o urso com música na barriga,
a boneca que ri e que chora,
a bola, a bexiga, a lebre alegre,
o amor que se reparte e multiplica,
febre entranha que arde diuturna.